quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Teus olhos não veem



O precipício ergue-se imponente perante o mar, que luta em vão por uma vitória fadada a jamais se realizar. Na última fronteira ele estende os braços e oferece o peito ao vento continental. A vertigem é ínfima, a coragem colossal. Deixa-se inclinar para frente, o suficiente para mergulhar na gravidade. Em forma de flexa, seus pés se distanciam do chão derradeiro, enquanto as pontas dos dedos se aproximam irreversivelmente da folha da água, ora espuma, ora vácuo. Ao penetrar no Reino de Posseidon cerra os olhos, pois o sal das próprias lágrimas já beira o limite do tolerável. Não verá os corais, nem os recifes, muito menos tudo aquilo que se manifesta em vida na imensidão azul submersa. Para Teus Olhos o mar é um todo negro e inatingível. Ao emergir flutua, sorrindo ao sol com desprezo às profundezas. Entrega seu rumo ao desejo das ondas, que o conduzem para longe de tudo.

Sem notícias



A ansiedade roubou minhas horas, meu sol, minha madrugada. Agora atenta contra a minha paciência.
A ansiedade é um assédio moral.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Silêncio, por favor



Enxaqueca, noite chata
Choro, uma enxurrada
A dor uma cachaça, uma chama, uma chibata
Talvez uma enxada
A chave da charada?
Uma caixa de chocolates e uma xícara de chá
que no chão já se encontra gelada
No colchão que logo chego
Uma chance de aconchego
para uma cabeça inchada

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Enfermidade




Do leito da profundidade mais abissal até a última película da exosfera, não há um ser capaz de decifrar o mistério das sandices desenfreadas que cometemos contra nossa própria saúde física, quando o amor não nos deixa outra alternativa senão vivê-lo. É que a mente muito preocupada em encontrar soluções cabíveis se esquece de gozar e acaba dando-se por satisfeita com a perfeição dos paradigmas das palavras. Mas não estaria eu  tropeçando em  minha própria arapuca, numa tentativa racional de enquadramento, uma vez que ao invés de explicar, deveria mesmo estar usufruindo de minha doença ou sabotagem da saúde, se assim o preferir?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fortuna original







Nasceu miserável e nem por isso era infeliz. Seus esforços por riquezas materiais não vingaram, mas desejou uma fortuna que para muitos pareceria tola. Queria colecionar cumprimentos. Sim, a cada bom dia ou tarde e até noite anotava em seu bloco improvisado de rascunhos alheios, singularmente grampeados. Nada passava-lhe em branco e com doze anos  já se considerava homem de considerável status cumprimental. Porém, percebeu que os cumprimentos se repetiam  a ponto de tornar-lhe a tarefa entediante, mas não se daria por vencido com uma aparente dificuldade linguística de seus fornecedores. A demanda por novos cumprimentos acarretou no divórcio entre o espírito desapegado de vaidades fúteis e o próprio ego colecionador. Dedicava-se em tempo integral ao mundo, à vida, aos seres e não seres. Viveu de universo até que seu corpo imergisse no imensurável, tornando sua presença digna de memória da mais simples bactéria, que por sua vez retribuia sua gratidão em forma de cumprimentos. Calculadoras, computadores, bancos e até as mentes mais brilhantes sucumbiram em sua ingrata tarefa de contabilizar sua eternamente crescente fortuna. Tornou-se o maior de todos os milhonários.    

domingo, 12 de dezembro de 2010

Idas sem vindas

Não há o ir embora. Tal expressão é um equívoco. O que há é apenas o ir a algum lugar por certo tempo, ou até mesmo a imprevisão da volta, pois nem mesmo a volta existe. Ela é uma nova ida. As direções não importam, muito embora para quem fica sempre será muito longe. E embora sejamos bípedes, inalcançáveis seríamos se fôssemos quadrúpedes.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Leia com moderação




Há de se compreender que se pensavas que seria tudo uma maravilha, que haveria tranqüilidade, te enganastes. Nada é tranqüilo, não pode ser. Serenidade é ópio, ópio é transe e transe burrice. O espinho da rosa é a lembrança de que o belo é a distração que nosso egocentrismo forja para nos calar a razão.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Irremediável






Cada dia menos tempo, a hora se aproxima e o corpo não resiste, sabendo que há distâncias que se encurtam e momentos que não se deixam aprisionar, pois são feitos de grãos de areia, leves, que se juntam, formando uma tempestade que ganha forma, cegando os que insistem em permanecer de olhos abertos, porém há aqueles que se misturam ao fenômeno como se fossem dotados do dom do mimetismo e não se sabe exatamente em que estado ou forma se encontram, ora areia, ora humano, mantendo um certo meio-compromisso corporal que ao cessar das fortes rajadas dos ventos, cala os uivos, se torna brisa suave e simplesmente...

...dissipa.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

iwho



ipod

iphone

ipad

itouch

iwant

ineed

ibuy

ican

ibelong

iam

ithink...so

domingo, 7 de novembro de 2010

Reino menor



Há pássaros, pedras, chuvas e fogo

O tempo, a saúde, a fome e o demagogo

A luz, a sanha, a lança e o adeus

O som, o barro, o astronauta e deus.

Mas a verdade de tão rara não se lavra

Jaz perene, absoluta e universal

Muito além do reino da palavra.

Tão escravo quanto rei

Faz do silêncio tua lei.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O fim de Plutão



A terra é aproximadamente dez vezes maior do que o ex-planeta Plutão.

Urano é aproximadamente dez vezes maior que a Terra.

Saturno é aproximadamente três vezes maior que Urano.

Júpiter é aproximadamente o dobro de Saturno.

O Sol é aproximadamente cem vezes maior que Júpiter.

Sírius é aproximadamente cinco vezes maior que o Sol.

Pólux tem aproximadamente dez vezes o tamanho de Sírius.

Arcturus é aproximadamente quatro vezes maior que Pólux.

Aldebaran é aproximadamente dez vezes maior que Arcturus.

Betelgeuse é aproximadamente vinte vezes maior que Aldebaran.

E Antares tem apenas o dobro de Betelgeuse.

E se achas no direito de desqualificar Plutão.

Quem tu pensas que és, aproximadamente?

sábado, 23 de outubro de 2010

Dois minutos de saudade



Viste a minha alma

Viste a minha essência

Viste comigo o sol nascer sem maldade

Como é que não acreditas pois

em dois minutos de saudade?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Alegoria do Apê


Imagine uma família vivendo em uma moradia em forma de apartamento com apenas uma porta e várias janelas cobertas por uma película bloqueadora de claridade que conserva o outro lado em estado noturno constante.

Rompendo com a penumbra interna, uma luz azulada mantém os residentes do cubículo de olhos moribundos com suas pálpebras rendidas e respiração espaçada. São seres com estômagos proeminentes, dieta baseada na combinação de carboidrato com derivado lácteo sobreposto e derretido, salpicado com ervas aromáticas. A luz emana de uma janela eletrônica amparada por uma estrutura feita com madeira de procedência desconhecida.

Olham fixamente à janela eletrônica que filtra o exterior da unidade habitacional. Tomam por realidade não somente o turbilhão de imagens que adormecem suas mentes, mas também as macaquices realizadas no ínterim de trinta segundos, os “boa-noite” mecânicos, o brado de cineastas falidos e intrigas fictícias veladas. Riem de piadas ridas. Semanalmente desliza por debaixo da porta um calhamaço de nome imperativo, que determina como se deve raciocinar, ou deixar de fazê-lo. Também há entregas diárias de aparadores de fezes animais, que são lidos antes de cumprir com sua função.

Agora pense que um dos residentes é arrancado da letargia e arremessado ao mundo externo. Ao se deparar com tanta luminosidade sofrerá, pois seus olhos e ouvidos habituados ao filtro ofuscar-se-ão com tanta realidade. Resistirá até que o óbvio ululante esbofeteie-lhe a face.

Voltará ao quadrado escuro e tentará se passar pelo portador da revelação. Mas logo retomará seu lugar demarcado pelo peso de suas fartas nádegas, pois a trama clichê já vai começar.

Os dois estalos do planeta Vênus em sua forma prateada retomam a hipnose.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Vulgo


Governava o Rei dos Mares, com a força das ondas e o temor das tempestades.
Mas não reinava sozinho, pois havia os nobres da corte de abrangência global. O Conde dos Gelos, que equilibrava a efervescência dos vulcões submarinhos com suas águas frias oriundas dos pólos.

O Duque, ora veja, era senhor das cidades e cidadãos, enaltecidos pelo adjetivo maiúsculo, que também contemplaria os vassalos da Religião, sob o comando do Visconde dos Templos, eterno colhedor de tributos impagáveis.

Assim se dava o status quo.

Mas havia uma inquietude no fundo do mar. O Rei dos Mares não percebia a gravidade. Pensou que se tratava apenas do deslocamento de placas tectônicas e conseqüentes tsunamis. Mas a agitação tinha origens mais profundas.

Rei que se preza pressente o perigo. Ordenou que seus tubarões de caça revirassem o fundo do mar a procura dos indícios que levassem ao causador da revolta dos mares. Abaixo da superfície são todos iguais. São todos e nenhum.

Mas a origem é uma só, só os nobres não vêem. O Conde dos Gelos, em seu afã juvenil, ordenou que os pólos ficassem mais frios, a ponto de congelar todo o oceano. O Rei dos Mares o advertiu:

- Vá com calma meu rapaz, eu ainda sou o maior.

O Duque, senhor dos cidadãos e braço direito do Rei, cegou-se de tanta raiva e abriu fogo contra qualquer alvo possível:

- Veja meu senhor, a culpa é das baleias encalhadas! Veja vossa alteza, só pode ser culpa dos cavalos marinhos! Veja meu supremo, são as sereias, com certeza são elas, acredito.

O Rei a cada denúncia mandava caçar quem quer que fosse citado como culpado pelo rebuliço.

Mas ninguém mais poderia deter a força de Calamar. Por que Calamar era querido por todos os seres viventes. Por que Calamar estava nas profundezas do reino maior.

Coube ao Visconde dos templos difamá-lo com aumentativos.

Calamar perdera um membro em guerra – Aleijadão! Calamar é invertebrado – Molengão! Calamar é cefalópode – Cabeção! Calamar é vulgar – Povão! Calamar quando provocado, emite jatos de tintas letais aos condes, viscondes, duques e veja você, até reis.

Nosso Novo Rei não venceu pela força, venceu pela palavra. E sua palavra cala qualquer um. E de uma vez, cala templo, gelo, cidade. O Rei cala mar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

2031



Era início de dezembro e nos corredores da escola não mais ecoavam as saudações matutinas dos alunos. Tampouco soava a campainha de trezentos decibéis, há muitos anos aposentada, mas em seu lugar preservada por puro capricho.


Apenas o retumbar de dois saltos italianos de madeira intercalados com o som abafado da solas esmagando pequenas partículas de poeira podiam ser ouvidos.

À medida que se aproximava da sala do diretor ganhava pressa e firmeza. Uma breve parada diante da porta para ajeitar o cabelo tendo como reflexo a placa que identificava o ocupante principal do recinto.

Entrou sem bater.

Mas não seria tão simples assim. Entre o Diretor da escola e o senhor Rodolfo havia uma ante-sala e dentro dela uma secretária. Após uma sucinta, porém adequada apresentação, a entrada foi autorizada.

Um aperto de mãos frio como a escolha das armas para um duelo deu o tom da visita.

- O senhor já deve saber o motivo de minha vinda até aqui.

- Presumo que sim, mas em quê posso ajudá-lo?

Parecia cínico, mas o diretor jamais brincou em serviço.

- Gostaria que o caso da reprovação do meu filho fosse revisto e reconsiderado.

- Uma coisa de cada vez, por favor. O que exatamente o senhor gostaria que revíssemos?

- Meu filho nunca tirou nenhuma nota abaixo de nove em matemática.

- Seu filho jamais cooperou com o trabalho da empresa júnior que produzia cadernos feitos com papel reciclado que eram vendidos na loja da escola.

- Meu filho não é peão de chão de fábrica e muito menos comerciante de bazar.

- O senhor tem toda a razão. Por isso o desempenho dele nas avaliações de trabalho em equipe, gestão de qualidade e gestão financeira ficou muito abaixo da média.

- Mas isto é um absurdo! Ele sempre foi responsável com as tarefas, respeitando os prazos e critérios exigidos pelos professores. O projeto dele foi o vencedor da feira de ciências desse ano.

- E depois ele deu aquela infeliz declaração ao blog dos alunos dizendo que o mérito da vitória era exclusivamente dele.

- Não há dúvida alguma sobre isso.

- Levando-se em consideração que o projeto era sobre estética corporal e ele era o manequim vivo, o senhor até tem alguma razão em acreditar nisso.

- Já entendi. Já entendi. Há um preço, não há?

- Há.

- De quanto estamos falando?

- De algo em torno de um ano para que ele possa demonstrar que está eticamente preparado para viver em sociedade e ser capaz de servir de exemplo para todos aqueles que o cercam. A propósito, ele também demonstrou total indiferença às causas humanitárias sendo reprovado em PIS.

- Que diabo é isso?

- Projetos de inclusão social.

- Dez em história.

- Dois em Cidadania e direitos humanos.

- Dez em Geografia.

- Um e meio em Cultura Brasileira.

- Dez em inglês.

- Melhor não falarmos da produção de textos.

- Vocês não são uma escola? O que são vocês?

- Nós somos o Centro de Desenvolvimento Humano.

- E o vestibular? Como é que fica?

- Falamos sobre isso nas aulas de História da Segregação Social. Aliás, ele também não obteve rendimento satisfatório.

- Você não reconsiderará o resultado do Mateo?

Cinco segundos intermináveis de hiato finalmente quebrados pela resposta cortante.

- Absolutamente.

- Pois aqui meu filho não fica mais.

- Sugiro que procure uma escola particular. Passar bem.

domingo, 12 de setembro de 2010

Último Palanque


O cortejo deixa a capela rumo ao cemitério municipal que fica do outro lado da cidade de São José da Bela Vista. De todos os eventos que já ocorreram nesta cidade, nenhum mobilizou tanto os seus oito mil habitantes, que sempre prestam suas condolências, mesmo que não vá ali um parente próximo, que convenhamos, deve ser fato raro dado tal contingente populacional. À frente de todos vem o padre e sua bíblia. O irmão mais novo e o filho caçula seguram as alças da frente do caixão. Nas alças traseiras, vem o filho mais velho e irmão mais velho.

Internada no pequeno hospital de São José está Dona Etelvira, totalmente alheia aos acontecimentos.

Familiares distantes também vieram prestar a merecida última homenagem. Esperam pacientemente sua vez para auxiliarem na árdua tarefa de carregar o jazigo. Poderia ser tudo mais simples, pois a funerária Morte Feliz, a única da cidade, dispõe do serviço, mas a abundância de braços amigos dá à procissão um ar ainda mais tradicional.

Enquanto isso no seu leito de hospital, Dona Etelvira ainda não sabe de nada e seria prudente que não soubesse.

A cerimônia avança com a sombra das nuvens sobre as ruas da cidade. O branco da abóboda da imponente igreja matriz é realçado pelos raios de sol que rompem o céu esverdeado de uma tempestade que se anuncia, tornando a atmosfera ainda mais lúgubre. Os alto falantes da igreja anunciam que mais uma alma local fora chamada para junto do seu criador. Na calçada, o bêbado descambaleia e traz o chapéu amarrotado para junto do peito; os cães, que não se atrevem a latir, deitam e demonstram no semblante a piedade e parecem inclusive rezar com as patas dianteiras sobrepostas sob a mandíbula, as orelhas abaixadas e os rabos recolhidos; todo o comércio arria as portas; até os pássaros pousam e escondem a cabeça sob uma das asas. Os únicos sons que se ouvem são dos saltos dos sapatos que trepidam sobre o calçamento de paralelepípedo e o dobrar intermitente dos sinos. Não há um cidadão sequer que não esteja comprometido com o ritual.

A exceção é Dona Etelvira, sozinha lá no hospital, poupada da dura verdade, sem desconfiar de nada.

Ao se aproximarem do portão do cemitério, o canto lamentoso das carpideiras já pode ser ouvido e arranca lágrimas até dos funcionários da funerária, habituados ao ofício. O afilhado assume o lugar do filho mais novo e o cunhado o do filho mais velho. O Prefeito e primo José Lizzo, rende o afilhado e a outra alça é tomada pelo vizinho, marido da companheira de carteado. A troca é mais solene e precisa do que a da guarda da rainha da Inglaterra. Adentram o cemitério pela avenida principal, dobrando logo à esquerda na terceira quadra, onde se encontra o túmulo da família Lizzo. O caixão é aberto uma última vez e o padre conclama um último pai nosso, seguido de uma salva de palmas e cumprimentos congratulantes. Logo em seguida, as pessoas vão deixando o cemitério enxugando as lágrimas, prontas para retomar suas atividades. Os últimos remanescentes são os comovidos funcionários da funerária, que fecham o caixão vazio e o levam de volta à agência.

Um pouco mais tarde no hospital, diante do marido vereador e candidato à sucessão, filhos e alguns dos parentes que vieram para se despedir, Dona Etelvira mostrou por que de boba não tinha nada:

– Meus queridos, estou certa que de hoje eu não passo. Profetizou a enferma terminal. E de fato, não passou.

O que ela não sabia era que no dia seguinte o negócio seria para valer.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Faroleiro




De olhos abertos seguem seus caminhos, pelo passeio à esquerda de quem vai e à direita de quem vem na rua de mão única.


De olhos fechados abre-se uma clareira na floresta e os seres encantados se aproximam para a festa.

De olhos abertos dou um passo de cada vez, firme como deve ser a certeza de onde se quer chegar.

De olhos fechados a valsa suave de acordes simples e inocentes toca os corações dos puros, que se põem a bailar. Dançam em pares, suas roupas são leves e estão descalços. Não há espinhos na relva.

De olhos abertos o sol está quente, mas o coração bate na temperatura certa. Vê a janela da moça formosa? É pra ti que se abre. Mas não demora muito e a mãe perversa a fecha sem pudor. Cuidado com o buraco.

De olhos fechados há regozijo. Há banquete de frutas e vinho. Há bonança aos que querem o bem e somente o bem. Por isso dançam. Por isso bebem. Por isso comem.

De olhos abertos o sinal está vermelho. Pode atravessar. Atravesse na faixa e não pise na linha. Siga à esquerda.

De olhos fechados a lua ilumina a festa na companhia de muitas, quase todas as estrelas. Os seres têm olhos atrofiados, nariz e boca grandes. Não há escuridão que os detenha. Não há luz que os cegue.

De olhos abertos ninguém se olha, ninguém se vê. A lei é do medo. Se há sol há medo. Maldito seja quem ordenou que se fizesse a luz.

De olhos fechados a música parou. A floresta pegou fogo e os seres encantados tornaram-se o banquete.

De olhos abertos fica cada vez mais quente e oxalá! esquente mais.

Da rua à floresta leva-se algo em torno de cento e cinqüenta milésimos de segundos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cosmopolita


Não é da verdade que devo falar, é do fingimento.

Tirando o que se pensa ser real, o resto é falso.

Finja que respeita os seus pais e irmãos.

Dê-lhes carinho de mentira para obter carinho em troca.

Finja ter laços familiares com pessoas que você, supostamente, é incumbido de amar.

Guarde dinheiro. Sonhe com a Disneylandia. Ao encontrar aquele rato de mentira, em frente ao castelo de ilusão, próximo aos estúdios dos sonhos finja-se caucasiano e abastado. Não seja latino, seja incompreensível. Compre o chapéu de orelhas e finja-se de rato. Mostre aos amigos que você pode ser rato e eles não. Financie o sonho das crianças. Estadunidenses. Democráticos como rambos, soldados universais, provedores da paz e da liberdade.

Finja que és capaz de aprender, na escola, na rua, com os mais velhos. Finja que não copias.

Disfarce a ignorância fingindo saber o que ninguém sabe. Finja que todos são tolos. Assista ao jornal nacional, às novelas e finja que não é com você. É só provocação.

Faça de conta que gosta de pegar metrô lotado e que vive experiências sociológicas edificantes. Faça-se plural. Vista calça xadrez, tênis descolado, camiseta surrada e jaqueta de brechó. Finja que não liga, por que é assim e pronto e que se dane quem não gostou.

Finja que o sucesso é uma questão de tempo. Que trabalha. Finja ter escrúpulos, honra e dignidade.

Finja viver em outra sociedade. Enólogo, chef, bom pai e marido. Finja que joga tênis.

Troque o seu passaporte. Renegue seu nariz chapado, lábios carnudos, bunda arrebitada. Disfarce o samba.

De quatro em quatro anos, sem a menor intimidade e vergonha pendure a bandeira daquele país conveniente na janela do seu quatro por quatro assassino da camada de ozônio e finja que chora de emoção na hora do gol.

Finja que amadureceu e com isso ganharás status de sábio e diploma de inútil. Angarie compaixão com frases espirituosas, sem o menor pudor, que ainda assim serás perdoado.

No momento de abdicar da companhia dos entes queridos dissimulados, finja não ter medo.

De nada vai adiantar fingir que vives.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O canto do Galo

Cinco horas da manhã e nem bem havia cerrado as pálpebras e lá se vai Pedro para longe do colchão duro, mas quente.


Ainda sente o perfume distante de uma cachaça amarga, tomada ao som de conversas atravessadas, em meio a rodadas de palitos na noite anterior, na birosca do Simão.

- Diabo de galo miserável.

A leiteira só esquenta água. Do lado de lá tem chá, presunto e muito queijo com pão quentinho, do lado de cá, o pão ainda dorme, há pouco pó para coar e o que sobra é fé.

Veste um pouco de calça e enfia as butina. O candidato do boné já retornou ao anonimato. O da camisa promete.

Não reclama da vida, nem da mulher, muito menos dos filhos. Não têm culpa de nada. Dormem os inocentes. Um beijo na mulher, que deixou a marmita no forno, com a sobra da janta que sobrara do almoço. Ela nunca saberá de Leonor. Beija os filhos, cada qual à sua maneira, mas com afeto indistinto. Não esquece um só dia.

- Se eu pego esse galo desgraçado, acabo com ele.

Cinco e meia, tá na hora de tomar rumo.

Desce a rua, atravessa a passarela, dobra a esquina, pula o bêbado, leva a marmita morna, espera o sinal fechar, desvia do carro, aperta o passo, não vai perder a hora.

Tira do bolso duas notas e uma prata, espera na fila, troca por bilhete, passa a catraca, espera na fila, desce a escada rolante, vira à direita, entra na fila, espera na fila, empurra a fila, a fila o empurra, perde a condução. Espera de novo, lá vem a condução, entra na marra, se segura como pode, se espreme, se enrosca, se entorta, segura a marmita, olha a curva! Olha o freio! Mais vinte paradas e será nossa vez! Olha o breque! Lá se vai a marmita ao chão. Ficam o arroz o feijão e o ovo estrelado, mas rolam as lingüiças, que não vão muito longe. São pinçadas de volta, assopradas e bem guardadas. Não vai deixar cair de novo.

Chega ao destino. É empurrado para fora do vagão, entra na fila, sobe a escada rolante, dobra à esquerda, passa na catraca, ganha a rua, de frente à igreja, com o polegar direito, parte a cara em quatro, o peito em quatro, segue adiante, chega ao canteiro. Não esquece o ponto.

Qual é o andar de Pedro? Apressado, mete a mão na massa. Qual é o andar de Pedro? Põe o capacete e sobe a escada devagar. Passa o segundo, o terceiro. O quarto tem três quartos, o menor maior que seu barraco, o maior é o sonho de toda uma vida. Continua a subir. Qual era mesmo o andar de Pedro? Pára no sexto. Não há mais andar.

A visibilidade é boa, a poluição ainda não é sufocante, as buzinas dos automóveis vão aos poucos substituindo as piadas de passarinhos. Não tem graça nenhuma, é piada cada vez mais rara. Não vai rir de nada.

- Ainda mato aquele galo filho da puta.

É bom de colher, sapeca a massa, pega a lajota, uma a uma, vai sumindo a paisagem. Aparece a cachaça não se sabe de onde. É hora do almoço. Toma um trago, faz cara feia. Pega a marmita e se vira para o canto. É bom de colher. Não quer companhia.

De volta à labuta, ainda zonzo da pestana breve. Cambaleia por entre as lajotas e meias paredes. Fabrica um quadrado vazio. Aos poucos vai se erguendo o labirinto e o homem lá, se encarcerando. Cadê as piadas? Cadê a luz? Não ouve as buzinas.

O galo canta fora de hora em cima do telhado. O sol fica vermelho.

No canteiro é hora de trocar de andar. Não quer falar. Vai até o fim da laje. Olha para baixo e vê os transeuntes a esquivarem-se uns dos outros, escolhe o momento de calmaria. Não hesita.

Qual é o andar de Pedro? Pedro não tem andar. É pássaro, mas não voa. Não é rei, mas sente-se príncipe. De pernas para o ar, não quer voltar.

Pressente o momento em que todos o cercarão estupefatos. Indignar-se-ão por ele interromper seus dias com sua vida banal. Não tem esse direito.

Lembra-se do galo, da mulher, das crianças, de Leonor. Esfrega os olhos. As lágrimas molham o cimento. O cimento arranha seus olhos. Seus olhos vêem o sol vermelho. Não os fechará.

Ônibus, carros, motos, pedestres. Todos param. O mundo finalmente parou para ver Pedro. A cidade não é toda de pedra.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Fernheca

Fernheca era um personagem muito popular no pequeno vilarejo de Xenhenhem da mata. Apesar de seu nome soar estranho até para os habitantes locais, já havia sido incorporado ao vocabulário cotidiano. Vindo de lugar nenhum e filho de pai e mãe desconhecidos, foi adotado pelas famílias da localidade que o proviam com água, comida e abrigo. Era tão querido que se fosse candidato, venceria facilmente as eleições para a prefeitura do município se não fosse sua condição natural de bode. O motivo para tamanho prestígio do caprino é a chuva. A escassez das águas no sertão tem várias explicações científicas irrefutáveis que condenam a região à uma desertificação irreversível, mas a ciência jamais ousou explicar a influência do cocô de bode nos processos meteorológicos daquela cidadezinha em particular. Acreditavam que Fernheca produzia esterco mágico que ao se misturar com a terra produzia gases que subiam aos céus e formavam nuvens que por sua vez precipitavam, irrigando as hortas nos quintais das casinhas multicoloridas. Hortaliças verdes e grandes era um milagre naquela sequidão. Legumes como cenouras, beterrabas e pepinos coloriam as mesas modestas, mas fartas daquelas famílias. O sucesso do bode era tão grande que prefeitos de outras cidades pediam o bode emprestado para trazer-lhes um pouco de água para aplacar a sede de seus eleitores. De forma que o prefeito de Xenhenhem da Mata resolveu lucrar com o bode. Avisou que o bode estava à venda. Mandou as professoras ensinarem nas escolas que mesmo o bode pertencendo a um só dono, seus milagres continuariam a acontecer para o bem de todos. A população desconfiada discutia nas biroscas, esquinas e até nas cadeias. Um movimento contrário à venda do bode, liderado por Jeremias, o vingador do sertão, temido por suas aventuras no cangaço, em defesa dos famintos e sedentos e contra a tirania dos coronéis, começou a tomar forma e foi contagiando o povo até então pacato. Entretanto, a insurgência não foi suficiente para evitar que Fernheca fosse a leilão realizado na calada da noite na fazendo do Coronel Aristides, sendo arrematado pelo próprio. O preço irrisório revoltou a todos, mas o pior ainda estava por vir. Não somente a população havia sido privada da gloriosa companhia do bode, mas como também seu esterco passou a ser vendido pelo coronel a preço de ouro, em saquinhos de meio quilo, lucrando com o produto mágico por seis meses. Acontece que para o azar do coronel e principalmente do bode (já explico mais adiante), a chuva insistia em não dar o ar da graça, apesar do município registrar plantação recorde de semente de cocô de bode. Chegaram à óbvia constatação que se o bode não fosse alimentado pelo povo, seu bagaço não surtiria o mesmo efeito. O produto encalhou e os estoques de cocô de bode chegaram a níveis alarmantes, levando o ganancioso e empreendedor coronel a encerrar as atividades do bode (agora sim, o destino do bode). O bode foi servido em grande banquete. Teve buchada, fizeram das tripas lingüiça, até os olhos serviram aos convidados. O povo liderado por Jeremias ficou na espreita do lado de fora da fazenda e quando todos se deliciavam com as iguarias caprinas, as dependências da fazenda foram tomadas de assalto e a cabeça de Fernheca recuperada. Ainda havia a esperança de que a chuva voltasse a cair se a cabeça do bode fosse pendurada em praça pública, mas a homenagem não surtiu o efeito esperado. Jeremias, empolgado com o grande crescimento de sua popularidade, decidiu concorrer à prefeitura e ganhou facilmente as eleições contra Severino Pé de Serra, o candidato do coronelismo e forrozeiro de profissão. Jeremias trouxe o progresso e a prosperidade para Xenhenhem da mata. Até a chuva tinha o prazer de visitar a cidade. Vinha tanto que até fez morada, a ponto de precisarem construir uma ponte. As hortas cresceram mais verdes do que nunca e ninguém nem mais se lembra de Fernheca, o bode enganador.
Acima Fernheca em seus tempos de glória e abaixo o que sobrou