sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Kairos, o herói




Viva Kairos, herói dos heróis!

Kairos, o magnífico, é supremo e onipresente.

Viva kairos, o alado!

Kairos é artesão, tem arco e flecha e a sabedoria do tear.

Viva Kairos, o preciso!

Kairos é aqui e agora. É certeza, segurança e rapidez.

Viva Kairos, o sábio!

Kairos é reflexão e oportunidade.

Viva kairos, o belo!

Kairos com sua trança sobre sua face e a nuca despida, tem a força de todos os seres.

Viva kairos, o invencível!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chronos, o monstro




É o mais temido de todos os predadores. Jamais um fóssil seu fora encontrado, mesmo assim não há quem duvide de sua existência, pois todos os dias suas presas, ou o que sobrou delas, servem como prova irrefutável de sua voracidade. Seu ataque acontece de maneira tão sorrateira que a própria vítima somente toma consciência de que fora devorada quando todas as esperanças já a abandonaram. Este é o relato de como transcorre seu ataque, de forma que as coincidências, ainda que manipuladas, são a demonstração empírica dos fatos.
A fera toma posição discreta e ajusta-se à pulsação da presa. Nos primeiros instantes, cede levemente a mandíbula inferior, em aproximadamente dez graus, logo alcançando noventa em um ritmo inalterado. A partir desse momento começa seu balé, no qual contorna a vítima sempre da direita para a esquerda, extendendo sua mandíbula ao máximo, em precisos cento e oitenta graus. Então, a vítima adentra sua boca, totalmente inconsciente do que está ocorrendo. O engolimento ocorre na mesma batida que a emboscada, porém com movimentos reversos. Não se ouve gritos ou lamentos, mas o fato está sacramentado. Permanentemente insaciável, vai à busca de mais alimento. Mas a ironia das ironias, é a descoberta de que a sua posição na cadeia alimentar é ambígua. Suas vítimas transformam-se em seus principais consumidores.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Conta gotas




Uma gota

É garôa.

Caiu mais uma gota

É chuva.

Na próxima gota

Será tempestade.

Com mais três gotas

Tem-se um dilúvio.

Quem contar de todas as gotas a última, terá por recompensa o primeiro raio de sol.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Artesanato



Até o digo,
Que não há preto no branco, muito menos o reverso.
Pego uma agulha afiada e esquento-lhe a ponta.
Depois perfuro um pano de fundo negro deixando que a luz penetre por pequenos orifícios talhados na brasa. Mas seus olhos só vêem palavras. O que confunde os olhos ofusca a mente.

Enfarto do digitocárdio



Deu entrada na emergência em estado desesperador
Tremia, contraía, debatia, gritava de dor
Luzes, câmeras e muita ação
Na sala de cirurgia, um bisturi, frieza e muita concentração
Rasgou-lhe o peito e para a sua incredulidade
Havia um vácuo e muita futilidade
O órgão trocado por circuitos de complexo sistema
funcionava  aparentemente sem problema
Mas de que reclamava o paciente?
Não de futuro, nem de passado, só de presente
De que vivia então o pseudofedelho?
Respirava com ajuda de aparelho
Que não se confunda ao hospitalar
Aparelho portátil domiciliar
Com controle remoto e tela de lédi ou elecedê
Prostrado, totalmente à sua mercê
Mas eis que ocorre um súbito apagão
que seca a fonte do seu pobre coração.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sábio é o jardineiro



A Rosa não era mais a mesma. Suas pétalas murcharam e secaram, nem de longe lembrando a vivacidade rubra que outrora agraciava os olhos de quem frequentava aquele jardim. Tudo aconteceu por culpa do Espinho, que de tantos ciúmes, feria a todos que ousassem se aproximar de sua protegida. Sufocada, a Rosa tomou a mais difícil das decisões. O Espinho em sua agudez, não hesitou em acatar seu desejo, pois com a Rosa não se discute. A Rosa encontrou uma nova morada e era visitada por muitos, que a cheiravam e a acariciavam. Mas um dia a repousaram em um vaso com água. Não era mais a Rosa do jardim. Tornou-se um doze avos de um enfeite provisório de um egocentrismo qualquer. Feneceu e encontrou nas páginas de um livro sua morada eterna.
- Não se separa uma Rosa de seu Espinho.
Já dizia o Jardineiro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Teus olhos não veem



O precipício ergue-se imponente perante o mar, que luta em vão por uma vitória fadada a jamais se realizar. Na última fronteira ele estende os braços e oferece o peito ao vento continental. A vertigem é ínfima, a coragem colossal. Deixa-se inclinar para frente, o suficiente para mergulhar na gravidade. Em forma de flexa, seus pés se distanciam do chão derradeiro, enquanto as pontas dos dedos se aproximam irreversivelmente da folha da água, ora espuma, ora vácuo. Ao penetrar no Reino de Posseidon cerra os olhos, pois o sal das próprias lágrimas já beira o limite do tolerável. Não verá os corais, nem os recifes, muito menos tudo aquilo que se manifesta em vida na imensidão azul submersa. Para Teus Olhos o mar é um todo negro e inatingível. Ao emergir flutua, sorrindo ao sol com desprezo às profundezas. Entrega seu rumo ao desejo das ondas, que o conduzem para longe de tudo.

Sem notícias



A ansiedade roubou minhas horas, meu sol, minha madrugada. Agora atenta contra a minha paciência.
A ansiedade é um assédio moral.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Silêncio, por favor



Enxaqueca, noite chata
Choro, uma enxurrada
A dor uma cachaça, uma chama, uma chibata
Talvez uma enxada
A chave da charada?
Uma caixa de chocolates e uma xícara de chá
que no chão já se encontra gelada
No colchão que logo chego
Uma chance de aconchego
para uma cabeça inchada

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Enfermidade




Do leito da profundidade mais abissal até a última película da exosfera, não há um ser capaz de decifrar o mistério das sandices desenfreadas que cometemos contra nossa própria saúde física, quando o amor não nos deixa outra alternativa senão vivê-lo. É que a mente muito preocupada em encontrar soluções cabíveis se esquece de gozar e acaba dando-se por satisfeita com a perfeição dos paradigmas das palavras. Mas não estaria eu  tropeçando em  minha própria arapuca, numa tentativa racional de enquadramento, uma vez que ao invés de explicar, deveria mesmo estar usufruindo de minha doença ou sabotagem da saúde, se assim o preferir?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fortuna original







Nasceu miserável e nem por isso era infeliz. Seus esforços por riquezas materiais não vingaram, mas desejou uma fortuna que para muitos pareceria tola. Queria colecionar cumprimentos. Sim, a cada bom dia ou tarde e até noite anotava em seu bloco improvisado de rascunhos alheios, singularmente grampeados. Nada passava-lhe em branco e com doze anos  já se considerava homem de considerável status cumprimental. Porém, percebeu que os cumprimentos se repetiam  a ponto de tornar-lhe a tarefa entediante, mas não se daria por vencido com uma aparente dificuldade linguística de seus fornecedores. A demanda por novos cumprimentos acarretou no divórcio entre o espírito desapegado de vaidades fúteis e o próprio ego colecionador. Dedicava-se em tempo integral ao mundo, à vida, aos seres e não seres. Viveu de universo até que seu corpo imergisse no imensurável, tornando sua presença digna de memória da mais simples bactéria, que por sua vez retribuia sua gratidão em forma de cumprimentos. Calculadoras, computadores, bancos e até as mentes mais brilhantes sucumbiram em sua ingrata tarefa de contabilizar sua eternamente crescente fortuna. Tornou-se o maior de todos os milhonários.    

domingo, 12 de dezembro de 2010

Idas sem vindas

Não há o ir embora. Tal expressão é um equívoco. O que há é apenas o ir a algum lugar por certo tempo, ou até mesmo a imprevisão da volta, pois nem mesmo a volta existe. Ela é uma nova ida. As direções não importam, muito embora para quem fica sempre será muito longe. E embora sejamos bípedes, inalcançáveis seríamos se fôssemos quadrúpedes.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Leia com moderação




Há de se compreender que se pensavas que seria tudo uma maravilha, que haveria tranqüilidade, te enganastes. Nada é tranqüilo, não pode ser. Serenidade é ópio, ópio é transe e transe burrice. O espinho da rosa é a lembrança de que o belo é a distração que nosso egocentrismo forja para nos calar a razão.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Irremediável






Cada dia menos tempo, a hora se aproxima e o corpo não resiste, sabendo que há distâncias que se encurtam e momentos que não se deixam aprisionar, pois são feitos de grãos de areia, leves, que se juntam, formando uma tempestade que ganha forma, cegando os que insistem em permanecer de olhos abertos, porém há aqueles que se misturam ao fenômeno como se fossem dotados do dom do mimetismo e não se sabe exatamente em que estado ou forma se encontram, ora areia, ora humano, mantendo um certo meio-compromisso corporal que ao cessar das fortes rajadas dos ventos, cala os uivos, se torna brisa suave e simplesmente...

...dissipa.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

iwho



ipod

iphone

ipad

itouch

iwant

ineed

ibuy

ican

ibelong

iam

ithink...so

domingo, 7 de novembro de 2010

Reino menor



Há pássaros, pedras, chuvas e fogo

O tempo, a saúde, a fome e o demagogo

A luz, a sanha, a lança e o adeus

O som, o barro, o astronauta e deus.

Mas a verdade de tão rara não se lavra

Jaz perene, absoluta e universal

Muito além do reino da palavra.

Tão escravo quanto rei

Faz do silêncio tua lei.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O fim de Plutão



A terra é aproximadamente dez vezes maior do que o ex-planeta Plutão.

Urano é aproximadamente dez vezes maior que a Terra.

Saturno é aproximadamente três vezes maior que Urano.

Júpiter é aproximadamente o dobro de Saturno.

O Sol é aproximadamente cem vezes maior que Júpiter.

Sírius é aproximadamente cinco vezes maior que o Sol.

Pólux tem aproximadamente dez vezes o tamanho de Sírius.

Arcturus é aproximadamente quatro vezes maior que Pólux.

Aldebaran é aproximadamente dez vezes maior que Arcturus.

Betelgeuse é aproximadamente vinte vezes maior que Aldebaran.

E Antares tem apenas o dobro de Betelgeuse.

E se achas no direito de desqualificar Plutão.

Quem tu pensas que és, aproximadamente?

sábado, 23 de outubro de 2010

Dois minutos de saudade



Viste a minha alma

Viste a minha essência

Viste comigo o sol nascer sem maldade

Como é que não acreditas pois

em dois minutos de saudade?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Alegoria do Apê


Imagine uma família vivendo em uma moradia em forma de apartamento com apenas uma porta e várias janelas cobertas por uma película bloqueadora de claridade que conserva o outro lado em estado noturno constante.

Rompendo com a penumbra interna, uma luz azulada mantém os residentes do cubículo de olhos moribundos com suas pálpebras rendidas e respiração espaçada. São seres com estômagos proeminentes, dieta baseada na combinação de carboidrato com derivado lácteo sobreposto e derretido, salpicado com ervas aromáticas. A luz emana de uma janela eletrônica amparada por uma estrutura feita com madeira de procedência desconhecida.

Olham fixamente à janela eletrônica que filtra o exterior da unidade habitacional. Tomam por realidade não somente o turbilhão de imagens que adormecem suas mentes, mas também as macaquices realizadas no ínterim de trinta segundos, os “boa-noite” mecânicos, o brado de cineastas falidos e intrigas fictícias veladas. Riem de piadas ridas. Semanalmente desliza por debaixo da porta um calhamaço de nome imperativo, que determina como se deve raciocinar, ou deixar de fazê-lo. Também há entregas diárias de aparadores de fezes animais, que são lidos antes de cumprir com sua função.

Agora pense que um dos residentes é arrancado da letargia e arremessado ao mundo externo. Ao se deparar com tanta luminosidade sofrerá, pois seus olhos e ouvidos habituados ao filtro ofuscar-se-ão com tanta realidade. Resistirá até que o óbvio ululante esbofeteie-lhe a face.

Voltará ao quadrado escuro e tentará se passar pelo portador da revelação. Mas logo retomará seu lugar demarcado pelo peso de suas fartas nádegas, pois a trama clichê já vai começar.

Os dois estalos do planeta Vênus em sua forma prateada retomam a hipnose.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Vulgo


Governava o Rei dos Mares, com a força das ondas e o temor das tempestades.
Mas não reinava sozinho, pois havia os nobres da corte de abrangência global. O Conde dos Gelos, que equilibrava a efervescência dos vulcões submarinhos com suas águas frias oriundas dos pólos.

O Duque, ora veja, era senhor das cidades e cidadãos, enaltecidos pelo adjetivo maiúsculo, que também contemplaria os vassalos da Religião, sob o comando do Visconde dos Templos, eterno colhedor de tributos impagáveis.

Assim se dava o status quo.

Mas havia uma inquietude no fundo do mar. O Rei dos Mares não percebia a gravidade. Pensou que se tratava apenas do deslocamento de placas tectônicas e conseqüentes tsunamis. Mas a agitação tinha origens mais profundas.

Rei que se preza pressente o perigo. Ordenou que seus tubarões de caça revirassem o fundo do mar a procura dos indícios que levassem ao causador da revolta dos mares. Abaixo da superfície são todos iguais. São todos e nenhum.

Mas a origem é uma só, só os nobres não vêem. O Conde dos Gelos, em seu afã juvenil, ordenou que os pólos ficassem mais frios, a ponto de congelar todo o oceano. O Rei dos Mares o advertiu:

- Vá com calma meu rapaz, eu ainda sou o maior.

O Duque, senhor dos cidadãos e braço direito do Rei, cegou-se de tanta raiva e abriu fogo contra qualquer alvo possível:

- Veja meu senhor, a culpa é das baleias encalhadas! Veja vossa alteza, só pode ser culpa dos cavalos marinhos! Veja meu supremo, são as sereias, com certeza são elas, acredito.

O Rei a cada denúncia mandava caçar quem quer que fosse citado como culpado pelo rebuliço.

Mas ninguém mais poderia deter a força de Calamar. Por que Calamar era querido por todos os seres viventes. Por que Calamar estava nas profundezas do reino maior.

Coube ao Visconde dos templos difamá-lo com aumentativos.

Calamar perdera um membro em guerra – Aleijadão! Calamar é invertebrado – Molengão! Calamar é cefalópode – Cabeção! Calamar é vulgar – Povão! Calamar quando provocado, emite jatos de tintas letais aos condes, viscondes, duques e veja você, até reis.

Nosso Novo Rei não venceu pela força, venceu pela palavra. E sua palavra cala qualquer um. E de uma vez, cala templo, gelo, cidade. O Rei cala mar.