sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Porão da Escrivaninha






É comum acreditarmos em histórias com finais felizes nos dias de hoje, pois tornaram-se tão banais as suas demonstrações que fugir à regra é em si uma exceção.
Não que finais felizes não tragam algum tipo de conforto ou até alívio para as dúvidas inquietantes da alma, mas o que pode haver de feliz quando o único final que se permite uma certeza inquestionável é o que atende pelo nome de morte? Morte do corpo, da massa de células condensadas, que deixa de estar presente tal qual é reconhecida como viva, por motivos que extrapolam as limitadas linhas que aqui dispomos.
Portanto falar da morte e dizer que nela há felicidade é de um romantismo que beira o irresponsável, quando não apenas inócuo na intenção de trazer esperanças aos que deixarão de estar presentes.
Não pensar no fim e sim no decorrer do viver e, principalmente, não negando a possibilidade inescapável dos percalços e adiamentos foi sempre uma questão de boa sobrevivência para Jayme. Não pensou que o encontro nas escadarias tão aguardado e vivido sob intensa e arrebatadora emoção significaria o fim que representaria a felicidade almejada enfim alcançada. Tinha plena consciência do fato de que começava ali o longo caminho a percorrer e que como antecipava a própria resistência de sua escrivaninha em deixar-lhe ir ao encontro de sua amada, seria uma empreitada para tantas vidas de modo que o que seria alcançado em apenas uma ficaria a dever e muito ao ideário de felicidade, pois longos e numerosos eram os anos já passados, muitas as experiências vividas nas trajetórias de ambos, Jayme e Zélia, que a partir de então em comum haveria apenas as boas e breves lembranças de uma adolescência ordinária, de sonhos inocentes e a presente concomitância de desejos que ainda estava por se constatar, pois nem o mais romântico dos encontros é insuscetível aos maus agouros dos invejosos que lutam insistentemente a sabotar a felicidade alheia.
Enquanto os inocentes desconhecedores das reviravoltas da vida seriam coerentemente céticos e cínicos, os mais vividos e não menos cínicos não ousariam duvidar que Jayme e Zélia não se furtariam a confluir, muito embora tal confluência não ocorresse em tempo determinado e esperado de acordo com os anseios dos leitores de romances juvenis vampirescos, ou dos contistas que fazem da súmula útil ferramenta contra o enorme peso das pálpebras de leitores desconcentrados, desinteressados, efêmeros.
Do dia do encontro até os últimos dias de existência física dos dois amantes poderíamos narrar uma saga, dividida em mais capítulos do que a Ilíada de Homero, com idas e vindas que não se difeririam das vidas conjugais cotidianas, mas que em nenhuma vírgula mal posta ficaria a dever em genuinidade na maneira como dedicavam-se à tarefa de complementarem-se, sem que para isso suprimissem as autenticidades tão caras a ambos, que eram em si a origem e o propósito de se amarem.
Relatar com palavras os pormenores do que foi vivido por Jayme e Zélia indubitavelmente acarretaria na banalização do que de mais puro pode-se conceber por amor, ainda que tal sentimento esteja sob suspeita de ter sido cooptado e subvertido pela mercantilização e sua consequente conversão em produto barato.
Simplesmente, tal amor era como são os diamantes ainda não encontrados, longe de serem lapidados, imunes aos caprichos e normas quando submetidos ao toque humano, puros e desformes em seu estado bruto, de valor inestimável na escala monetária. Assim o era e isto basta para compreender o que se passava naquela casa desde de o despertar, invadindo o adormecer, mesmo nas discordâncias não tão raras, mas pontuais.
Relevante, porém, seria mencionar um ato sutil que ocorreu no evento da vinda de Zélia à casa de Jayme, quando enfim decidiram que lá seria a morada de tantos anos, pois o começo prático da vida a dois requer algumas garantias inevitáveis, sendo o lar o mais emergencial deles, pois ali depositar-se-iam as sensações de conforto, descanso e segurança. Tudo isso estaria sob risco de ruína com a doravante presença indesejável da escrivaninha. Jayme decidiu por dela se desfazer, porém não em caráter irrevogável como as linhas gravadas a peso de pena, pulso e pensamentos.
No porão onde encontravam-se gaiolas inabitadas, sacos de milho, ferramentas enferrujadas e prateleiras lotadas de caixas de sapatos recheadas com tralhas que se não possuíam vida própria, pelo menos assumiam significados diferentes ao seus propósitos primordiais, encontrava-se a escrivaninha posicionada ao canto sem a imponência e destaque de outrora. Era o porão, mas bem que poderia ser o seu jazigo. Em todos os anos naquela casa somente Jayme frequantava o úmido recinto de luz amarelada e tão fraca que por muito pouco não se faria perceber. Jayme não intencionava escondê-la, tanto que o porão nem trancado ficava. A exclusividade de acesso de Jayme era uma decisão soberana de Zélia, que nunca fez menção de descer até lá, pois além da escrivaninha não haveria de ter interesse algum em visitar o passado tão fisicamente representado em poeira e bolor. Zélia olhava somente o porvir, enquanto que a escrivaninha, por mais que ali estivessem contidos os sentimentos consagrados de seu amado, aprisionava-a à literatura como um personagem, mesmo que pertencesse apenas ao mundo particular de seu dono.
 A escrivaninha estaria segura e fadada ao esquecimento eterno, não fosse a curiosidade de Ana, sobrinha de Zélia que frequentemente hospedava-se naquela casa e que em um de seus frequentes rompantes decorrentes de uma incurável ansiedade que provocava-lhe insônia grave, viu-se diante da ranhuras lineares. Sentiu-se como a desvendar um mistério arqueológico, inesperado e de súbito arrebatamento. Pela falta de luz que propiciasse a leitura das linhas cinzeladas na cerejeira, achou uma metade esquecida de vela após alguns minutos de procura às semi-escuras, de pavio tão enrijecido que se quebrou, obrigando-a a cavar a parafina com as unhas até que uma ponta pudesse ser pinçada e acesa. Trazia consigo uma caixa de fósforos, pois era adepta do tabagismo. Aliás, foi este o motivo pelo qual acabou sendo levada a refugiar-se no porão. Havia escapado de dentro de casa para praticar o vício quando uma chuva, que havia começado leve e suportável tornou-se torrencial, não a deixando muitas opções, pois por bom senso haveria de poupar os tios de danos desnecessários à saúde, sobretudo nesta altura da vida em que um sopro tem a força de uma tempestade.  O cigarro porém não escapou ileso à chuva, mas Ana agora estava apenas imbuída de dar à escrivaninha a atenção que era suplicada de seus olhos. Aproximou-se com a vela acesa das ranhuras para que não perdesse uma letra sequer. Na pele dos dedos de Ana sentia-se um toque suave, porém convicto da superfície lírica das ranhaduras. A chama da vela iluminava a escrivaninha e também as lágrimas cada vez mais salientes em seus olhos. Ana era às vezes interrompida pelo intermitente gotejar que incidia sobre os versos, ora da chuva, ora de sua lágrimas, mas não se permitiria deter pelas águas de intempéries climáticas nem do arrebatamento de seus sentidos. 
Não me atrevo e nem se pode narrar com precisão os sentimentos de Ana ao ler a carta perene, pois qualquer descrição estará tão distante do ocorrido quanto notícias de jornal da realidade, nem deverá alguem supor que o simples fato de emocioná-la garantirá a satisfação da expectativa daqueles que neste momento gostariam de estar no lugar dela, ocupando-se exatamente do mesmo ofício. O que se pode fazer como  melhor oferta é dar ao leitor anônimo os exatos olhos de Ana, tal qual eles viam as palavras, a madeira, as águas, a pouca luz e os sentimentos ali empregados pelo autor dos versos, mas que sintam-se descompromissados para sentirem-se como o desejarem.
A carta na madeira:


Recebi sua carta hoje, quando preparava meu espírito para morrer por mais um dia. Percebi que ainda havia tempo e sem hesitar corri para reacender a  minha vida. De suas linhas generosas vinha a sua voz que do último encontro ainda ecoava em meus ouvidos e sua imagem, que exibi por tantos anos sobre esta mesa, sorria com muito mais graça do que de costume. Folhas foram rasgadas, frases desfeitas, pensamentos diluídos em tentativas pouco exitosas de corresponder o quanto antes ao seu chamado e quando a mim restaram somente o desejo, uma  pena seca e esta escrivaninha fiz desta última e penosa tarefa, a oportunidade de eternizar um sentimento indomável para a alma de um ser mortal.
Às escadarias jamais retornei temendo não vê-la. Buscava-te onde sabia que não a encontraria, ao menos assim mantinha-me vivo, mesmo que distante e inalcançável. Antes que perguntes o motivo de tanta loucura ou que em mim  apontes covardia, fi-lo para penitenciar-me, pois sabes muito bem que a deixei esperando por um sinal de que viria ao seu encontro. Esperastes, sei, até que a urgência de viver fosse devidamente atendida. Sendo assim, ver-te feliz, mas não ao meu lado, certamente levar-me-ia às raias da insanidade, possivelmente ao desfecho mais trágico. É sim de minha parte um egoísmo homérico, porém de uma sinceridade inquestionável.
Agora tenho diante de mim o seu chamado, contendo o seu exato paradeiro, que não poderia ser outro senão os nossos degraus, seu desejo de ver-me novamente diante de ti, não como vistes há quase duas décadas, tampouco como deves imaginar, pois não posso gabar-me de ser do tempo um fiel aliado, mas sendo o que nasci para ser e assim morrerei, teu e somente teu.
Estou a caminho e desta vez não haverá desencontros nem covardia. Na hora marcada, o tempo fenecerá diante de um sentimento que sujeito a ele chamam-lhe vulgarmente de amor, porém além de suas amarras, nem mesmo os doutos dos vocábulos foram ainda capazes de significar.
À minha Zélia, aqui imortalizada, jamais esquecida, para sempre amada.
Do teu e somente teu,
                                                                                                                        Jayme


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ora Vejam Eustáquio



Esta é a história de um homem que por aqui esteve e se foi sem jamais ter sido.

Eustáquio era seu nome de batismo. Nunca teve apelidos, pois não havia amigos para afagar-lhe, ou inimigos dispostos a traumatizá-lo.
Nos tempos de escola, o jovem tímido e recolhido ao exílio dos romances clássicos desprezados pelos outros meninos que preferiam a bola, sequer era alvo de maledicências desconfiadas devido ao seu desprezo pelo violento esporte bretão.
O menino por diversas vezes esquecido pela mãe, que deveria buscá-lo na saída da escola às cinco, não parecia se abalar com os frequentes lapsos maternos e aproveitava para se meter entre as prateleiras empoeiradas da pequena, mas bem servida biblioteca.
Sua performance acadêmica digna de grandes louvores não era invejada pelos demais. Tampouco procuravam-no para ajudas desesperadas no fim de ano para as provas finais.
Eustáquio formou-se em administração de empresas e logo fez concurso público, sendo um dos primeiros colocados e prontamente convocado a assumir o seu posto em um banco do governo, de onde só viria a sair na ocasião de sua aposentadoria, quando a função que ocupava foi extinta por obsolecência. Em todos os longos anos como servidor público não foi capaz de fazer nenhuma amizade, nem mesmo para uma cervejinha depois do expediente, haja visto que seu turno era noturno, compensando cheques, fazendo lançamentos e débitos, um a um, manualmente com uma inseparável caneta descartável que reutilizava trocando-lhe o refil. Tarefa esta, diga-se de passagem, absolutamente metódica e compulsiva, pois comprava outras canetas descartáveis da mesma marca e modelo, retirava-lhes a carga, substituía pela terminada e desfazia-se do resto.
Viveu com os pais até que morressem e estabeleceu uma viuvez preventiva, repleta de ritos e manias que certamente inviabilizariam qualquer relação conjugal. Sua companhia era Eurico, herança dos pais que acharam o pequeno vira-latas em uma excursão para pessoas da terceira idade para Águas de Lindoia, na qual Eustáquio fez-se presente na ida, porém seu retorno somente se deu dois dias após o dos pais, pois seu nome não constava na lista de passageiros.
Eurico, criado com todas as regalias de filho caçula não abanava-lhe o rabo quando chegava do trabalho, nem mesmo deitava aos seus pés. Até latia como se fosse para um estranho. Era arredio aos carinhos de Eustáquio, sendo que por vezes até rosnava, chegando a morder a mesma mão que o alimentava invariavelmente duas vezes por dia, às dez da manhã e quatro da tarde, quando enfim poderia desfrutar de sua privacidade, pois a esta hora o suposto dono saía para trabalhar.
As folgas no banco eram sempre às sextas e sábados, quando aproveitava para praticar seu passatempo favorito, o xadrez. Jogava no clube de xadrez perto de sua casa e sempre contra o mesmo adversário, Eurípedes, que apenas trocava um boa noite automático com Eustáquio, disparava o relógio e os dois punham-se a fazer movimentos rápidos, como se já tivessem ensaiado todo o roteiro do jogo e estivessem ali apenas a cumprir a mera formalidade de mover as peças. Eurípedes sempre vencia e celebrava seus triunfos com uma risada contida, em boca fechada, com o sarcasmo dos que tripudiam sobre o cadáver do inimigo. Abanava a cabeça em agradecimento, desejava boa noite ao derrotado, levantava-se e desaparecia. Até que um dia, Eurípedes não compareceu ao sagrado compromisso. Era de causar estranheza que abrisse mão de mais um triunfo certo, mas as semanas seguintes não foram diferentes. Aquele que havia chegado mais perto do que se poderia dizer amigo de Eustáquio, que trocara mais palavras e acenos com ele do que qualquer outra pessoa, abdicava do posto de seu único e maior algoz. Teria Eurípedes se cansado das vitórias garantidas e procurado um adversário mais digno? Teria ele mudado de clube, cidade ou país? Teria se mudado para a Europa? Morrido?
Por semanas, Eustáquio esperou pelo implacável companheiro na mesma mesa, no mesmo horário. Começou a considerar a hipótese de alguem se comover com sua obstinada e disciplinada teimosia e vir dizer-lhe o paradeiro de Eurípedes, ou até mesmo oferecer-se para substituir o titular, mas nada aconteceu.  Tentou jogar sozinho, mas as peças brancas com as quais sempre jogava eram covardemente derrotadas pelas pretas. Sentindo-se humilhado, auto-flajelado, abandonou o xadrez.
Sua rotina continuava intocável e cumprida à risca, com exceção da substituição do hábito do xadrez por cartas de amor. Escrevia para remetente nenhum. Criava diversos personagens. Corajosos, apaixonados e apaixonantes, comprometidos com a única tarefa de fazer feliz a pessoa amada, mesmo que lhes custasse a vida. Curiosamente, todos os personagens chamavam-se Eusébio. Ora príncipe, ora atleta, às vezes multimilionário do petróleo, era capaz de amar com a intensidade de trombas d´água que se tornavam gotas de orvalho na imensidão do oceano, entre outros clichês patéticos. Eustáquio dava vida a Eusébios mil que suplicavam-lhe liberdade para ganhar o mundo, mas o criador tinha planos menos ambiciosos para as criaturas. Percebeu após décadas que tinha uma vizinha, Eulália, que era solteira e tinha uma cadelinha chamada Eunice.
Já se aproximava de sua aposentadoria, mas todos os dias ao sair para o trabalho colocava uma de suas cartas na caixa de correspondências de Eulália. Mesmo depois de aposentado, não abandonou o ritual de sair de casa sempre à mesma hora só para que se obrigasse a deixar lá na caixa de Eulália mais uma das tantas centenas de histórias, flertes e súplicas de amor de inúmeros Eusébios.
Um dia, ao sair para cumprir com seus rituais, foi acometido de um lapso momentâneo e incomum, deixando o portão aberto. Eunice, exalava o cio, Eurico respondeu ao chamado. Fugiu. Justamente no dia em que Eulália, cansada da perseguição intermitente de Eusébio, preparava sua mudança para outro lugar, bem distante dalí. Ao ver Eunice e Eurico juntos, comoveu-se e decidiu levar os dois consigo. Partiu antes que Eustáquio retornasse, deixando sacos e mais sacos de entulho e rigorosamente todas as cartas de Eusébio em sacos pretos.
Ao chegar em casa, Eustáquio viu a placa que anunciava a disponibilidade de aluguel no muro de sua vizinha. Inconformado com a ausência de Eurípedes, agora também deixavam-no Eulália, Eunice e Eurico. E para piorar os fatos, havia o retorno insuportável de todos os seus Eusébios, descobertos após um arroubo de curiosidade que o levou a abrir cada um dos sacos empilhados na calçada. Descobriu que apenas três envelopes haviam sido abertos, os primeiros que havia deixado para Eulália.Todos os outros encontravam-se tão lacrados como no dia em que foram escritos e entregues.
Entrou em casa, pegou a caneta descartável, recarregada de estimação e pôs-se a redigir o seu testamento, em que deixava tudo o que possuía, que não era assim tão modesto, para Eurico, numa vã esperança de que o animal sentiria sua falta e acharia o caminho de volta para casa.
Foi ao supermercado, pegou uma garrafa de vodka e foi andando em direção ao caixa. Parou. Pensou e calculou que uma garrafa não seria suficiente para compensar por todos os porres que nunca havia tomado em toda sua existência. Voltou. Apanhou mais uma garrafa e novamente seguiu em direção ao caixa. Entrou na fila. Na sua vez o caixa fechou. Mudou de fila. O cliente da frente deixou cair um pacote de biscoitos. Eustáquio prontamente abaixou-se para pega-lo. Ao levantar-se, percebeu que havia perdido duas posições na fila para dois jovens que ignoraram por completo sua reclamação. Tentou ao menos entregar o pacote ao cliente que o deixara cair. Este fez que não ouviu. Olhou à sua volta e todos os caixas tinham filas imensas. Decidiu que não pagaria e foi andando em direção à saída. Havia um guarda em posição de vigília ao lado da porta do estabelecimento. Temeu, mas seguiu em frente, passando pelo guarda e já esperando que o alarme soasse e todos viessem a perseguí-lo pelas ruas. Gritariam pega ladrão, haveria tiroteio, seria baleado, socorrido de helicóptero, mas morreria como o anti-herói, carregado nos braços do povo em seu funeral. O alarme não soou. Ninguem o perseguiu. Olhou para trás para certificar-se que era caçado e não viu mais do que senhoras carregando suas sacolas de compras e crianças a deliciarem-se com seus sacos de balas.
Ao chegar à sua rua já havia bebido uma garrafa e meia. Parou em frente à antiga casa de Eulália e pronunciou no idioma Embriaguêz:
– Eulália minha vida. Eulália minhas cartas. Eulália...Eustáquio...Eusébio dos infernos!
Numa última e única golada terminou com a segunda garrafa e caiu sobre os sacos pretos que continham suas cartas. Misturava-se a eles com seu terno preto, seu uniforme desde sempre. Alí ficou por toda a madrugada. Pela manhã, Eurico que encontrara o caminho de volta, cheirou Eustáquio, levantou a pata traseira e mijou em sua cabeça. Eurico entrou em casa. Eustáquio abriu um dos olhos e retornou ao coma.
O caminhão de lixo parou em frente à antiga casa de Eulália. Os coletores pegavam os sacos e os arremessavam na caçamba. Fizeram o mesmo com Eustáquio. Na caçamba ele era chacoalhado, misturado, difundido e levado para o aterro, vulgo lixão.
Lá foi depositado, empilhado, coberto por sacos fétidos, alimentos podres, fraldas imundas, entre outras coisas inomináveis, inclusive as cartas de amor de Eusébio. Descoberto pelos recicladores, teve suas roupas arrancadas e disputadas a tapas, porém o resto ficou lá, completamente descoberto, indubtavelmente nú. Os urubús, que compartilhavam com os ratos os restos mais podres que poderiam haver naquele aglomerado, pousavam sobre os membros de Eustáquio e bicavam apenas o que encontravam de podre em volta dele. Depois de limparem o entorno de Eustáquio, voaram e foram atrás de um novo despejo que acabara de chegar. Porém um velho urubú-rei, manco, de asa quebrada e cego chegou atrasado até Eustáquio. Seu olfato já cansado não permitia-lhe mais distinguir entre fresco e podre. Bicou a bocheha de Eustáquio, que assutou-se, mas não tinha força nenhuma, muito menos motivação para reagir. A segunda bicada foi na outra bochecha  e não parou mais. Eustáquio parecia sorrir. Aparentava uma felicidade que jamais experimentara. Sentia sua alma encher de vida ao passo que sua carne era lentamente devorada. Sentia tanto prazer que esboçou uma tímida ereção logo abortada pelo velho, cego e insaciável urubú.
Após fartar-se, a ave cambaleante deixava para trás a carcaça finda quase que por completo, rodeada de vários Eusébios banhados com o sangue fresco de Eustáquio. O banquete fora digno das mesas de grandes reis, mas agora a gula cobrava-lhe o ônus de uma digestão impossível.
Vencido, enfim, por uma terrível congestão, o caquético urubú-rei, desprovido de qualquer majestade, caiu e subitmamente morreu sem que ao menos pudesse dar ao seu intestino a mínima chance de digerir Eustáquio. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Além da escrivaninha

                                                        (Obra do artista plástico Zirley Ávila)



Ao longe cantou Crioulo, o galo de estimação e dono do quintal, quase despertando Jayme de um sono inebriante que parecia não ter mais fim.     
Na verdade, desejou que o canto fosse apenas uma breve consciência do que estava a sonhar e assim permitiria-se mais uns minutos de um merecido repouso. Mas Crioulo desta vez bradou aos quatro ventos, como se chamasse seu nome.
Jayme acordou.
Nas doze horas, ou talvez doze meses, que ficara desacordado, as palavras que se encontravam agora eternamente gravadas na cerejeira pareciam ter-lhe penetrado os poros dos braços cruzados que repousavam na escrivaninha, sob a cabeça adormecida para o mundo cronológico e viva para a dimensão dos delírios poéticos.
Ergueu-se da cadeira com algum desconforto, inclinando o corpo sobre a escrivaninha, para observar o céu noturno e cinzento, as galinhas que já buscavam seu refúgio no pé de figo e Crioulo, que observava imponente do alto de seu galho a movimentação em seu quintal.
Tornou a sentar vagarosamente e observou as ranhuras feitas no clímax de um arroubo que o levara à exaustão.
Leu e releu diversas vezes. Quando suas retinas não mais se deixavam enganar por cortes acidentais, fechou os olhos e com a ponta dos dedos perdia-se em êxtase com as curvas, os pontos, os verbos, as diferentes profundidades dos sentimentos ali descritos sobre ela, Zélia.
Assim ficou por mais algumas horas e teria ficado muito mais, não fosse uma lasca minúscula e pontiaguda espetar-lhe o dedo indicador da mão direita, interrompendo abruptamente seu transe.
Mas, por mais devoto que fosse de sua obra, sabia que Zélia ali, não se encontraria. Olhava a escrivaninha e seus olhos sorriam. Lembrava de Zélia e seu peito explodia. Pensava em sair e suas pernas tremiam.
Levantou-se, fechou a janela e tentou se virar, mas seu pé ficou preso entre a cadeira e o pé da mesa. Afastou a cadeira com o calcanhar, procurou pelo relógio e lembrou-se que o havia deixado na gaveta. Ao achar o relógio viu que marcava oito horas e trinta e dois minutos da noite anterior e nenhum segundo a mais. Deu corda, mas o velho relógio não reagiu. Jogou-o de volta na gaveta e ao fechá-la prendeu o dedo indicador da mão esquerda. Em um gesto de rara revolta chutou a gaveta, mas de pronto arrependeu-se e trêmulo ajoelhou-se perante ao móvel como se suplicasse seu perdão.
Abraçou-a e quando preparava para deixá-la, um prego solto fisgou-lhe a manga esquerda de sua camisa, causando-lhe um rasgo, porém desta vez não houve desarmonia. Desatou calmamente a manga do prego, virou-se e não mais olhou para trás.
Ao chegar na porta da rua ouviu um estrondo vindo da sala da escrivaninha. Hesitou em voltar, todavia não conteve o impulso e ao chegar à sala encontrou a cortina esvoaçante como se fossem braços estendidos em súplicas, a janela escancarada pelo vento, que uivava lamentos e molhava a superfície da escrivaninha.
Jayme caminhou calmamente até a janela e cerrou-a convincentemente. As cortinas sossegaram conformadas. Já a escrivaninha por fim absorveria as muitas gotas d´agua ali trazidas pelo vento, como se engolisse as lágrimas de uma separação inevitável.   
Jayme finalmente partia ao encontro de Zélia. Não estava muito seguro de que ainda a encontraria como e onde ela disse que o esperaria. Ela havia sido clara em sua carta quando se referiu à hora que o estaria esperando. Oito e meia. Na escadaria da igreja, onde encontravam-se quando os sonhos significavam muito mais do que planos. Quando cada minuto equivalia à uma vida. Quando o único tempo que realmente importava era aquele agora, sem amanhã.  
Alcançou a esquina no pé da ladeira da igreja, mas não a contornou. Seria como cruzar uma fronteira de um país estranho sem direito a retornar à pátria. Se olhasse e não a visse, demoraria o tempo que fosse necessário para conseguir voltar pra casa e encarar a escrivaninha. Se não olhasse jamais saberia. De qualquer forma, só lhe restaria uma escrivaninha rabiscada com memórias e dedicatórias que assombrariam seus pensamentos enquanto vivesse.
Sem alternativa lançou-se à rua e ao virar o rosto, avistou-a no sétimo degrau, bem ao meio da escadaria, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos sustentando seu queixo. Ela sorriu o mais lindo de todos os sorrisos que uma boca ousaria oferecer.
Jayme sentou-se ao lado de Zélia. Zélia reclamou do atraso de Jayme. Dois minutos de pura inexatidão, segundo o relógio de Zélia.
Ali conversaram por horas, dias, semanas e meses sem abdicarem do agora. Falaram da vida, das palavras, dos hiatos, dos medos e, claro, dos sonhos.
Esticavam os braços e pinçavam as nuvens que por ali passavam, comendo-as acreditando ser algodão doce. Desvelaram o sol, recitaram poemas, assobiaram canções, deram-se as mãos.
Beijaram-se.
Amor tão imenso que não cabia na palavra amor. E tão eterno que o tempo parou em sinal de respeito.   

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Nativo do quinto dos Infernos




Depois de sua morte, Heitor foi recebido no céu com ressalvas. Nunca havia sido religioso enquanto vivo e até pregava aqui e acolá sua desconfiança de forma bem contundente, renegando inclusive ao próprio sobrenome como uma maneira de se desfazer, mesmo que unilateralmente, de qualquer vestígio da herança de fé de sua família.
A administração celestial, por sua vez, não tinha outra alternativa, segundo o regimento interno, senão acolher aquela alma recém desencarnada. Mas decidiram que, mesmo antes do purgatório, Heitor seria submetido à uma espécie de quarentena, cujo diagnóstico poderia determinar sua sentença que variaria entre ocupar uma função insignificante, como semear nuvens, lustrar estrelas ou até mesmo fazer pequenos reparos em camisolas, até ser definitivamente banido e enviado direto para o inferno.
Recebeu a punição máxima depois de quebrar inúmeras estrelas (há quem diga que propositalmente), semear nuvens ocas pelas quais vazavam anjos que quebravam suas asas e não podiam desempenhar suas tarefas fundamentais e esquecer inúmeras agulhas emaranhadas nas costuras mal feitas, que acabavam por espetar anjos e santos.
Fez suas malas resignadamente e lá se foi  terra adentro, cada vez mais fundo, cada vez mais quente. De cara ao chegar, reencontrou um de seus únicos e melhores amigos, Anselmo. Recebeu as boas vindas com tapinhas nos ombros e um chute de surpresa nas costas que o fez cair de cara e peito na lama quente. Ao levantar-se procurou pela mala, mas no momento em que caía, soltou-a e a perdeu de vista. De certo fora roubada e suas vestes zombadas e finalmente rasgadas, pois ali elas não teriam nenhuma serventia.
Caminhou por algumas horas com as pernas enterradas até os joelhos na lama e lodo fedorento até que aproximou-se de um palácio gótico, com esculturas escabrosas e grades de ferro maciço. Ouvia uma música que alternava notas dissonantes que culminavam em estribilhos de extrema euforia, que ficava mais alta, mais intensa ao passo que chegava mais perto.
Seguiu palácio a dentro sem ser incomodado, guiado pela música que já palpitava em seu peito, quando finalmente alcançou o corredor que levaria ao salão onde a suposta festa se realizava.
Quando adentrou o salão, a música parou. Houve um silêncio sepulcral. O vazio era sentido em todas as cinco paredes, pilastras e tochas, que ali repousavam intactas aparentemente há séculos, possivelmente milênios.
Caminhou em volta do meio do salão onde havia o desenho de um bode. Aproximou-se e olhou bem nos olhos do animal de cornos espiralados. Fitou-o por alguns minutos e pôs-se a sapatear sobre a figura, ora arrastando os pés sobre ela como se quisesse apagá-la, ora chutando a cabeça com muita virilidade, até que exausto sucumbiu e deitou-se sobre ela. A música explodiu no salão que logo ficou tomado de criaturas inadjetiváveis aos olhos humanos, que dançavam com furor, rodopiavam no ar, se chocavam, gargalhavam e bebiam algo inodoro que lhe foi oferecido. A princípio ressabiado recusou, mas foi seguro por duas das criaturas que enfiaram a garrafa em sua boca, fazendo-o beber quase a metade da bebida infernal. E gostou, a ponto de pedir mais e mais. Quanto mais bebia, mais as criaturas iam ganhando formas reconhecíveis e familiares. Ao término de cinco garrafas reconhecia a todos como companheiros de longa data, que o saudavam e celebravam sua chegada com tanta alegria que há rumores de que a esbórnia era ouvida no céu e que as nuvens estremeciam.
- Mas qual seria o motivo para tanta extravagância de alegria? Perguntou Heitor ao velho amigo do portão que lá também estava a celebrar em meio a todos os outros.
- Eles nasceram, foram criados e viverão por toda eternidade neste lugar. Não conhecem o tal mundo dos humanos. Sequer concebem um céu. Não pode haver lugar melhor para eles do que a própria casa. Sua presença aqui é mais do que ilustre. Celebram a ti, como fizeram a mim. Não te julgaram, na verdade esperam que você o faça com relação a eles. Por isso esforçam-se para que você se sinta tão à vontade que decida não ir embora. Explicou Anselmo.
- Quer dizer que o inferno é bom e que os demônios são bonzinhos?
- Quem criou esses nomes não foram eles. Aliás, eles sabem que são conhecidos assim e pouco se importam.
A conversa foi interrompida por mais bebida, mais danças e gargalhadas que duraram séculos.
Por fim, Heitor lá fez morada. Trabalha como uma espécie de mestre de cerimônias, dando as boas vindas a todos que para lá são mandados. Sente-se tão em casa que vive dizendo que lá nasceu, foi criado e que jamais estivera em outro lugar. E por mais que isso pareça falso, não deixa de ter uma dose de verdade cínica curtida no amargor do sarcasmo.   
Aos que duvidam de Heitor, que lhe façam uma visita e tirem suas próprias conclusões. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As Bodas de Ouro de Jair e Lenir




      Um furo na mangueira de gás praticamente imperceptível, não porém, para a cabeça desgastada de um velho prego na parede, onde um armário de madeira prensada sustentava-se desde a data de sua instalação por um dos padrinhos de casamento de Jair e Lenir. 
         O interruptor já amarelado e já viúvo do espelho que o adornava ao passo que escondia os fios desencapados que encontravam suas terminações de cobre entrelaçadas aos furos dos disjuntores de ferro pintados de preto, ali colocados quando da construção da casa, concluída parcialmente, porém em condições mínimas para ser habitada três meses antes do casamento de Jair e Lenir. 
    Os óculos já embaçados e remendados por esparadrapos e fios de arame que repousavam sobre a mesa de cabeceira, esquecidos pela amnésia cada vez mais constante devido à degeneração neuronal, causada pela avançada idade não refletida no porta retrato que ainda resiste à gravidade de forma inexplicável ao lado dos óculos que magnificam a imagem contida no papel fotográfico contendo a imagem do brinde nupcial de Jair e Lenir.
        A faísca que provocou a chama que alastrou-se primeiro pelo chão, atingindo os panos de prato colocados na alça do fogão para que secassem após a lavagem da louça do jantar de comemoração das bodas de ouro testemunhada por padrinhos, irmãos e irmãs, filhos e filhas, netos e bisnetos, cão de guarda, amigos e amigas, vizinhos e parceiros de carteado, que sem exceção já se encontravam em seus respectivos domicílios na hora do incidente referido que terminou por queimar o restante da casa citada, com os novos armários que substituíram os antigos mencionados e que não pouparam nem os óculos remendados já descritos, nem o porta-retratos à prova de gravidade, foi causada pelo acionamento do interruptor amarelado, dependurado na parede de azulejos antiquados por um invasor que buscava riquezas reluzentes, recebidas em ocasiões especiais com a já registrada comemoração e jamais deixadas para trás quando já longe, em viagem de lua-de-mel pelo interior de Minas adornando os pescoços, dedos, pulsos e orelhas de Jair e Lenir.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Loja de Espelhos




           Amanda finalmente conseguira um emprego de vendedora em uma loja de decoração após meses de incessante procura e tentativas frustradas, que quase fizeram-na crer que a maternidade seria sua sina, ainda que não houvesse conhecido quaisquer candidatos à altura para o cargo de coautor.
     Não era culpa da escassez de ofertas de trabalho, tampouco de pretendentes apaixonados. A razão da demora era a abundância de critérios e regras, ou mais precisamente do critério de suas regras.
           Aos incautos poderia causar espanto o fato de que o emprego finalmente aceito, e este é o termo mais acurado para o caso, não figura entre as dez carreiras mais desejadas pelos filhos da classe média pseudoeuropéia brasileira.
       A vaga foi escolhida a dedo por Amanda e o setor não poderia ser outro senão o de espelhos decorativos.
      É preciso saber que Amanda era uma jovem de vinte e cinco anos, formada em sociologia, com mestrado em ciências sociais aplicadas, que perdeu a visão aos dois anos de idade devido a um glaucoma.
        Sua primeira semana, como ela própria já esperava, não foi promissora do ponto de vista comercial. Nenhum espelho fora vendido e os poucos clientes com quem teve a chance de negociar deram desculpas óbvias como “estou só olhando”, o que não deixa também de ser redundante no referido setor.
          As semanas seguintes não foram tão diferentes da primeira, a ponto de sua posição ficar ameaçada sob a justificativa de não cumprimento de metas. Embora algumas poucas unidades terem sido vendidas, o descontentamento do gerente geral da loja era nítido aos olhos de todos e aos ouvidos de Amanda, que não precisava de palavras, apenas de tons de voz para desnudar intenções alheias.
         Não se deixava pressionar, mas sabia que seu tempo, pelo menos ali, estava contado.
        Adotou um estilo mais agressivo de abordagem, convencida de que a meta do setor era não apenas irreal, como banal. Precisava de uma cliente, e não bastava ser qualquer uma. Deveria ser a cliente ideal, feito sob sua encomenda peculiar.
     Quando ouviu aquela voz suave que indagava sobre a responsabilidade pelo setor, não teve dúvidas de que Fernanda era a mais aguardada de todas as clientes.
        Após Fernanda descrever em linhas gerais o que procurava, Amanda a conduziu ao seu espelho favorito. Tinha linhas sóbrias, com moldura negra de madeira maciça, muito pesado e imponente.
- O que você acha desse? Perguntou Amanda.
- Sem dúvida é lindo. É forte e robusto. Você se importaria se eu te dissesse que você fica linda nele?
         Amanda fora completamente surpreendida pela franqueza de Fernanda.
- Como... como assim?
      Fernanda não se esquivou. Não poderia fingir que não percebera a peculiaridade de Amanda. Também sabia que enxergar não é sinônimo de ver, porém o reflexo no espelho não estava ao alcance dos sentidos de Amanda, a não ser por uma narrativa.
- Você nesse espelho fica como uma senhora altiva, que impõe respeito, cuja dignidade é inabalável. Não sei se é a moldura ou a altura do espelho.
- Lembrei-me de minha mãe com seus seios fartos e pernas firmes e torneadas que realçam essas características que você mencionou.
- Por esta descrição posso supor que você se parece com ela.
- Acho que sim. Talvez você gostaria de ver algo mais despojado, menos tradicional. Sugeriu uma desconcertada Amanda.
     Fernanda aceitou a sugestão e caminharam cerca de cinco passos à esquerda do primeiro espelho. Estavam de frente à uma moldura de flores variadas e coloridas, feitas de ferro, pintadas à mão.
- Então, o que acha desse?
- Suave, romântico e até bucólico. Refletida nele, você fica tão graciosa como uma criança correndo por campos verdes, descalça, de vestido ao vento, soltando gargalhadas descompromissadas e sinceras.
       Amanda sentiu-se nua diante daquela narrativa, mas não escondia o largo sorriso que só as almas puras tem o privilégio de ostentar.
- Minha irmã.
- Como disse? Indagou Fernanda, ao acordar de um transe momentâneo.
- Assim era minha irmã, Rita. Ajudou minha mãe a me criar. Quando fui para a faculdade pagou meus estudos, trabalhando em dois empregos, sem jamais demonstrar nenhum cansaço. Sempre sorrindo, de bem com a vida e feliz por poder me ajudar. Nunca se casou. Para ela, o casamento seria uma forma séria de acabar com sua alegria de viver. E para ela, viver era brincar. Tinha uma pele tão cheirosa que  todos os perfumes se calavam  por onde ela passasse.
     Amanda descrevia sua querida irmã com tanta fluência que ela quase se materializava naquele espelho. Entretanto, ao se calar e suspirar de saudades, não mais ouvia a respiração de Fernanda, levando-a por um instante supor que sua tão esperada cliente se cansara de toda aquela conversa e fora embora. Sentimento este prontamente desautorizado pela tranquila voz de Fernanda.
- Se dizes que o sorriso dela era lindo eu acredito, só não posso concordar que seja mais do que o teu. E é o seu cheiro que dá vida às flores do espelho.
   Por mais que Amanda tentasse disfarçar sua felicidade sob uma postura formal e profissional, seus lábios grossos a venciam e se esticavam expondo aquela sequência irrepreensível de dentes brancos como carne de coco.
     Viram outros vários espelhos e molduras. Cada espelho, uma personagem da vida de Amanda. Lá estavam também, seu pai, tios e tias, amigas de infância, primos e primas.    Fernanda enfim, depois de muito procurar, fez uma escolha. Quis Amanda, de carne e osso.
      Amanda defendeu sua tese sobre múltiplas identidades e após a conclusão de seu doutorado tiveram duas filhas. Angela, gerada no útero de Fernanda, é suave e graciosa como Amanda, mas a sua audácia não deixa dúvidas da influência de Fernanda. Já Dandara, não é necessariamente sutil, assim como Fernanda também não o é. Mas os ancestrais de Amanda estão presentes na alma e pele negras de Dandara, no seu sorriso desconcertante, no perfume inebriante e na intelectualidade ímpar.
      Amanda nunca mais procurou emprego. Divide seu tempo entre as filhas, suas aulas, pesquisas e a loja de espelhos que abriu com Fernanda, a menina para muito além dos seus olhos.      
   

domingo, 23 de setembro de 2012

Boa noite e bom trabalho


 
 


Esta não é uma carta, nem uma mensagem implícita para atiçar a sanha dos decodificadores fanáticos.

Vamos combinar que haverá entre nós uma coautoria onde eu tomei a iniciativa de escrever e você de vivenciar as palavras para além de suas formas e paradigmas.

Minha tarefa é básica e direta. Decidi escrever em meio a uma crise de insônia e só tenho algumas coisas a serem ditas que não tomarão muito do meu tempo de sono desperdiçado.

Já a sua, devo admitir, trata-se de desapegar-se e até mesmo abdicar de outras tarefas que se não mais importantes, pelo menos mais prazerozas possivelmente seriam.

Por isso você tem a primeira oportunidade de parar por aqui e não se comprometer. Daremos a parceria por encerrada e cada um continua a trilhar seu caminho sem maiores danos à breve amizade. Caso resolva continuar, as próximas linhas serão dedicadas às questões simples, porém primordiais.

Sem mais rodeios esta mensagem aberta é para você que tomou a decisão fundamental de sair da cama mesmo que a muito penar para exercer a sua atividade prioritária, seja ela remunerada ou não, a fim de promover seus desejos materiais e imateriais da categoria dos sonhos para a categoria das ilusões factíveis.

A respeito da cama, sair dela não seria necessariamente um problema se não investíssemos tanto em colchões que massageiam o corpo, travesseiros que fazem cafuné e cobertores que acariciam a alma. Caprichos que fazem bem, mas custam caro.

O que inevitavelmente nos leva à observação das atividades prioritárias como estudar e trabalhar, ambas podendo ser ou não remuneradas.

Para você que estuda e não é remunerado para isso, em um futuro breve, pelo menos do ponto de vista de quem não mais goza do privilégio da irresponsabilidade autorizada, seus esforços serão medidos, contabilizados e categorizados para fins de organização social. Com efeito, sua remuneração não representará equitativamente o seu valor como ser-humano, mas a sua serventia enquanto ser-vir-como-lucro-humano.

Aos que estudam e são remunerados para isso raramente se vê tanta paixão em outras atividades quando comparadas à esta. Independente de profissão, cargo ou incubência. Este é o detalhe que os difere dos trabalhadores remunerados por cumprir horários e rotinas. Não menos dignos, todavia mais anestesiados.

Por fim, os que trabalham e não são remunerados, por vontade própria ou não, de forma aleatória ou sistemática, com ou sem amparo legal, não podem nem devem deixar fenecer o desejo de reconhecimento, remunerado ou não, realizado pelo gesto fraterno ou pela luta armada.

Mas independentemente da sua categoria, você saiu da cama onde repousava justamente.

Tamanha gana e dor terão sido inúteis perante às tais ilusões factíveis. São ilusões, pois ao término de sua empreitada nesse mundo não farão parte de seu enxoval funerário. São factíveis pela falsa sensação da possibilidade de obtenção.

O que nos sobra? O que terá sido verdadeiro? Qual é a justiça de seu sono?

 Fora de tudo o que foi dito acima encontra-se você que não se conhece a não ser por julgar aquilo que as outras pessoas são e também deixam de ser.

Você que não teve escolha a não ser participar do diálogo infinito dos corpos e seus respectivos portadores com as regras que os cavalgam.

Você que destituído de moedas busca cicatrizar a vida com poesia, música e tintas. Que mesmo oriundo de outrora se encontra no agora e não se julga sabedor do porvir.

Que  saboreia os desinvernos fora de época e não teme os desverões necessários.

Que constitui uma unidade indivisível da legião dos solitários, mas que procura cercar-se de quantas legiões idênticas forem possíveis e necessárias.

Que assovia sua canção favorita fora do ritmo, do tom, batucando com os dedos despretensiosamente para platéia nenhuma e ainda dá bis.

Você que já voou de costas com braçadas largas e o peito estufado, oferecendo-se ora ao sol, ora às estrelas e fez pouso suave no pé da mangueira no quintal de sua avó.

Que rasga casca de manga com os dentes e lambuza as bochechas. Que começa a comer a maçã pelo meio, mas ao contrário dos estadunidenses também come o restante. Que come a goiaba bem devagar e poupa a vida do bicho.

Que pisa forte na poça d´agua e chuta pedrinhas para que cruzem o caminho de outros pés.

Que agora já pensa em tantas outras formas de contentamento que esta mensagem não mais depende de quem a começou.

 De forma que já posso apagar a luz, fechar meus olhos e ter a sensação ilusória, contudo factível, de uma jornada de sono justa, desprovida de obrigações, porém repleta de saudades dos tempos em que para poder sonhar era preciso desacordar.

domingo, 20 de maio de 2012

A outra versão da memória




     Ficou incumbido de organizar os pertences de sua mãe, que não eram poucos e ocupavam espaços além das fronteiras concretas da casa velha.

     Não tinha talento para distinguir objetos em tantas categorias, de forma que procurou executar a penosa tarefa de maneira bem objetiva. Seriam coisas rentáveis e coisas doadas. Simples assim.

     Os irmãos abstiveram-se dos julgamentos, reclames e ostentações. Só não abriram mão da desobrigação.

      À sua frente, algo em torno de um século de intenções acumuladas. Primeiro, foram-se os infinitos pares de sapatos, vestidos e outros seres inanimados que tocaram o findo corpo. Todos doados a destinatários indigentes, transeuntes oportunistas, habitantes do mundo à parte.

   Tudo que reluzia seria derretido para retornar ao estado sólido somente designados como objetos a serem trocados por algo semelhante, de uso corrente.

    Duas pilhas de estorvo se acumulavam em dois cômodos diferentes e a empreitada se aproximava do fim. A mobília já nua de seus penduricalhos aguardava sua vez de ser desfeita.

   No último compartimento de uma estante da sala estar havia tres caixas curiosamente discriminadas pelos seguintes temas: Augusto, Gustavo e Rodolfo. A primeira e a última postas de lado, seriam devidamente entregues.  A restante permaneceu intacta e era observada com aguçada covardia.

   Ali deveriam estar contidas as relíquias extirpadas de seu corpo, seu vestígio de ligação carnal com uma carne já não mais presente. Dos registros momentâneos, não faltaria sua versão debilóide, de pouca fala, cabelos ralos e boca desdentada. Também constaria o dia da redenção em que ultrapassara a fronteira entre o paganismo e a salvação através da escravidão voluntária.

   Algum recorte de papel público que muito orgulhou à sua guardiã e que exibido à exaustão, provocava a inveja alheia.

   Havia o primeiro isso, a primeira aquilo e a última vez em que alguem fez algo em algum lugar no dia tal.

   Cansou de imaginar o que deveria cobrá-lo de suas memórias e decidiu dar-lhe o mesmo fim que todos os demais. Mas, precisaria primeiramente discriminar entre inflamáveis e enterráveis.

   Abriu a caixa e encontrou uma câmera fotográfica e filmadora de alta definição numa embalagem lacrada, uma linda caneta recarregável, um disco rígido externo de um tera de memória, tintas, pincéis, agulha, linha, estojo de maquiagem, um livro de receitas da culinária Tailandesa e um bloco de notas em branco. 

   Num arroubo de inveja abriu as caixas alheias e se deparou com quase tudo igual, com exceção de outras duas culinárias.


domingo, 16 de outubro de 2011

Nó na madeira


Seu Pituca não saía do quarto há dias. Sempre compunha em clausura. Alegava que a inspiração não precisa de paisagem, nem companhia. Munido de cavaquinho e lembranças, ensaiava acordes que logo em seguida dissipavam com a fumaça do cigarro de palha que decorava o canto de sua boca.

Rosaura, já habituada à rotina do velho companheiro, anunciava protocolarmente as refeições da casa, mas nesses períodos não alimentava esperanças de compartilhar seu cotidiano, muito menos suas amarguras. Seu Pituca deixava seu refúgio quando o corpo pedia. E pedia cada vez menos.

A casa era modesta. Não havia falta nem fartura. Os móveis já haviam assumido a ergonomia necessária para garantir o aconchego dos que ali viviam, inclusive dos amigos mais frequentes.  Cada porta rangia num acorde afinado ao estágio de sua ferrugem. Da cozinha vinha o brugurundum das colheradas contra as panelas cheias das delícias de Rosaura.

 Seu Pituca já havia cantado a beleza de suas dores em poesia. Parecia saudar a melancolia, que em retribuição, punha um sorriso matreiro no rosto do sambista. Mesmo sabendo que a dor do sambista é incurável, ainda assim a contemplava como se fosse a quintessência da beleza.

Acorde pra cá, terça-feira pra lá, acorde acolá, sexta-feira se vai. O domingo já vem. O samba não.

Culpados não faltam. Ora a madrugada silenciosa, ora a chuva e sua cônjuge falta de luz. Experimenta um Lá, troca por Mi, empaca em Dó. Vai à fá, regride em ré. A vida antes sustenida, tropeça em bequadro.

Da fumaça só fica o cheiro, impregnado nas paredes e cortinas. Se o samba ninguém cantou,  ninguém ouviu. Já a dor, passou a existir. Em uma outra casa modesta, já se pode ouvir os primeiros acordes de um outro cavaquinho.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre escrivaninhas e escadarias


O retrato de sua amada Zélia ainda repousava sobre a escrivaninha de cerejeira, posicionada sob a janela do escritório, com vista desimpedida para a cidade.

Algumas páginas amareladas contendo versos sobre linhas descomprometidas ainda aguardavam seu desfecho sob a bola de vidro que repousava como guardiã daqueles fragmentos de história. A velha caneta tinteiro ainda aguardava ansiosamente pelos punhos inquietos de Jayme, mas a tinta, seca há tempos, apenas borrava o fundo do frasco.

Enquanto a fotografia permanecesse à sua frente, nenhuma palavra seria pronunciada, tão menos escrita.

Zélia, sentada nas escadarias da Igreja, no frescor de seus quinze anos, ao sorrir dizia tudo que Jayme queria escutar, mesmo que inaudível em preto e branco aos incautos.

Jayme sabia de Zélia apenas o suficiente para que aquele momento eternizado em papel nunca perdesse o toque quase libidinoso de seus lábios. A suavidade de Zélia desamparava o homem que se tornava um menino ao deitar naquele colo macio, recebendo dos hábeis dedos de sua amada as carícias que separavam cada fio de seus cabelos.

Foram poucos os momentos de presença. Muito mais intensos do que várias existências alheias vividas em gozo efêmero.

Jayme não era presente, mas onipresente onde quer que Zélia em seu pensamento se materializasse. Teriam filhos, formariam uma grande família. Viriam os netos, quiçá bisnetos.

Jamais acreditou que ela se ausentaria de sua vida por uma razão que não fosse irremediável. Irremediável para Jayme só a morte. Para o resto, onde os planos não podem prover, faça-se o sonho.

Abdicou de quaisquer planos, para não se escravizar em expectativas. Não nascera para mártir. Suas aspirações de tão humildes, o acanhavam perante os amigos. Não estocava alimentos. Trazia apenas o essencial para o dia. Fazia a feira sete vezes por semana, duas vezes ao dia, em quatorze lugares diferentes. Acreditava que assim aumentaria suas chances de encontrá-la.

Piegas, bêbado, pândego, digno de pena. Restava-lhe a escrivaninha, as folhas amareladas, a caneta, o frasco com tinta seca e a imagem anacrônica de uma Zélia que teimava em existir em seus pensamentos.

Quando por debaixo da porta ouviu o deslizar inconfundível do envelope pardo, levantando a poeira que soterrava o chão de sua casa.

Leu seu nome escrito com letras desenhadas por mãos suaves. Mãos femininas, de certo. Abaixar para apanhar o envelope durou exatamente trinta e cinco suposições diferentes de remetentes que sempre convergiam para um, ou melhor dizendo uma. A uma.

Se virasse o envelope poderia se deparar com aquele nome e então teria que abdicar de seus pertences, sua rotina, sua vida.

Chegou a desistir, mas quem seria capaz de outorgar a si mesmo a condição de covarde-mór perante a possibilidade da felicidade desejada? Quem constrói um panteão deve assumir a condição que lhe cabe, não de rei, mas de curador de suas premissas.

Assim tomou o envelope em suas mãos. Ao virá-lo lia-se um certo logradouro. Havia um nome talvez, mas o logradouro saltou-lhe aos olhos. Dirigiu-se à escrivaninha. Empunhou sua caneta. Cuspiu no frasco de tinta e por milagre o que era fosco pôs-se a brilhar. À primeira página deu o tratamento de uma rainha. Teceu todos os sentimentos que dispunha para formar o tecido que agora lhe vestia o espírito.

Arrebatado pelas linhas que via formar à sua frente, foi se distanciando e cantarolava, ora gargalhava, voltava a cantarolar, sorria, finalmente estabelecendo com a fotografia uma cumplicidade  que sempre desejara ter em corpo presente.

Por seus dedos passavam gracejos, reticências, rimas e versos obsequiosos. Não omitiu um termo sequer que não devesse ali constar.

Passou dias a redigir. Ao final de cada missiva, rasgava e recomeçava do zero. Sentia um prazer inesgotável em recriar. Ficaria ali por todas as encarnações que tivesse direito a se ocupar daquela tarefa por tanto tempo desejada.

Foram tantos recomeços que os papéis se esgotaram. Raspou o frasco de tinta até o ponto em que a última gota de saliva nada mais pudesse fazer. Cogitou escrever com o próprio sangue, mas não plagiaria um mero marquês libertino.

Com a ponta seca da caneta lanhou a carne da cerejeira, lavrando sua resposta em caráter irrevogável.

Sorriu ,enfim, à fotografia, com a sensação do dever quase cumprido.

Zélia nunca esperou a resposta. Esperava por Jayme, na escadaria da igreja, com o mesmo sorriso inconfundível.

Ávida. Linda. Suave. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Beira rio


Trazia consigo um banquinho de madeira que colocava à beira do rio, mais ou menos na mesma posição, a alguns centímetros da água.

Não pescava nem atirava pedras para não interferir no curso do querido companheiro. Ali, apenas depositava suas esperanças e as via fluir leito abaixo para que um dia, quem sabe, servisse de mar para outros menos afortunados.

Cumpria com sua rotina com disciplina invejável e com o rigor dos mais sérios dos compromissos.

Até que um dia se viu abandonado pelo nobre amigo, sem aviso prévio, sem argumentação.

Não abdicou do direito de estar ali, quando o desejado retorno se materializasse.

Com as pernas esticadas, repousava os calcanhares na lama quase seca do antigo leito.

Assim ficou até que o mato surgisse por entre as fendas ressecadas do chão torrado.

Por fim o céu tornou a escurecer. Os roncos ecoavam pelo vale. As pedras talhadas por carícias de águas antigas exibiam o musgo marrom que já sentiam os primeiros respingos.

A princípio tímido e fino, mas reclamando a imponência foi reganhando seu curso, arrebatando folhas e galhos secos, separando as margens, fluindo para o reencontro.   

Porém, quando retornou já não era o mesmo rio, tampouco as esperanças pertenciam ao mesmo homem.

 Prometeu a si mesmo nunca mais se ausentar.

Novo, purificado. Ora raso, ora profundo. Ruma por que tem que seguir adiante. Desemboca onde será bebido. Por gargantas sedentas ávidas por alívio. Por paisagens carentes de tinta. Por criaturas munidas de saudades.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Adolescentes



Por que as pernas bambeam

Por que o ar desaparece

Por que os os rostos queimam

Por que a saudade reaquece

Por que os dedos se calam

Por que a voz emudece

Por que as roupas molham

Por que a pele não esquece

Por que os hormônios exalam

Por que a vontade cresce

Por que tudo que desejam

É que o tudo jamais cesse.