quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Faroleiro




De olhos abertos seguem seus caminhos, pelo passeio à esquerda de quem vai e à direita de quem vem na rua de mão única.


De olhos fechados abre-se uma clareira na floresta e os seres encantados se aproximam para a festa.

De olhos abertos dou um passo de cada vez, firme como deve ser a certeza de onde se quer chegar.

De olhos fechados a valsa suave de acordes simples e inocentes toca os corações dos puros, que se põem a bailar. Dançam em pares, suas roupas são leves e estão descalços. Não há espinhos na relva.

De olhos abertos o sol está quente, mas o coração bate na temperatura certa. Vê a janela da moça formosa? É pra ti que se abre. Mas não demora muito e a mãe perversa a fecha sem pudor. Cuidado com o buraco.

De olhos fechados há regozijo. Há banquete de frutas e vinho. Há bonança aos que querem o bem e somente o bem. Por isso dançam. Por isso bebem. Por isso comem.

De olhos abertos o sinal está vermelho. Pode atravessar. Atravesse na faixa e não pise na linha. Siga à esquerda.

De olhos fechados a lua ilumina a festa na companhia de muitas, quase todas as estrelas. Os seres têm olhos atrofiados, nariz e boca grandes. Não há escuridão que os detenha. Não há luz que os cegue.

De olhos abertos ninguém se olha, ninguém se vê. A lei é do medo. Se há sol há medo. Maldito seja quem ordenou que se fizesse a luz.

De olhos fechados a música parou. A floresta pegou fogo e os seres encantados tornaram-se o banquete.

De olhos abertos fica cada vez mais quente e oxalá! esquente mais.

Da rua à floresta leva-se algo em torno de cento e cinqüenta milésimos de segundos.