terça-feira, 13 de novembro de 2012

Além da escrivaninha

                                                        (Obra do artista plástico Zirley Ávila)



Ao longe cantou Crioulo, o galo de estimação e dono do quintal, quase despertando Jayme de um sono inebriante que parecia não ter mais fim.     
Na verdade, desejou que o canto fosse apenas uma breve consciência do que estava a sonhar e assim permitiria-se mais uns minutos de um merecido repouso. Mas Crioulo desta vez bradou aos quatro ventos, como se chamasse seu nome.
Jayme acordou.
Nas doze horas, ou talvez doze meses, que ficara desacordado, as palavras que se encontravam agora eternamente gravadas na cerejeira pareciam ter-lhe penetrado os poros dos braços cruzados que repousavam na escrivaninha, sob a cabeça adormecida para o mundo cronológico e viva para a dimensão dos delírios poéticos.
Ergueu-se da cadeira com algum desconforto, inclinando o corpo sobre a escrivaninha, para observar o céu noturno e cinzento, as galinhas que já buscavam seu refúgio no pé de figo e Crioulo, que observava imponente do alto de seu galho a movimentação em seu quintal.
Tornou a sentar vagarosamente e observou as ranhuras feitas no clímax de um arroubo que o levara à exaustão.
Leu e releu diversas vezes. Quando suas retinas não mais se deixavam enganar por cortes acidentais, fechou os olhos e com a ponta dos dedos perdia-se em êxtase com as curvas, os pontos, os verbos, as diferentes profundidades dos sentimentos ali descritos sobre ela, Zélia.
Assim ficou por mais algumas horas e teria ficado muito mais, não fosse uma lasca minúscula e pontiaguda espetar-lhe o dedo indicador da mão direita, interrompendo abruptamente seu transe.
Mas, por mais devoto que fosse de sua obra, sabia que Zélia ali, não se encontraria. Olhava a escrivaninha e seus olhos sorriam. Lembrava de Zélia e seu peito explodia. Pensava em sair e suas pernas tremiam.
Levantou-se, fechou a janela e tentou se virar, mas seu pé ficou preso entre a cadeira e o pé da mesa. Afastou a cadeira com o calcanhar, procurou pelo relógio e lembrou-se que o havia deixado na gaveta. Ao achar o relógio viu que marcava oito horas e trinta e dois minutos da noite anterior e nenhum segundo a mais. Deu corda, mas o velho relógio não reagiu. Jogou-o de volta na gaveta e ao fechá-la prendeu o dedo indicador da mão esquerda. Em um gesto de rara revolta chutou a gaveta, mas de pronto arrependeu-se e trêmulo ajoelhou-se perante ao móvel como se suplicasse seu perdão.
Abraçou-a e quando preparava para deixá-la, um prego solto fisgou-lhe a manga esquerda de sua camisa, causando-lhe um rasgo, porém desta vez não houve desarmonia. Desatou calmamente a manga do prego, virou-se e não mais olhou para trás.
Ao chegar na porta da rua ouviu um estrondo vindo da sala da escrivaninha. Hesitou em voltar, todavia não conteve o impulso e ao chegar à sala encontrou a cortina esvoaçante como se fossem braços estendidos em súplicas, a janela escancarada pelo vento, que uivava lamentos e molhava a superfície da escrivaninha.
Jayme caminhou calmamente até a janela e cerrou-a convincentemente. As cortinas sossegaram conformadas. Já a escrivaninha por fim absorveria as muitas gotas d´agua ali trazidas pelo vento, como se engolisse as lágrimas de uma separação inevitável.   
Jayme finalmente partia ao encontro de Zélia. Não estava muito seguro de que ainda a encontraria como e onde ela disse que o esperaria. Ela havia sido clara em sua carta quando se referiu à hora que o estaria esperando. Oito e meia. Na escadaria da igreja, onde encontravam-se quando os sonhos significavam muito mais do que planos. Quando cada minuto equivalia à uma vida. Quando o único tempo que realmente importava era aquele agora, sem amanhã.  
Alcançou a esquina no pé da ladeira da igreja, mas não a contornou. Seria como cruzar uma fronteira de um país estranho sem direito a retornar à pátria. Se olhasse e não a visse, demoraria o tempo que fosse necessário para conseguir voltar pra casa e encarar a escrivaninha. Se não olhasse jamais saberia. De qualquer forma, só lhe restaria uma escrivaninha rabiscada com memórias e dedicatórias que assombrariam seus pensamentos enquanto vivesse.
Sem alternativa lançou-se à rua e ao virar o rosto, avistou-a no sétimo degrau, bem ao meio da escadaria, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos sustentando seu queixo. Ela sorriu o mais lindo de todos os sorrisos que uma boca ousaria oferecer.
Jayme sentou-se ao lado de Zélia. Zélia reclamou do atraso de Jayme. Dois minutos de pura inexatidão, segundo o relógio de Zélia.
Ali conversaram por horas, dias, semanas e meses sem abdicarem do agora. Falaram da vida, das palavras, dos hiatos, dos medos e, claro, dos sonhos.
Esticavam os braços e pinçavam as nuvens que por ali passavam, comendo-as acreditando ser algodão doce. Desvelaram o sol, recitaram poemas, assobiaram canções, deram-se as mãos.
Beijaram-se.
Amor tão imenso que não cabia na palavra amor. E tão eterno que o tempo parou em sinal de respeito.   

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Nativo do quinto dos Infernos




Depois de sua morte, Heitor foi recebido no céu com ressalvas. Nunca havia sido religioso enquanto vivo e até pregava aqui e acolá sua desconfiança de forma bem contundente, renegando inclusive ao próprio sobrenome como uma maneira de se desfazer, mesmo que unilateralmente, de qualquer vestígio da herança de fé de sua família.
A administração celestial, por sua vez, não tinha outra alternativa, segundo o regimento interno, senão acolher aquela alma recém desencarnada. Mas decidiram que, mesmo antes do purgatório, Heitor seria submetido à uma espécie de quarentena, cujo diagnóstico poderia determinar sua sentença que variaria entre ocupar uma função insignificante, como semear nuvens, lustrar estrelas ou até mesmo fazer pequenos reparos em camisolas, até ser definitivamente banido e enviado direto para o inferno.
Recebeu a punição máxima depois de quebrar inúmeras estrelas (há quem diga que propositalmente), semear nuvens ocas pelas quais vazavam anjos que quebravam suas asas e não podiam desempenhar suas tarefas fundamentais e esquecer inúmeras agulhas emaranhadas nas costuras mal feitas, que acabavam por espetar anjos e santos.
Fez suas malas resignadamente e lá se foi  terra adentro, cada vez mais fundo, cada vez mais quente. De cara ao chegar, reencontrou um de seus únicos e melhores amigos, Anselmo. Recebeu as boas vindas com tapinhas nos ombros e um chute de surpresa nas costas que o fez cair de cara e peito na lama quente. Ao levantar-se procurou pela mala, mas no momento em que caía, soltou-a e a perdeu de vista. De certo fora roubada e suas vestes zombadas e finalmente rasgadas, pois ali elas não teriam nenhuma serventia.
Caminhou por algumas horas com as pernas enterradas até os joelhos na lama e lodo fedorento até que aproximou-se de um palácio gótico, com esculturas escabrosas e grades de ferro maciço. Ouvia uma música que alternava notas dissonantes que culminavam em estribilhos de extrema euforia, que ficava mais alta, mais intensa ao passo que chegava mais perto.
Seguiu palácio a dentro sem ser incomodado, guiado pela música que já palpitava em seu peito, quando finalmente alcançou o corredor que levaria ao salão onde a suposta festa se realizava.
Quando adentrou o salão, a música parou. Houve um silêncio sepulcral. O vazio era sentido em todas as cinco paredes, pilastras e tochas, que ali repousavam intactas aparentemente há séculos, possivelmente milênios.
Caminhou em volta do meio do salão onde havia o desenho de um bode. Aproximou-se e olhou bem nos olhos do animal de cornos espiralados. Fitou-o por alguns minutos e pôs-se a sapatear sobre a figura, ora arrastando os pés sobre ela como se quisesse apagá-la, ora chutando a cabeça com muita virilidade, até que exausto sucumbiu e deitou-se sobre ela. A música explodiu no salão que logo ficou tomado de criaturas inadjetiváveis aos olhos humanos, que dançavam com furor, rodopiavam no ar, se chocavam, gargalhavam e bebiam algo inodoro que lhe foi oferecido. A princípio ressabiado recusou, mas foi seguro por duas das criaturas que enfiaram a garrafa em sua boca, fazendo-o beber quase a metade da bebida infernal. E gostou, a ponto de pedir mais e mais. Quanto mais bebia, mais as criaturas iam ganhando formas reconhecíveis e familiares. Ao término de cinco garrafas reconhecia a todos como companheiros de longa data, que o saudavam e celebravam sua chegada com tanta alegria que há rumores de que a esbórnia era ouvida no céu e que as nuvens estremeciam.
- Mas qual seria o motivo para tanta extravagância de alegria? Perguntou Heitor ao velho amigo do portão que lá também estava a celebrar em meio a todos os outros.
- Eles nasceram, foram criados e viverão por toda eternidade neste lugar. Não conhecem o tal mundo dos humanos. Sequer concebem um céu. Não pode haver lugar melhor para eles do que a própria casa. Sua presença aqui é mais do que ilustre. Celebram a ti, como fizeram a mim. Não te julgaram, na verdade esperam que você o faça com relação a eles. Por isso esforçam-se para que você se sinta tão à vontade que decida não ir embora. Explicou Anselmo.
- Quer dizer que o inferno é bom e que os demônios são bonzinhos?
- Quem criou esses nomes não foram eles. Aliás, eles sabem que são conhecidos assim e pouco se importam.
A conversa foi interrompida por mais bebida, mais danças e gargalhadas que duraram séculos.
Por fim, Heitor lá fez morada. Trabalha como uma espécie de mestre de cerimônias, dando as boas vindas a todos que para lá são mandados. Sente-se tão em casa que vive dizendo que lá nasceu, foi criado e que jamais estivera em outro lugar. E por mais que isso pareça falso, não deixa de ter uma dose de verdade cínica curtida no amargor do sarcasmo.   
Aos que duvidam de Heitor, que lhe façam uma visita e tirem suas próprias conclusões. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As Bodas de Ouro de Jair e Lenir




      Um furo na mangueira de gás praticamente imperceptível, não porém, para a cabeça desgastada de um velho prego na parede, onde um armário de madeira prensada sustentava-se desde a data de sua instalação por um dos padrinhos de casamento de Jair e Lenir. 
         O interruptor já amarelado e já viúvo do espelho que o adornava ao passo que escondia os fios desencapados que encontravam suas terminações de cobre entrelaçadas aos furos dos disjuntores de ferro pintados de preto, ali colocados quando da construção da casa, concluída parcialmente, porém em condições mínimas para ser habitada três meses antes do casamento de Jair e Lenir. 
    Os óculos já embaçados e remendados por esparadrapos e fios de arame que repousavam sobre a mesa de cabeceira, esquecidos pela amnésia cada vez mais constante devido à degeneração neuronal, causada pela avançada idade não refletida no porta retrato que ainda resiste à gravidade de forma inexplicável ao lado dos óculos que magnificam a imagem contida no papel fotográfico contendo a imagem do brinde nupcial de Jair e Lenir.
        A faísca que provocou a chama que alastrou-se primeiro pelo chão, atingindo os panos de prato colocados na alça do fogão para que secassem após a lavagem da louça do jantar de comemoração das bodas de ouro testemunhada por padrinhos, irmãos e irmãs, filhos e filhas, netos e bisnetos, cão de guarda, amigos e amigas, vizinhos e parceiros de carteado, que sem exceção já se encontravam em seus respectivos domicílios na hora do incidente referido que terminou por queimar o restante da casa citada, com os novos armários que substituíram os antigos mencionados e que não pouparam nem os óculos remendados já descritos, nem o porta-retratos à prova de gravidade, foi causada pelo acionamento do interruptor amarelado, dependurado na parede de azulejos antiquados por um invasor que buscava riquezas reluzentes, recebidas em ocasiões especiais com a já registrada comemoração e jamais deixadas para trás quando já longe, em viagem de lua-de-mel pelo interior de Minas adornando os pescoços, dedos, pulsos e orelhas de Jair e Lenir.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Loja de Espelhos




           Amanda finalmente conseguira um emprego de vendedora em uma loja de decoração após meses de incessante procura e tentativas frustradas, que quase fizeram-na crer que a maternidade seria sua sina, ainda que não houvesse conhecido quaisquer candidatos à altura para o cargo de coautor.
     Não era culpa da escassez de ofertas de trabalho, tampouco de pretendentes apaixonados. A razão da demora era a abundância de critérios e regras, ou mais precisamente do critério de suas regras.
           Aos incautos poderia causar espanto o fato de que o emprego finalmente aceito, e este é o termo mais acurado para o caso, não figura entre as dez carreiras mais desejadas pelos filhos da classe média pseudoeuropéia brasileira.
       A vaga foi escolhida a dedo por Amanda e o setor não poderia ser outro senão o de espelhos decorativos.
      É preciso saber que Amanda era uma jovem de vinte e cinco anos, formada em sociologia, com mestrado em ciências sociais aplicadas, que perdeu a visão aos dois anos de idade devido a um glaucoma.
        Sua primeira semana, como ela própria já esperava, não foi promissora do ponto de vista comercial. Nenhum espelho fora vendido e os poucos clientes com quem teve a chance de negociar deram desculpas óbvias como “estou só olhando”, o que não deixa também de ser redundante no referido setor.
          As semanas seguintes não foram tão diferentes da primeira, a ponto de sua posição ficar ameaçada sob a justificativa de não cumprimento de metas. Embora algumas poucas unidades terem sido vendidas, o descontentamento do gerente geral da loja era nítido aos olhos de todos e aos ouvidos de Amanda, que não precisava de palavras, apenas de tons de voz para desnudar intenções alheias.
         Não se deixava pressionar, mas sabia que seu tempo, pelo menos ali, estava contado.
        Adotou um estilo mais agressivo de abordagem, convencida de que a meta do setor era não apenas irreal, como banal. Precisava de uma cliente, e não bastava ser qualquer uma. Deveria ser a cliente ideal, feito sob sua encomenda peculiar.
     Quando ouviu aquela voz suave que indagava sobre a responsabilidade pelo setor, não teve dúvidas de que Fernanda era a mais aguardada de todas as clientes.
        Após Fernanda descrever em linhas gerais o que procurava, Amanda a conduziu ao seu espelho favorito. Tinha linhas sóbrias, com moldura negra de madeira maciça, muito pesado e imponente.
- O que você acha desse? Perguntou Amanda.
- Sem dúvida é lindo. É forte e robusto. Você se importaria se eu te dissesse que você fica linda nele?
         Amanda fora completamente surpreendida pela franqueza de Fernanda.
- Como... como assim?
      Fernanda não se esquivou. Não poderia fingir que não percebera a peculiaridade de Amanda. Também sabia que enxergar não é sinônimo de ver, porém o reflexo no espelho não estava ao alcance dos sentidos de Amanda, a não ser por uma narrativa.
- Você nesse espelho fica como uma senhora altiva, que impõe respeito, cuja dignidade é inabalável. Não sei se é a moldura ou a altura do espelho.
- Lembrei-me de minha mãe com seus seios fartos e pernas firmes e torneadas que realçam essas características que você mencionou.
- Por esta descrição posso supor que você se parece com ela.
- Acho que sim. Talvez você gostaria de ver algo mais despojado, menos tradicional. Sugeriu uma desconcertada Amanda.
     Fernanda aceitou a sugestão e caminharam cerca de cinco passos à esquerda do primeiro espelho. Estavam de frente à uma moldura de flores variadas e coloridas, feitas de ferro, pintadas à mão.
- Então, o que acha desse?
- Suave, romântico e até bucólico. Refletida nele, você fica tão graciosa como uma criança correndo por campos verdes, descalça, de vestido ao vento, soltando gargalhadas descompromissadas e sinceras.
       Amanda sentiu-se nua diante daquela narrativa, mas não escondia o largo sorriso que só as almas puras tem o privilégio de ostentar.
- Minha irmã.
- Como disse? Indagou Fernanda, ao acordar de um transe momentâneo.
- Assim era minha irmã, Rita. Ajudou minha mãe a me criar. Quando fui para a faculdade pagou meus estudos, trabalhando em dois empregos, sem jamais demonstrar nenhum cansaço. Sempre sorrindo, de bem com a vida e feliz por poder me ajudar. Nunca se casou. Para ela, o casamento seria uma forma séria de acabar com sua alegria de viver. E para ela, viver era brincar. Tinha uma pele tão cheirosa que  todos os perfumes se calavam  por onde ela passasse.
     Amanda descrevia sua querida irmã com tanta fluência que ela quase se materializava naquele espelho. Entretanto, ao se calar e suspirar de saudades, não mais ouvia a respiração de Fernanda, levando-a por um instante supor que sua tão esperada cliente se cansara de toda aquela conversa e fora embora. Sentimento este prontamente desautorizado pela tranquila voz de Fernanda.
- Se dizes que o sorriso dela era lindo eu acredito, só não posso concordar que seja mais do que o teu. E é o seu cheiro que dá vida às flores do espelho.
   Por mais que Amanda tentasse disfarçar sua felicidade sob uma postura formal e profissional, seus lábios grossos a venciam e se esticavam expondo aquela sequência irrepreensível de dentes brancos como carne de coco.
     Viram outros vários espelhos e molduras. Cada espelho, uma personagem da vida de Amanda. Lá estavam também, seu pai, tios e tias, amigas de infância, primos e primas.    Fernanda enfim, depois de muito procurar, fez uma escolha. Quis Amanda, de carne e osso.
      Amanda defendeu sua tese sobre múltiplas identidades e após a conclusão de seu doutorado tiveram duas filhas. Angela, gerada no útero de Fernanda, é suave e graciosa como Amanda, mas a sua audácia não deixa dúvidas da influência de Fernanda. Já Dandara, não é necessariamente sutil, assim como Fernanda também não o é. Mas os ancestrais de Amanda estão presentes na alma e pele negras de Dandara, no seu sorriso desconcertante, no perfume inebriante e na intelectualidade ímpar.
      Amanda nunca mais procurou emprego. Divide seu tempo entre as filhas, suas aulas, pesquisas e a loja de espelhos que abriu com Fernanda, a menina para muito além dos seus olhos.      
   

domingo, 23 de setembro de 2012

Boa noite e bom trabalho


 
 


Esta não é uma carta, nem uma mensagem implícita para atiçar a sanha dos decodificadores fanáticos.

Vamos combinar que haverá entre nós uma coautoria onde eu tomei a iniciativa de escrever e você de vivenciar as palavras para além de suas formas e paradigmas.

Minha tarefa é básica e direta. Decidi escrever em meio a uma crise de insônia e só tenho algumas coisas a serem ditas que não tomarão muito do meu tempo de sono desperdiçado.

Já a sua, devo admitir, trata-se de desapegar-se e até mesmo abdicar de outras tarefas que se não mais importantes, pelo menos mais prazerozas possivelmente seriam.

Por isso você tem a primeira oportunidade de parar por aqui e não se comprometer. Daremos a parceria por encerrada e cada um continua a trilhar seu caminho sem maiores danos à breve amizade. Caso resolva continuar, as próximas linhas serão dedicadas às questões simples, porém primordiais.

Sem mais rodeios esta mensagem aberta é para você que tomou a decisão fundamental de sair da cama mesmo que a muito penar para exercer a sua atividade prioritária, seja ela remunerada ou não, a fim de promover seus desejos materiais e imateriais da categoria dos sonhos para a categoria das ilusões factíveis.

A respeito da cama, sair dela não seria necessariamente um problema se não investíssemos tanto em colchões que massageiam o corpo, travesseiros que fazem cafuné e cobertores que acariciam a alma. Caprichos que fazem bem, mas custam caro.

O que inevitavelmente nos leva à observação das atividades prioritárias como estudar e trabalhar, ambas podendo ser ou não remuneradas.

Para você que estuda e não é remunerado para isso, em um futuro breve, pelo menos do ponto de vista de quem não mais goza do privilégio da irresponsabilidade autorizada, seus esforços serão medidos, contabilizados e categorizados para fins de organização social. Com efeito, sua remuneração não representará equitativamente o seu valor como ser-humano, mas a sua serventia enquanto ser-vir-como-lucro-humano.

Aos que estudam e são remunerados para isso raramente se vê tanta paixão em outras atividades quando comparadas à esta. Independente de profissão, cargo ou incubência. Este é o detalhe que os difere dos trabalhadores remunerados por cumprir horários e rotinas. Não menos dignos, todavia mais anestesiados.

Por fim, os que trabalham e não são remunerados, por vontade própria ou não, de forma aleatória ou sistemática, com ou sem amparo legal, não podem nem devem deixar fenecer o desejo de reconhecimento, remunerado ou não, realizado pelo gesto fraterno ou pela luta armada.

Mas independentemente da sua categoria, você saiu da cama onde repousava justamente.

Tamanha gana e dor terão sido inúteis perante às tais ilusões factíveis. São ilusões, pois ao término de sua empreitada nesse mundo não farão parte de seu enxoval funerário. São factíveis pela falsa sensação da possibilidade de obtenção.

O que nos sobra? O que terá sido verdadeiro? Qual é a justiça de seu sono?

 Fora de tudo o que foi dito acima encontra-se você que não se conhece a não ser por julgar aquilo que as outras pessoas são e também deixam de ser.

Você que não teve escolha a não ser participar do diálogo infinito dos corpos e seus respectivos portadores com as regras que os cavalgam.

Você que destituído de moedas busca cicatrizar a vida com poesia, música e tintas. Que mesmo oriundo de outrora se encontra no agora e não se julga sabedor do porvir.

Que  saboreia os desinvernos fora de época e não teme os desverões necessários.

Que constitui uma unidade indivisível da legião dos solitários, mas que procura cercar-se de quantas legiões idênticas forem possíveis e necessárias.

Que assovia sua canção favorita fora do ritmo, do tom, batucando com os dedos despretensiosamente para platéia nenhuma e ainda dá bis.

Você que já voou de costas com braçadas largas e o peito estufado, oferecendo-se ora ao sol, ora às estrelas e fez pouso suave no pé da mangueira no quintal de sua avó.

Que rasga casca de manga com os dentes e lambuza as bochechas. Que começa a comer a maçã pelo meio, mas ao contrário dos estadunidenses também come o restante. Que come a goiaba bem devagar e poupa a vida do bicho.

Que pisa forte na poça d´agua e chuta pedrinhas para que cruzem o caminho de outros pés.

Que agora já pensa em tantas outras formas de contentamento que esta mensagem não mais depende de quem a começou.

 De forma que já posso apagar a luz, fechar meus olhos e ter a sensação ilusória, contudo factível, de uma jornada de sono justa, desprovida de obrigações, porém repleta de saudades dos tempos em que para poder sonhar era preciso desacordar.

domingo, 20 de maio de 2012

A outra versão da memória




     Ficou incumbido de organizar os pertences de sua mãe, que não eram poucos e ocupavam espaços além das fronteiras concretas da casa velha.

     Não tinha talento para distinguir objetos em tantas categorias, de forma que procurou executar a penosa tarefa de maneira bem objetiva. Seriam coisas rentáveis e coisas doadas. Simples assim.

     Os irmãos abstiveram-se dos julgamentos, reclames e ostentações. Só não abriram mão da desobrigação.

      À sua frente, algo em torno de um século de intenções acumuladas. Primeiro, foram-se os infinitos pares de sapatos, vestidos e outros seres inanimados que tocaram o findo corpo. Todos doados a destinatários indigentes, transeuntes oportunistas, habitantes do mundo à parte.

   Tudo que reluzia seria derretido para retornar ao estado sólido somente designados como objetos a serem trocados por algo semelhante, de uso corrente.

    Duas pilhas de estorvo se acumulavam em dois cômodos diferentes e a empreitada se aproximava do fim. A mobília já nua de seus penduricalhos aguardava sua vez de ser desfeita.

   No último compartimento de uma estante da sala estar havia tres caixas curiosamente discriminadas pelos seguintes temas: Augusto, Gustavo e Rodolfo. A primeira e a última postas de lado, seriam devidamente entregues.  A restante permaneceu intacta e era observada com aguçada covardia.

   Ali deveriam estar contidas as relíquias extirpadas de seu corpo, seu vestígio de ligação carnal com uma carne já não mais presente. Dos registros momentâneos, não faltaria sua versão debilóide, de pouca fala, cabelos ralos e boca desdentada. Também constaria o dia da redenção em que ultrapassara a fronteira entre o paganismo e a salvação através da escravidão voluntária.

   Algum recorte de papel público que muito orgulhou à sua guardiã e que exibido à exaustão, provocava a inveja alheia.

   Havia o primeiro isso, a primeira aquilo e a última vez em que alguem fez algo em algum lugar no dia tal.

   Cansou de imaginar o que deveria cobrá-lo de suas memórias e decidiu dar-lhe o mesmo fim que todos os demais. Mas, precisaria primeiramente discriminar entre inflamáveis e enterráveis.

   Abriu a caixa e encontrou uma câmera fotográfica e filmadora de alta definição numa embalagem lacrada, uma linda caneta recarregável, um disco rígido externo de um tera de memória, tintas, pincéis, agulha, linha, estojo de maquiagem, um livro de receitas da culinária Tailandesa e um bloco de notas em branco. 

   Num arroubo de inveja abriu as caixas alheias e se deparou com quase tudo igual, com exceção de outras duas culinárias.


domingo, 16 de outubro de 2011

Nó na madeira


Seu Pituca não saía do quarto há dias. Sempre compunha em clausura. Alegava que a inspiração não precisa de paisagem, nem companhia. Munido de cavaquinho e lembranças, ensaiava acordes que logo em seguida dissipavam com a fumaça do cigarro de palha que decorava o canto de sua boca.

Rosaura, já habituada à rotina do velho companheiro, anunciava protocolarmente as refeições da casa, mas nesses períodos não alimentava esperanças de compartilhar seu cotidiano, muito menos suas amarguras. Seu Pituca deixava seu refúgio quando o corpo pedia. E pedia cada vez menos.

A casa era modesta. Não havia falta nem fartura. Os móveis já haviam assumido a ergonomia necessária para garantir o aconchego dos que ali viviam, inclusive dos amigos mais frequentes.  Cada porta rangia num acorde afinado ao estágio de sua ferrugem. Da cozinha vinha o brugurundum das colheradas contra as panelas cheias das delícias de Rosaura.

 Seu Pituca já havia cantado a beleza de suas dores em poesia. Parecia saudar a melancolia, que em retribuição, punha um sorriso matreiro no rosto do sambista. Mesmo sabendo que a dor do sambista é incurável, ainda assim a contemplava como se fosse a quintessência da beleza.

Acorde pra cá, terça-feira pra lá, acorde acolá, sexta-feira se vai. O domingo já vem. O samba não.

Culpados não faltam. Ora a madrugada silenciosa, ora a chuva e sua cônjuge falta de luz. Experimenta um Lá, troca por Mi, empaca em Dó. Vai à fá, regride em ré. A vida antes sustenida, tropeça em bequadro.

Da fumaça só fica o cheiro, impregnado nas paredes e cortinas. Se o samba ninguém cantou,  ninguém ouviu. Já a dor, passou a existir. Em uma outra casa modesta, já se pode ouvir os primeiros acordes de um outro cavaquinho.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre escrivaninhas e escadarias


O retrato de sua amada Zélia ainda repousava sobre a escrivaninha de cerejeira, posicionada sob a janela do escritório, com vista desimpedida para a cidade.

Algumas páginas amareladas contendo versos sobre linhas descomprometidas ainda aguardavam seu desfecho sob a bola de vidro que repousava como guardiã daqueles fragmentos de história. A velha caneta tinteiro ainda aguardava ansiosamente pelos punhos inquietos de Jayme, mas a tinta, seca há tempos, apenas borrava o fundo do frasco.

Enquanto a fotografia permanecesse à sua frente, nenhuma palavra seria pronunciada, tão menos escrita.

Zélia, sentada nas escadarias da Igreja, no frescor de seus quinze anos, ao sorrir dizia tudo que Jayme queria escutar, mesmo que inaudível em preto e branco aos incautos.

Jayme sabia de Zélia apenas o suficiente para que aquele momento eternizado em papel nunca perdesse o toque quase libidinoso de seus lábios. A suavidade de Zélia desamparava o homem que se tornava um menino ao deitar naquele colo macio, recebendo dos hábeis dedos de sua amada as carícias que separavam cada fio de seus cabelos.

Foram poucos os momentos de presença. Muito mais intensos do que várias existências alheias vividas em gozo efêmero.

Jayme não era presente, mas onipresente onde quer que Zélia em seu pensamento se materializasse. Teriam filhos, formariam uma grande família. Viriam os netos, quiçá bisnetos.

Jamais acreditou que ela se ausentaria de sua vida por uma razão que não fosse irremediável. Irremediável para Jayme só a morte. Para o resto, onde os planos não podem prover, faça-se o sonho.

Abdicou de quaisquer planos, para não se escravizar em expectativas. Não nascera para mártir. Suas aspirações de tão humildes, o acanhavam perante os amigos. Não estocava alimentos. Trazia apenas o essencial para o dia. Fazia a feira sete vezes por semana, duas vezes ao dia, em quatorze lugares diferentes. Acreditava que assim aumentaria suas chances de encontrá-la.

Piegas, bêbado, pândego, digno de pena. Restava-lhe a escrivaninha, as folhas amareladas, a caneta, o frasco com tinta seca e a imagem anacrônica de uma Zélia que teimava em existir em seus pensamentos.

Quando por debaixo da porta ouviu o deslizar inconfundível do envelope pardo, levantando a poeira que soterrava o chão de sua casa.

Leu seu nome escrito com letras desenhadas por mãos suaves. Mãos femininas, de certo. Abaixar para apanhar o envelope durou exatamente trinta e cinco suposições diferentes de remetentes que sempre convergiam para um, ou melhor dizendo uma. A uma.

Se virasse o envelope poderia se deparar com aquele nome e então teria que abdicar de seus pertences, sua rotina, sua vida.

Chegou a desistir, mas quem seria capaz de outorgar a si mesmo a condição de covarde-mór perante a possibilidade da felicidade desejada? Quem constrói um panteão deve assumir a condição que lhe cabe, não de rei, mas de curador de suas premissas.

Assim tomou o envelope em suas mãos. Ao virá-lo lia-se um certo logradouro. Havia um nome talvez, mas o logradouro saltou-lhe aos olhos. Dirigiu-se à escrivaninha. Empunhou sua caneta. Cuspiu no frasco de tinta e por milagre o que era fosco pôs-se a brilhar. À primeira página deu o tratamento de uma rainha. Teceu todos os sentimentos que dispunha para formar o tecido que agora lhe vestia o espírito.

Arrebatado pelas linhas que via formar à sua frente, foi se distanciando e cantarolava, ora gargalhava, voltava a cantarolar, sorria, finalmente estabelecendo com a fotografia uma cumplicidade  que sempre desejara ter em corpo presente.

Por seus dedos passavam gracejos, reticências, rimas e versos obsequiosos. Não omitiu um termo sequer que não devesse ali constar.

Passou dias a redigir. Ao final de cada missiva, rasgava e recomeçava do zero. Sentia um prazer inesgotável em recriar. Ficaria ali por todas as encarnações que tivesse direito a se ocupar daquela tarefa por tanto tempo desejada.

Foram tantos recomeços que os papéis se esgotaram. Raspou o frasco de tinta até o ponto em que a última gota de saliva nada mais pudesse fazer. Cogitou escrever com o próprio sangue, mas não plagiaria um mero marquês libertino.

Com a ponta seca da caneta lanhou a carne da cerejeira, lavrando sua resposta em caráter irrevogável.

Sorriu ,enfim, à fotografia, com a sensação do dever quase cumprido.

Zélia nunca esperou a resposta. Esperava por Jayme, na escadaria da igreja, com o mesmo sorriso inconfundível.

Ávida. Linda. Suave. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Beira rio


Trazia consigo um banquinho de madeira que colocava à beira do rio, mais ou menos na mesma posição, a alguns centímetros da água.

Não pescava nem atirava pedras para não interferir no curso do querido companheiro. Ali, apenas depositava suas esperanças e as via fluir leito abaixo para que um dia, quem sabe, servisse de mar para outros menos afortunados.

Cumpria com sua rotina com disciplina invejável e com o rigor dos mais sérios dos compromissos.

Até que um dia se viu abandonado pelo nobre amigo, sem aviso prévio, sem argumentação.

Não abdicou do direito de estar ali, quando o desejado retorno se materializasse.

Com as pernas esticadas, repousava os calcanhares na lama quase seca do antigo leito.

Assim ficou até que o mato surgisse por entre as fendas ressecadas do chão torrado.

Por fim o céu tornou a escurecer. Os roncos ecoavam pelo vale. As pedras talhadas por carícias de águas antigas exibiam o musgo marrom que já sentiam os primeiros respingos.

A princípio tímido e fino, mas reclamando a imponência foi reganhando seu curso, arrebatando folhas e galhos secos, separando as margens, fluindo para o reencontro.   

Porém, quando retornou já não era o mesmo rio, tampouco as esperanças pertenciam ao mesmo homem.

 Prometeu a si mesmo nunca mais se ausentar.

Novo, purificado. Ora raso, ora profundo. Ruma por que tem que seguir adiante. Desemboca onde será bebido. Por gargantas sedentas ávidas por alívio. Por paisagens carentes de tinta. Por criaturas munidas de saudades.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Adolescentes



Por que as pernas bambeam

Por que o ar desaparece

Por que os os rostos queimam

Por que a saudade reaquece

Por que os dedos se calam

Por que a voz emudece

Por que as roupas molham

Por que a pele não esquece

Por que os hormônios exalam

Por que a vontade cresce

Por que tudo que desejam

É que o tudo jamais cesse.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Sociedade Secreta dos Ignóbeis


Milenar. Alguns dizem que sempre existiu, mesmo que desorganizada. Com certeza eterna.

Não possui uma sede. Não se lavra em cartório algum. Ela simplesmente acontece quando dois ou mais membros decidem reunir-se para confabular. Obviamente há as convenções cerimoniais, e os ritos aprendidos quase que por osmose.

Seu fundador é o Exmo. Orgulho, casado com a Exma. Vaidade. É tudo que se sabe a respeito da origem da seita secreta, que a cada segundo ganha novos adeptos mundo a fora.

Sua unicidade é perpetuada pelo reconhecimento automático de seus membros e a submissão inquestionável à hierarquia estabelecida.

As informações que vos apresento não me custaram muito esforço. Através da Exma. Propina e com a colaboração voluntária da Exma. Fofoca e Exma. Intriga, obtive vasto material que sou agora obrigado a selecionar, a fim de respeitar os limites de espaço que aqui enfrento.

Relatam que em grandes reuniões a Exma. Falsidade é quem dá as “boas-vindas” aos participantes. Na passagem transcrita por mim, em áudio obtido com a ajuda da Exma. Maracutaia podemos ter uma idéia de como as identidades são levadas a sério:

EF: Que prazer em vê-lo Exmo. Imbecil!

EI: Faço minhas suas palavras! O prazer é todo meu!

EF: Imbecil. (quase inaudível).

Em outra conversa já no salão principal, flagramos uma negociata entre o Exmo. Conluio e seu parceiro Exmo. Malandro, tratando de suas próximas investidas. A qualidade do áudio ficou prejudicada pelo fato de que o Exmo Malandro sempre tem um comparça, o Exmo. Veiaco por perto, o que obrigou a nossa fonte a manter uma distância maior do que a ideal, mas o resumo da transcrição é confiável:

EC: Você consegue arranjar uns biscoitos até terça de manhã? A turma tá me pressionando lá. Eles estão com fome.

EM: Consigo sim, isso aí é tranquilo.

(“Biscoito” é o termo usado para o desvio de verba usada na contratação dos buffets servidos nas reuniões da Sociedade Secreta.)

EC: Do jeito que você tá dizendo é garantido.

EM: É garantido. O homem lá joga aqui com a gente. Tá na diretoria atual, entendeu?

EC: Então tá bom. Eu vou aguardar.

Acredita-se que o tal homem seja o Exmo. Traíra Sutil, tesoureiro principal da seita. O subtítulo na Sociedade Secreta dos Ignóbeis é fato muito comum, pois a recorrência dos títulos é considerável devido ao extenso quadro de membros. Outra razão que explica a ocorrência de subtítulos ou títulos secundários é o caráter particularista dos membros, que formam espécies de famílias ou clãs dentro da sociedade secreta e conseguem assim perpetuar seus privilégios.

Há títulos que chamam atenção como Exmo. Espólio Desvio, Exmo. Sonegador Assumido e Exmo. Nojo de Povo, este último exercendo cargo estratégico na hierarquia, gozando de muito prestígio entre os delegados votantes. Aliás, os pleitos para definição de cargos são mera formalidade, mas isso não abala, ao contrário afirma a crença na estrutura da seita.

Em depoimento franco, um dos delegados, o Exmo. Pulha Calhorda defende veementemente o atual modelo de votação:

EPC: É inconcebível qualquer outro modelo que não seja este vigente, pois os delegados são os únicos membros com o conhecimento necessário das necessidades da Sociedade Secreta dos Ignóbeis.

Somente os delegados podem propor mudanças nesse sistema. Houve uma tentativa por parte de um delegado conhecido apenas por “Trouxa” de mudar o sistema, mas o projeto não foi sequer levado à votação e o membro foi permanentemente excluído do quadro de delegados, sendo despromovido ao quadro de contribuinte pleno, ou seja, aquele que paga com acréscimo de 10% por já ter feito parte do colegiado.

 Vale destacar que somente representantes masculinos fazem parte do colegiado. As representantes femininas ocupam no máximo funções complementares. O mais alto cargo obtido por uma representante feminina até hoje é o da Exma. Burocracia, que atua como agente infiltrada em organizações inimigas.  

Se você deseja fazer parte da Sociedade Secreta dos Ignóbeis, precisará submeter-se a um tutorial de uma semana, com investimento relativamente baixo. Adquira seu kit nas bancas de jornais (jornais de grande circulação e revistas de títulos imperativos). Complemente com recursos áudiovisuais através dos telejornais diários (todas as edições são obrigatórias) das principais emissoras de TV e rádio (as consideradas oficiais em termos de formação de opinião). Talk shows, reality shows e seriados enlatados são considerados como atividades complementares, assim como comédia-em-pé.

O seu certificado de membro será emitido somente após o pagamento da matrícula e as mensalidades poderão ser pagas por boleto bancário.

Mais informações acesse www.sociedadesecretadosignobeis.com  

Clube das Virtudes


Fundado em nove de Agosto de 1948, o Clube das Virtudes acaba de ser reconhecido mundialmente pelos serviços prestados à humanidade. Entretanto, apesar de sua fama internacional, continua mantendo o status de grupo mais seleto que se tem noticia.

Motivadas pelo fim da Segunda Guerra Mundial e orientadas pela Declaração Universal do Direitos  Humanos, cinco senhoras distintas, que nutriam uma relação de admiração e respeito mútuos, apesar da pouca convivência pessoal, passaram a se reunir com certa frequência para discutir questões relativas a bem estar comum, cidadania e garantia de direitos, além de coordenarem ações que promovessem a idéia de um mundo melhor, mais justo, menos desigual.

Os nomes das distintas senhoras não serão revelados por um motivo simples. Consta no estatuto do Clube das Virtudes, parágrafo dois que:

Os membros serão conhecidos e tratados pelo nome de suas virtudes, ficando assim estabelecido que o tratamento pelo nome próprio somente será permitido em situações particulares que não envolvam o nome da entidade.

Portanto, assinaram a primeira ata Sra. Esperança, Sra. Liberdade, Sra. Justiça, Sra. Verdade e Sra. Ética.

Havia um rígido critério para a escolha dos nomes dos membros, sendo a observação mútua e constante dos desígnios de cada virtude o principal de todos. Somente após inúmeros relatórios, debates e consenso absoluto, os nomes eram conferidos.

As intervenções na sociedade repercutiam de forma a atrair muitos candidatos a membros, em sua maioria oportunistas que desejavam apenas um retoque em suas reputações desgastadas. Porém, a necessidade de ampliar os efeitos das ações promovidas, a ponto de universalizá-los, fez com que novos membros fossem recrutados, sendo submetidos a rigoroso escrutínio moral, para então receber um título provisório de Membro colaborador, ou como eram informalmente tratados por Os Humildes.

Membros importantes foram reconhecidos como a Sra. Honestidade, Sra. Paciência, a Sra. Generosidade e a Sra. Confiança. O primeiro representante masculino a receber o status de membro permanente foi o Sr. Respeito, casado com a Sra. Dignidade, pais da mais jovem representante, mas não menos importante, Sra. Democracia.

Obviamente, o Clube das Virtudes, por mais que ostentasse uma criteriosa constituição, sofreu inúmeras tentativas de sabotagem, algumas com efeitos desastrosos, como no caso da Sra. Burocracia. Com grande poder de persuasão, seus projetos eram propostos com o claro intuito de tornar mais difícil a execução. Com o respaldo da Sra. Auditoria, chegaram a praticamente imobilizar o clube, mesmo nas tarefas mais simples. Por sugestão da Sra. Generosidade, com o apoio da Sra. Coerência, foram relegadas às atividades menos estratégicas.

Com tantos anos de atuação e inúmeras contribuições para o mundo atual, O Clube da Virtude ainda é visto como uma entidade hermética e elitista, sobretudo por aqueles que foram Humildes, mas não o suficiente para obter a credencial definitiva e também pelos incautos, atraídos pelo cheiro mofado de papel gasto.

Se você estiver interessado em se tornar um membro do Clube da Virtude é necessário aguardar que que sua necessidade de atendimento venha de encontro aos projetos em execução, para então de acordo com sua atitude ao receber o benefício, merecer uma indicação de um dos membros definitivos.

Importante lembrar que necessidades individuais só serão consideradas em casos muito especiais. Portanto, para que o atendimento seja feito, é fundamental organizar-se coletivamente e apresentar um requerimento à Sra. Coerência, que analisará os casos de acordo com sua urgência.

   Mais informações acesse www.clubedavirtude.org

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tateando o cais do porto



Os piados incessantes que ouvimos são de mães que buscam o sustento da prole faminta.
Elas devem se apressar pois logo não haverá espaço para pescar e seus piados só serão ouvidos ao longe, com muito atraso.
O quê veio buscar o amigo que não mais encontra?
Teria aquele capitão levado o cheirinho de orquídeas para depois dos ventos?
Deve estar pensando que assim termina a história e desejando que a água esteja gelada e profunda.
Toda desesperança começa e termina na presunção da realidade.

Se eu fosse mais jovem o perseguiria a fim de evitar uma tragédia inútil, mas ainda posso lhe oferecer meus ouvidos e minha imaginação.
Eu prometo narrar teu sacrifício a todos que quiserem ouvir. Direi que gritou mais alto seu nome do que o retumbar ensuredecedor dos porões que de madrugada sabotam meu sono.
Contarei teus passos apressados até mil, incluindo os que não te levariam a lugar algum.
Darei ao amigo um nome digno do maior dos heróis e sua dor será sentida até nos confins das almas mais indiferentes. A ninguém será concedido o direito à zombaria e sua memória comigo estará mais preservada do que numa lápide fria e muda.
Será conhecido em todas as línguas que por aqui passarem e sua epopéia viajará por tantas águas que quando aqui voltar terá se tornado infinitamente maior do que na sua partida.
Ela enfim ouvirá e voltará para buscar vestígios de sua saudade. Virá a mim, certa de que saberei de algo que as autoridades apenas suspeitaram. E por ter os últimos ouvidos de tua existência, serei o guardião do teu segredo e só o revelarei quando ela finalmente me persuadir.
Porém asseguro-lhe que um simples pedido não bastará.
Perdão, ainda que sincero, será insuficiente. De minha parte não terei pena nem de ti nem dela.  A pena é o sentimento daqueles que julgam com cores e formas e que por isso desconhecem os pormenores do mundo.
Deverá tocar minhas mãos. Estas sim, dignas de credibilidade, pois conhecem as coisas por vivas ou não.
Em suas mãos quero sentir a umidade salgada, o tremor invernal e a leveza da sinceridade.
Seria assim tua redenção, ainda que em relativa paz o amigo repouse.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eugênio e Agenor

O recipiente translúcido repousava sobre a mesa. Sob o olhar atônito de Eugênio, Agenor depositava no recipiente a água fresca que trouxera em uma jarra cheia, quatro vezes maior do que o recipiente. Eugênio se inquietava com aquela desproporção, mas era incapaz de evitar o fluxo. Para cada água que entrava no recipiente outras mil saíam. Excitado, Agenor observava que a água produzia formas variadas incontroláveis sobre a superfície lisa escura. Dava gargalhadas soluçadas a cada nova figura que surgia. Bruxas narigudas, cachorros pulguentos, mãos de sete dedos, galhos esqueléticos e bocarras com presas gigantescas. Foi quando, enfim, percebeu a presença de Eugênio, contorcido e quase imóvel senão pelo lento abrir e fechar de suas brânquias. Uma pergunta reverberava incessantemente apenas aos ouvidos quase virgens de Agenor:

- Eugênio, o que foi que te fiz?

terça-feira, 19 de abril de 2011

O mundo dos encarcerados


A descoberta do fogo, tão enaltecida e romantizada, ofusca uma crítica incomum e necessária: a invenção das portas. O que já se consumiu de madeira e esforços humanos é incalculável. E tudo isso para que possamos usufruir da privação das pessoas de acessar o ambiente cerrado. Diante de uma porta trancada cresce a tentação da chave, motivada pela curiosidade e desejo de pertencer.  Tentação inútil se já temos o fogo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A clausura do sem-povo



                                                                                             Fotografia: Lisandra Arantes

Foi hoje cedo que abriu sua janela e deu de cara com o povo. Se a mantivesse fechada não teria visto povo de gravata, de marmita, de bicicleta, de motorista particular, povo com povo na barriga. Tinha povo que dormia sob a marquise, que se bronzeava na areia, que falava ao telefone. Tinha um povo que descia do morro e que no bar da esquina tomava cafezinho com pão quente na chapa. Tinha outro povo que chegava ao morro vindo não se sabe ao certo de que samba, mas que era feliz, assim como todos os outros, que à sua maneira se sabiam povo do mesmo povão que juntos formam uma nação inseparável, nem sempre reconhecida, posto que nem sempre vista pelos olhos da decência, não menos digna de respeito do que qualquer outro povo. Não muito à vontade, banhado em perfume barato, foi deixando-se misturar. Permaneceu em sua janela até que alguém o pudesse ver. Ao ser avistado, percebeu que ao povo não merecia pertencer. Fechou para sempre a maldita janela para enfim viver como povo de um homem só.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Brasil, capital Brasileiro



Meu corpo é estrada aos que vão

Que levam mais que vontade, a convicção

Que renasce por que não há milagre maior do que o do ser que se liberta

Que se realiza transformado naquilo que nascera pra ser

E por força da força, esquecera de desejar.

Eu sou o meu verbo, eu sou a canção.

Eu tenho o mistério, a graça, a justiça

Me desfaço da preguiça, da opressão

Encarno meus ancestrais, de todas as raças, de todas as fés

Certifico-me que da cabeça aos pés

Só vejo Brasil.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Anti-guerra


Quem se importará se por acaso eu assassinar a verdade em nome dos meus desejos ocultos?

Quem haverá de questionar um decrépito profeta que não deposita nas próprias palavras uma fé digna de ser celebrada?

Por acaso alguém haverá de desistir de ludibriar os olhos do cego quando o mais racional seria fazê-lo ver?

E o que me dirá aquele que jamais se defrontou com suas vicissitudes e num ato de extrema covardia, brada aos quatro ventos os nortes que devemos perseguir?

Quem entre nós arrefeceu as paixões?

Quais de nós não teme e por temer deixou de gozar?

É que o gozo fácil está ali. Tem hora marcada. Preço baixo. Cores vibrantes. Aroma fresco. E sabor de libertinagem.