segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tateando o cais do porto



Os piados incessantes que ouvimos são de mães que buscam o sustento da prole faminta.
Elas devem se apressar pois logo não haverá espaço para pescar e seus piados só serão ouvidos ao longe, com muito atraso.
O quê veio buscar o amigo que não mais encontra?
Teria aquele capitão levado o cheirinho de orquídeas para depois dos ventos?
Deve estar pensando que assim termina a história e desejando que a água esteja gelada e profunda.
Toda desesperança começa e termina na presunção da realidade.

Se eu fosse mais jovem o perseguiria a fim de evitar uma tragédia inútil, mas ainda posso lhe oferecer meus ouvidos e minha imaginação.
Eu prometo narrar teu sacrifício a todos que quiserem ouvir. Direi que gritou mais alto seu nome do que o retumbar ensuredecedor dos porões que de madrugada sabotam meu sono.
Contarei teus passos apressados até mil, incluindo os que não te levariam a lugar algum.
Darei ao amigo um nome digno do maior dos heróis e sua dor será sentida até nos confins das almas mais indiferentes. A ninguém será concedido o direito à zombaria e sua memória comigo estará mais preservada do que numa lápide fria e muda.
Será conhecido em todas as línguas que por aqui passarem e sua epopéia viajará por tantas águas que quando aqui voltar terá se tornado infinitamente maior do que na sua partida.
Ela enfim ouvirá e voltará para buscar vestígios de sua saudade. Virá a mim, certa de que saberei de algo que as autoridades apenas suspeitaram. E por ter os últimos ouvidos de tua existência, serei o guardião do teu segredo e só o revelarei quando ela finalmente me persuadir.
Porém asseguro-lhe que um simples pedido não bastará.
Perdão, ainda que sincero, será insuficiente. De minha parte não terei pena nem de ti nem dela.  A pena é o sentimento daqueles que julgam com cores e formas e que por isso desconhecem os pormenores do mundo.
Deverá tocar minhas mãos. Estas sim, dignas de credibilidade, pois conhecem as coisas por vivas ou não.
Em suas mãos quero sentir a umidade salgada, o tremor invernal e a leveza da sinceridade.
Seria assim tua redenção, ainda que em relativa paz o amigo repouse.