quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eugênio e Agenor

O recipiente translúcido repousava sobre a mesa. Sob o olhar atônito de Eugênio, Agenor depositava no recipiente a água fresca que trouxera em uma jarra cheia, quatro vezes maior do que o recipiente. Eugênio se inquietava com aquela desproporção, mas era incapaz de evitar o fluxo. Para cada água que entrava no recipiente outras mil saíam. Excitado, Agenor observava que a água produzia formas variadas incontroláveis sobre a superfície lisa escura. Dava gargalhadas soluçadas a cada nova figura que surgia. Bruxas narigudas, cachorros pulguentos, mãos de sete dedos, galhos esqueléticos e bocarras com presas gigantescas. Foi quando, enfim, percebeu a presença de Eugênio, contorcido e quase imóvel senão pelo lento abrir e fechar de suas brânquias. Uma pergunta reverberava incessantemente apenas aos ouvidos quase virgens de Agenor:

- Eugênio, o que foi que te fiz?

terça-feira, 19 de abril de 2011

O mundo dos encarcerados


A descoberta do fogo, tão enaltecida e romantizada, ofusca uma crítica incomum e necessária: a invenção das portas. O que já se consumiu de madeira e esforços humanos é incalculável. E tudo isso para que possamos usufruir da privação das pessoas de acessar o ambiente cerrado. Diante de uma porta trancada cresce a tentação da chave, motivada pela curiosidade e desejo de pertencer.  Tentação inútil se já temos o fogo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A clausura do sem-povo



                                                                                             Fotografia: Lisandra Arantes

Foi hoje cedo que abriu sua janela e deu de cara com o povo. Se a mantivesse fechada não teria visto povo de gravata, de marmita, de bicicleta, de motorista particular, povo com povo na barriga. Tinha povo que dormia sob a marquise, que se bronzeava na areia, que falava ao telefone. Tinha um povo que descia do morro e que no bar da esquina tomava cafezinho com pão quente na chapa. Tinha outro povo que chegava ao morro vindo não se sabe ao certo de que samba, mas que era feliz, assim como todos os outros, que à sua maneira se sabiam povo do mesmo povão que juntos formam uma nação inseparável, nem sempre reconhecida, posto que nem sempre vista pelos olhos da decência, não menos digna de respeito do que qualquer outro povo. Não muito à vontade, banhado em perfume barato, foi deixando-se misturar. Permaneceu em sua janela até que alguém o pudesse ver. Ao ser avistado, percebeu que ao povo não merecia pertencer. Fechou para sempre a maldita janela para enfim viver como povo de um homem só.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Brasil, capital Brasileiro



Meu corpo é estrada aos que vão

Que levam mais que vontade, a convicção

Que renasce por que não há milagre maior do que o do ser que se liberta

Que se realiza transformado naquilo que nascera pra ser

E por força da força, esquecera de desejar.

Eu sou o meu verbo, eu sou a canção.

Eu tenho o mistério, a graça, a justiça

Me desfaço da preguiça, da opressão

Encarno meus ancestrais, de todas as raças, de todas as fés

Certifico-me que da cabeça aos pés

Só vejo Brasil.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Anti-guerra


Quem se importará se por acaso eu assassinar a verdade em nome dos meus desejos ocultos?

Quem haverá de questionar um decrépito profeta que não deposita nas próprias palavras uma fé digna de ser celebrada?

Por acaso alguém haverá de desistir de ludibriar os olhos do cego quando o mais racional seria fazê-lo ver?

E o que me dirá aquele que jamais se defrontou com suas vicissitudes e num ato de extrema covardia, brada aos quatro ventos os nortes que devemos perseguir?

Quem entre nós arrefeceu as paixões?

Quais de nós não teme e por temer deixou de gozar?

É que o gozo fácil está ali. Tem hora marcada. Preço baixo. Cores vibrantes. Aroma fresco. E sabor de libertinagem.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sobre ontem


Flores,

Havia muitas, sempre houve.

As paredes é que foram erguidas em volta do jardim.

Os galhos das árvores que hoje se atrevem a fugir para rua,

Logo recebem a os cumprimentos da serra

Por aqui passavam os colegiais e os casais.

Às vezes os confundíamos,

Eram crianças com seus livros,

Eram homens e mulheres de corpos entrelaçados.

Hoje são seres libertos,

Ocupados e preocupados.

Nunca olham ao seu redor.

Só os interessa matar a sede.

Nos tornaram invisíveis e remotos,

Elementos de paisagem bucólica.

Nostalgia que faz suspirar,

Que se eterniza com prata,

E repousa num fundo de armário qualquer.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Adamas



Oriundo do carbono em sua pureza singular.

O indomável, o invencível.

Brilho de intensa vida, transparência inconfundível.

Cristaliza no sistema cúbico ou regular,

na fase ortomagmática,

à altas pressões e temperaturas.

Pobre de quem o conserva na forma estática.

Feliz de quem bebe de suas conjecturas.

Não pertence a mim, não é deste mundo,

É do universo plural, que não se findará.

E por ser do carbono oriundo,

que ao carbono retornará.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Fertili SA


Eram tempos sombrios. Por muitas vezes se pegava olhando a própria prole e um sentimento de desesperança o dominava a ponto de se arrepender da paternidade por pura e simples pena. A esposa dedicada à instituição familiar com o zêlo feminino incompreensível aos homens, também se dedicava à labuta externa. Seus amigos de trabalho eram os mesmos do bar, onde apesar de todas as tentativas de entorpecimento, sua sobriedade bravamente resistia no semblante que fitava os copos cheios, as barbas mal feitas, os sorrisos de escárnio e a conformidade coletiva. Este era o equilíbrio. Cada um no seu lugar como as peças que fazem com que a engrenagem funcione a pleno vapor.  Até que chegou a notícia de que sua mãe, idosa e já doente, o faltaria permanentemente. Era uma subtração previsivelmente inesperada. Sobretudo por que a morte implica em procedimentos burocráticos e relações comerciais objetivas. Custou-lhe tão caro que no decorrer dos trâmites funerários foi arrebatado por uma inspiração. Precisava calcular. Olhou para a mulher, quarenta e três anos de vida, o equivalente à trezentos e setenta e sete mil horas e contando, dentre as quais aproximadamente duzentas e sessenta e quatro mil dedicadas ao trabalho. Mais despesas com jazigo, caixão, certidões, terno preto e acessórios (com sorte a gravata seria brinde), flores, santinhos , caixas e mais caixas de lenços, possivelmente terapia e muita, mas muita cachaça. Ponderou e compreendeu que existem os que pagam e serão estes os miseráveis. E existem, por outro lado, aqueles que recebem, os ditos abastados. Não foi uma decisão difícil. Abriu uma firma de coleta e reciclagem orgânica. Produzia fertilizante de alta qualidade, tornando-se inclusive grande exportador. Empregou a mulher, os amigos e mais tarde os próprios filhos. Recebia diariamente ameaças de morte, umas anônimas, outras assinadas por donos de funerárias e cemitérios, desesperados com a falência de seus negócios ultrapassados. Ria de todas elas, afinal se dedicava à sua empresa de corpo e alma. E no momento faz planos para investir no ramo de fast-food. Obviamente, determinou que seu diferencial competitivo será sempre trabalhar com produtos de origem cem por cento orgânica.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Nossa terra



De quem é essa terra?

Da criança, da semeadeira, do lavrador

Planta sonho, colhe guerra

Poda o mal, levanta o moinho

Móe o grão, provê o pão, cura a dor

Do sangue faz vinho

Mata a fome com fome de terra

A fome que na terra se encerra.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Não presente


Após inúmeras tentativas mal sucedidas, posso enfim anunciar que consegui o habeas-corpus que suspende minha condição de cidadão vivo por tempo indeterminado. Antes que alguém se assuste isto não significa, absolutamente, que eu possa ser declarado morto. Muito pelo contrário, continuo mais vivo do que nunca. Simplesmente, por força do benefício concedido, não responderei pelos meus atos, assim como também fico isento de minhas obrigações civis como por exemplo a declaração de imposto de renda, o pagamento de aluguel e empréstimos, dividas oficiais (e não oficiais), contas domiciliares (luz, água, telefone, etc), comparecimento à reuniões familiares e outros eventos sociais de esfera inferior, como reuniões escolares de meus filhos e reuniões de condomínio. Tenho a partir de agora, o privilégio de ser não sendo, com a possibilidade de demover-me da idéia quando assim achar conveniente, o que não acredito que venha a acontecer dado o extremo conforto e regozijo que a presente condição (ou não-condição) me proporciona. De forma que, mesmo o tempo, tão valioso atributo da vida mundana, para mim se apresenta como a piada permanente que me permite ocupar os hiatos entre uma atividade e outra. Sim, estou devidamente atarefado, mesmo ausente em corpo e espírito, porém indubitavelmente presente em reflexão e munido da inquietação, que de acordo com as regras nas quais meu habeas-corpus fora concedido, é um dos poucos sentimentos que ainda serão a mim permitidos. Além dela, posso fazer uso da indignação, porém não vejo muita utilidade nisso, já que me encontro impedido de extravazá-la. E por fim, tenho resguardado o direito ao amar, por motivos óbvios, uma vez que nesta presente condição, fico sumariamente isento de qualquer espécie de culpa que à minha pessoa (ou não-pessoa) queiram justa ou injustamente atribuir. Concluo, portanto, que nada poderei ser ou estar quando ou se assim o desejarem, seja lá o que for o que vierem (ou não) a desejar.
Ass.: Anon

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A mais feia das cabeças do bicho



Chega de política.

Já não basta eu ter que me despedir dos meus filhos sem que eles possam desfrutar do carinho da própria mãe? Madrugar no escritório? Aguentar o meu chefe arrrotando vantagem...”comprei carro novo”, “comprei casa na praia”, “vou passar férias em Miami”...e eu ainda tenho que aguentar comício de sindicato e greve de professor só para tumultuar o trânsito?

Eu odeio política.

De dois em dois anos é a mesma coisa. Começam com essa história de que um roubou pra cá e o outro pra lá. Para nós que ficamos parados no trânsito por praticamente três horas todos os dias das nossas vidas e só temos o rádio para recorrer, ouvir pessoas discutindo política é penitência.

Política, eu tô fora.

Quando termina o jornal e começa a novela é um alívio. A gente já tem que conviver com tanta desgraça na nossa vida, violência, doença e ainda tem que ouvir besteira e votar.

Política é uruca.

Já perceberam que toda vez que você fica preso numa enchente, sempre aparece alguém com camisa de candidato para ajudar? É impressionante!

Eu não sei nada de política.

Meu negócio é ganhar dinheiro. Se eu estou vendendo muito é ótimo, senão é por que o povão tá duro. Aí é melhor esperar que a tempestade passe, pro dinheiro voltar a pingar. Enquanto isso, o dinheirinho fica lá no banco paradinho, rendendo uns trocados.

Eu não acompanho política.

Para mim televisão é entretenimento. Não vivo sem as minhas séries favoritas, meus filmes favoritos e uns talk-shows também. No próximo feriado prolongado vou viajar pro litoral, mas segundo a previsão vai chover. Adivinha? Vou levar todos os DVD´s das minhas séries favoritas e umas comédias românticas só para ajudar a passar o tempo!

Política não resolve nada.

Todo dia eu vejo no jornal que a coisa tá feia e só vai piorar. Sinceramente, não sei como o mundo ainda não acabou. Mas fazer o que, né? Seguimos acreditando.

Política é muito difícil.

 Eu até tento entender. Só sei que meu pai diz que é tão complicado que nem a minha professora saberia explicar.

Política aqui não.

Não misturamos as coisas. Aqui é lugar de aprender. A preocupação é o vestibular, por que é isso que pode garantir que essas crianças sejam alguém na vida.

Política é vício.

O problema dessa gente de esquerda é que tudo para eles é política.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Aletheia

O que revelo-te é o que não podes ver.

Veja com a alma e desnudar-te-ei o que nenhuma beleza efêmera ousaria anuviar.

Seja minimamente indiscreto e despeça-se das glórias.

Perante a mim, deves pretender a igualdade ou serás sempre abjeto.

Dar-te-ei minha mão, meu colo e meus olhares.

Serei para ti o bem inalienável, a recompensa justa e dos portos, o mais seguro.

Pelas dúvidas transito com maestria, em meu véu transparente e esvoaçante.

Não sou sua busca, mas conduzir-te-ei pelas veredas obscuras.

Terás apenas que renegar à reles crença da supremacia, pois em minha morada não há escalas.

Frutificaremos, se fores capaz de vencer a maior das batalhas.

Por ora tenho a luz, que a ti servirá de consolo. Aceite minha oferenda como prova de reconhecimento do teu valor.

Porém, o maior dos prêmios pertencerá àquele que aqui, ser,  jamais o terá pretendido.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Kairos x Chronos



Kairos matou Chronos e a batalha chegou ao fim.

Kairos estava em seu palácio, quando Chronos rastejou por entre as colunas gigantescas de mármore branco do imponente portal. O sorrateiro monstro desviava de vasos, contorcia-se assumindo formas grotescas, deixando um rastro gosmento e mal cheiroso pelo chão frio das salas que levava aos fundos da morada erguida na mais alta das colinas. Ao avistar kairos, que tinha seu fabuloso jardim rendido aos seus pés alados, armou seu mortífero bote de cento e oitenta graus. Sabia que dessa vez não seria tão simples, como de costume, pois sua vítima era seu maior antagonista. Porém Kairos já sabia da presença de Chronos e sua ardil tentativa de emboscada. Kairos era só paciência. Chronos era volúpia e esse foi o seu erro fatal. Ao enfrentar o maior dos heróis deveria saber que seu arroubo pragmático teria um alto custo, pois qualquer instante concedido a Kairos representa a eternidade. Kairos foi sendo coberto pela mandíbula superior de Chronos, enquanto a mandíbula inferior fazia seu movimento complementar. Quando alcançou os trezentos e cinquenta e nove graus seus olhos sorriam e a vitória não só já era dada como certa, como comemorada. Eis que uma flecha certeira penetrou-lhe o céu da boca, acertando com precisão incomparável o tálamo, varando o crânio. O cérebro da besta partiu-se ao meio e as metades em novas metades, totalizando então, quatro quartos. Cada parte a seu tempo foi minguando e desfragmentando até se transformarem em poeira e dissiparem ao vento. Glorioso e impiedoso, Kairos agora estava de pé sobre o acéfalo cadáver inimigo. Tinha em seu rosto o vibrante sorriso do vencedor, em contraste ao espanto aterrorizante eternizado ao vencido. Poderia, enfim, reclamar o amor de Aletheia e a conquista do Reino de Pragmatikotita.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Kairos, o herói




Viva Kairos, herói dos heróis!

Kairos, o magnífico, é supremo e onipresente.

Viva kairos, o alado!

Kairos é artesão, tem arco e flecha e a sabedoria do tear.

Viva Kairos, o preciso!

Kairos é aqui e agora. É certeza, segurança e rapidez.

Viva Kairos, o sábio!

Kairos é reflexão e oportunidade.

Viva kairos, o belo!

Kairos com sua trança sobre sua face e a nuca despida, tem a força de todos os seres.

Viva kairos, o invencível!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chronos, o monstro




É o mais temido de todos os predadores. Jamais um fóssil seu fora encontrado, mesmo assim não há quem duvide de sua existência, pois todos os dias suas presas, ou o que sobrou delas, servem como prova irrefutável de sua voracidade. Seu ataque acontece de maneira tão sorrateira que a própria vítima somente toma consciência de que fora devorada quando todas as esperanças já a abandonaram. Este é o relato de como transcorre seu ataque, de forma que as coincidências, ainda que manipuladas, são a demonstração empírica dos fatos.
A fera toma posição discreta e ajusta-se à pulsação da presa. Nos primeiros instantes, cede levemente a mandíbula inferior, em aproximadamente dez graus, logo alcançando noventa em um ritmo inalterado. A partir desse momento começa seu balé, no qual contorna a vítima sempre da direita para a esquerda, extendendo sua mandíbula ao máximo, em precisos cento e oitenta graus. Então, a vítima adentra sua boca, totalmente inconsciente do que está ocorrendo. O engolimento ocorre na mesma batida que a emboscada, porém com movimentos reversos. Não se ouve gritos ou lamentos, mas o fato está sacramentado. Permanentemente insaciável, vai à busca de mais alimento. Mas a ironia das ironias, é a descoberta de que a sua posição na cadeia alimentar é ambígua. Suas vítimas transformam-se em seus principais consumidores.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Conta gotas




Uma gota

É garôa.

Caiu mais uma gota

É chuva.

Na próxima gota

Será tempestade.

Com mais três gotas

Tem-se um dilúvio.

Quem contar de todas as gotas a última, terá por recompensa o primeiro raio de sol.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Artesanato



Até o digo,
Que não há preto no branco, muito menos o reverso.
Pego uma agulha afiada e esquento-lhe a ponta.
Depois perfuro um pano de fundo negro deixando que a luz penetre por pequenos orifícios talhados na brasa. Mas seus olhos só vêem palavras. O que confunde os olhos ofusca a mente.

Enfarto do digitocárdio



Deu entrada na emergência em estado desesperador
Tremia, contraía, debatia, gritava de dor
Luzes, câmeras e muita ação
Na sala de cirurgia, um bisturi, frieza e muita concentração
Rasgou-lhe o peito e para a sua incredulidade
Havia um vácuo e muita futilidade
O órgão trocado por circuitos de complexo sistema
funcionava  aparentemente sem problema
Mas de que reclamava o paciente?
Não de futuro, nem de passado, só de presente
De que vivia então o pseudofedelho?
Respirava com ajuda de aparelho
Que não se confunda ao hospitalar
Aparelho portátil domiciliar
Com controle remoto e tela de lédi ou elecedê
Prostrado, totalmente à sua mercê
Mas eis que ocorre um súbito apagão
que seca a fonte do seu pobre coração.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sábio é o jardineiro



A Rosa não era mais a mesma. Suas pétalas murcharam e secaram, nem de longe lembrando a vivacidade rubra que outrora agraciava os olhos de quem frequentava aquele jardim. Tudo aconteceu por culpa do Espinho, que de tantos ciúmes, feria a todos que ousassem se aproximar de sua protegida. Sufocada, a Rosa tomou a mais difícil das decisões. O Espinho em sua agudez, não hesitou em acatar seu desejo, pois com a Rosa não se discute. A Rosa encontrou uma nova morada e era visitada por muitos, que a cheiravam e a acariciavam. Mas um dia a repousaram em um vaso com água. Não era mais a Rosa do jardim. Tornou-se um doze avos de um enfeite provisório de um egocentrismo qualquer. Feneceu e encontrou nas páginas de um livro sua morada eterna.
- Não se separa uma Rosa de seu Espinho.
Já dizia o Jardineiro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Teus olhos não veem



O precipício ergue-se imponente perante o mar, que luta em vão por uma vitória fadada a jamais se realizar. Na última fronteira ele estende os braços e oferece o peito ao vento continental. A vertigem é ínfima, a coragem colossal. Deixa-se inclinar para frente, o suficiente para mergulhar na gravidade. Em forma de flexa, seus pés se distanciam do chão derradeiro, enquanto as pontas dos dedos se aproximam irreversivelmente da folha da água, ora espuma, ora vácuo. Ao penetrar no Reino de Posseidon cerra os olhos, pois o sal das próprias lágrimas já beira o limite do tolerável. Não verá os corais, nem os recifes, muito menos tudo aquilo que se manifesta em vida na imensidão azul submersa. Para Teus Olhos o mar é um todo negro e inatingível. Ao emergir flutua, sorrindo ao sol com desprezo às profundezas. Entrega seu rumo ao desejo das ondas, que o conduzem para longe de tudo.