sábado, 27 de julho de 2013

O Mundo Visto a Partir do Falo






Não há escapatória
Não há nada além de uma arbitrariedade natural
Não há nada que a língua não explique e que os números não provem
Não há questionamentos possíveis ao quilo, ao grama, ao metro, ao litro, aos volts
E se mesmo o deus ousasse questioná-los, de si mesmo não escaparia
Não há complicações além do alcance das retinas
Não há nudez que seja desmentida por desejos não pré-estabelecidos
Não há e nunca haverá possibilidade de equilíbrio que não penda ao mais forte
Não há mais forte sem o mais fraco
Não haveria fracos se não houvesse a preguiça
Não há espaço para os preguiçosos, nem dignidade ou moral que possa resgatá-los
Não há outra alternativa senão esmolar e se livrar da culpa
Não há forte sem Falo
Não há Falo sem fala
O que fala o Falo é que não há fala que fale de um mundo onde o Falo não fale mais alto sua pretensão de falar a verdade.

sábado, 20 de abril de 2013

Diálogos Possíveis








Clarice caminhava na direção da mesa do bar da esquina onde ele estava sentado. Ele não teria muito tempo para pensar no que poderia ser dito, no máximo vinte segundos, no máximo três tentativas.
Na primeira delas, ela chegaria elegantemente austera. Seria uma demonstração de equilíbrio aparente, pois em seu interior já ultrapassara o ponto de ebulição. Não fosse sua pele clara e macia estaria exalando o ódio. Perguntaria da vida dele, o que tem feito, por onde tem andado, entre outras amenidades para driblar a fúria. Ele responderia tranquilamente, porém tomaria a precaução de não muito se alongar. Muito trabalho, compromissos, pouco tempo e quase nenhum sono. Ela o encurralaria na parede, usaria todos os seus argumentos indiscutíveis e o deixaria sem a menor chance de defesa. Ele não a contestaria. Apenas se desculparia e faria sua vigésima promessa de tornar-se um homem melhor. Clarice concordaria pela vigésima vez.  
Percebendo, entretanto, que Clarice trazia um sorriso discreto de pouca tensão labial, concluiu que não poderia haver motivo de revolta, tampouco teria ele razões para se preocupar. Esta foi a segunda suposição.
Ela o cumprimentaria com um beijo breve, mas não desprovido de amor. Perguntaria se ele a esperava há muito tempo e se já havia pedido algo para comer. Ele diria não estar com fome, só com muitas saudades. E concluiria declarando seu amor de maneira inesperada para uma ocasião, a princípio, corriqueira e banal, tornando-a subitamente romântica. Clarice, surpreendida, pediria apenas uma bebida e depois iriam juntos para casa cuidar da vida, da maneira que melhor os conviesse.
Há cinco segundos de distância ocorreu-lhe a terceira hipótese. Clarice nem sentara-se à mesa. Não seria de seu costume fazer qualquer tipo de cena que constrangesse a quem quer que fosse, nem ao seu pior inimigo, cujo o ocupante daquela cadeira era o principal candidato a ocupante do cargo. Apenas colocaria sobre a mesa a aliança que outrora ocupava um de seus dedos na mão direita. Seria breve em recomendar-lhe distância, altiva em sugerir-lhe o esquecimento e digna ao dar-lhe a chance de algo dizer, mesmo sabendo que suas palavras egoístas e efêmeras não seriam capazes de alterar em nenhum milímetro o curso dos fatos.  
Clarice por ele passou, sem ao menos perceber-lhe a existência, virou a esquina e sumiu para sempre. Era Clarice, mas poderia ser Isabela, Cristina, Marina, Luísa, Denise, ou qualquer outra criação de sua imaginação fértil, carente de presença física e  inundada de solidão. Restava-lhe o copo, a garrafa, seus músculos tatuados, o time de coração e seu cão que ainda teimava em acompanhá-lo. Por enquanto estava a salvo. Faltava-lhe apenas o que para ele era um mero detalhe.  

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Qualé Malandro?

Toca o sino, abre os olhos, bocejos, preguiça
No banho faz a barba se lava e se atiça
Da ajuda divina abusa, pois cedo madruga
Na padaria com o de sempre servido por ele
O portuga, o portuga
Café com pão e Arcos da Lapa
Jornaleiro dá bom dia
Meu chapa, meu chapa
Tem jornal, tem revista, uma fézinha sem lei
 Boa sorte patrão, que bobo não é
Olha lá, Jacaré
Eu falei, eu falei
Pintou um trocado, olha aí o perigo
Guarda um pouco, faz alegria do amigo
O mendigo, o mendigo
Hojé tem rango, hoje tem cana
Toma até banho,  
tá bacana, tá bacana
Tem frango e farofa
Da Dona Ana, da Dona Ana
Criada na roça, tempero de mão
Sai arroz, sai angú
E o feijão e o feijão
Cozinha pra fora, entrega marmita
serve o jornaleiro, o portuga
e Dona Carmita e Dona Carmita
mãe dedicada, gente da gente
o filho é o orgulho, o pai indigente
nunca fez falta, longe dos olhos
Não se sente, não se sente
Gilberto é feliz do pai não saber
Faz show, canta e dança
Vai crescer, vai crescer
Vai ficar rico, vai ser da fama
Compra casa na praia
Em Araruama em Araruama
Não casa, não pode
É diferente, nem dinheiro acode
Faz festa de arromba
Sacode, sacode
Na rua tropeça no mendigo
Um fede cachaça o outro cerveja
 arromba a porta dos fundos
da igreja, da igreja
invade a sacristia, dos tempos de menino
lá vai o coroinha do padre Celsino
Toca o sino, toca o sino.
 












sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Porão da Escrivaninha






É comum acreditarmos em histórias com finais felizes nos dias de hoje, pois tornaram-se tão banais as suas demonstrações que fugir à regra é em si uma exceção.
Não que finais felizes não tragam algum tipo de conforto ou até alívio para as dúvidas inquietantes da alma, mas o que pode haver de feliz quando o único final que se permite uma certeza inquestionável é o que atende pelo nome de morte? Morte do corpo, da massa de células condensadas, que deixa de estar presente tal qual é reconhecida como viva, por motivos que extrapolam as limitadas linhas que aqui dispomos.
Portanto falar da morte e dizer que nela há felicidade é de um romantismo que beira o irresponsável, quando não apenas inócuo na intenção de trazer esperanças aos que deixarão de estar presentes.
Não pensar no fim e sim no decorrer do viver e, principalmente, não negando a possibilidade inescapável dos percalços e adiamentos foi sempre uma questão de boa sobrevivência para Jayme. Não pensou que o encontro nas escadarias tão aguardado e vivido sob intensa e arrebatadora emoção significaria o fim que representaria a felicidade almejada enfim alcançada. Tinha plena consciência do fato de que começava ali o longo caminho a percorrer e que como antecipava a própria resistência de sua escrivaninha em deixar-lhe ir ao encontro de sua amada, seria uma empreitada para tantas vidas de modo que o que seria alcançado em apenas uma ficaria a dever e muito ao ideário de felicidade, pois longos e numerosos eram os anos já passados, muitas as experiências vividas nas trajetórias de ambos, Jayme e Zélia, que a partir de então em comum haveria apenas as boas e breves lembranças de uma adolescência ordinária, de sonhos inocentes e a presente concomitância de desejos que ainda estava por se constatar, pois nem o mais romântico dos encontros é insuscetível aos maus agouros dos invejosos que lutam insistentemente a sabotar a felicidade alheia.
Enquanto os inocentes desconhecedores das reviravoltas da vida seriam coerentemente céticos e cínicos, os mais vividos e não menos cínicos não ousariam duvidar que Jayme e Zélia não se furtariam a confluir, muito embora tal confluência não ocorresse em tempo determinado e esperado de acordo com os anseios dos leitores de romances juvenis vampirescos, ou dos contistas que fazem da súmula útil ferramenta contra o enorme peso das pálpebras de leitores desconcentrados, desinteressados, efêmeros.
Do dia do encontro até os últimos dias de existência física dos dois amantes poderíamos narrar uma saga, dividida em mais capítulos do que a Ilíada de Homero, com idas e vindas que não se difeririam das vidas conjugais cotidianas, mas que em nenhuma vírgula mal posta ficaria a dever em genuinidade na maneira como dedicavam-se à tarefa de complementarem-se, sem que para isso suprimissem as autenticidades tão caras a ambos, que eram em si a origem e o propósito de se amarem.
Relatar com palavras os pormenores do que foi vivido por Jayme e Zélia indubitavelmente acarretaria na banalização do que de mais puro pode-se conceber por amor, ainda que tal sentimento esteja sob suspeita de ter sido cooptado e subvertido pela mercantilização e sua consequente conversão em produto barato.
Simplesmente, tal amor era como são os diamantes ainda não encontrados, longe de serem lapidados, imunes aos caprichos e normas quando submetidos ao toque humano, puros e desformes em seu estado bruto, de valor inestimável na escala monetária. Assim o era e isto basta para compreender o que se passava naquela casa desde de o despertar, invadindo o adormecer, mesmo nas discordâncias não tão raras, mas pontuais.
Relevante, porém, seria mencionar um ato sutil que ocorreu no evento da vinda de Zélia à casa de Jayme, quando enfim decidiram que lá seria a morada de tantos anos, pois o começo prático da vida a dois requer algumas garantias inevitáveis, sendo o lar o mais emergencial deles, pois ali depositar-se-iam as sensações de conforto, descanso e segurança. Tudo isso estaria sob risco de ruína com a doravante presença indesejável da escrivaninha. Jayme decidiu por dela se desfazer, porém não em caráter irrevogável como as linhas gravadas a peso de pena, pulso e pensamentos.
No porão onde encontravam-se gaiolas inabitadas, sacos de milho, ferramentas enferrujadas e prateleiras lotadas de caixas de sapatos recheadas com tralhas que se não possuíam vida própria, pelo menos assumiam significados diferentes ao seus propósitos primordiais, encontrava-se a escrivaninha posicionada ao canto sem a imponência e destaque de outrora. Era o porão, mas bem que poderia ser o seu jazigo. Em todos os anos naquela casa somente Jayme frequantava o úmido recinto de luz amarelada e tão fraca que por muito pouco não se faria perceber. Jayme não intencionava escondê-la, tanto que o porão nem trancado ficava. A exclusividade de acesso de Jayme era uma decisão soberana de Zélia, que nunca fez menção de descer até lá, pois além da escrivaninha não haveria de ter interesse algum em visitar o passado tão fisicamente representado em poeira e bolor. Zélia olhava somente o porvir, enquanto que a escrivaninha, por mais que ali estivessem contidos os sentimentos consagrados de seu amado, aprisionava-a à literatura como um personagem, mesmo que pertencesse apenas ao mundo particular de seu dono.
 A escrivaninha estaria segura e fadada ao esquecimento eterno, não fosse a curiosidade de Ana, sobrinha de Zélia que frequentemente hospedava-se naquela casa e que em um de seus frequentes rompantes decorrentes de uma incurável ansiedade que provocava-lhe insônia grave, viu-se diante da ranhuras lineares. Sentiu-se como a desvendar um mistério arqueológico, inesperado e de súbito arrebatamento. Pela falta de luz que propiciasse a leitura das linhas cinzeladas na cerejeira, achou uma metade esquecida de vela após alguns minutos de procura às semi-escuras, de pavio tão enrijecido que se quebrou, obrigando-a a cavar a parafina com as unhas até que uma ponta pudesse ser pinçada e acesa. Trazia consigo uma caixa de fósforos, pois era adepta do tabagismo. Aliás, foi este o motivo pelo qual acabou sendo levada a refugiar-se no porão. Havia escapado de dentro de casa para praticar o vício quando uma chuva, que havia começado leve e suportável tornou-se torrencial, não a deixando muitas opções, pois por bom senso haveria de poupar os tios de danos desnecessários à saúde, sobretudo nesta altura da vida em que um sopro tem a força de uma tempestade.  O cigarro porém não escapou ileso à chuva, mas Ana agora estava apenas imbuída de dar à escrivaninha a atenção que era suplicada de seus olhos. Aproximou-se com a vela acesa das ranhuras para que não perdesse uma letra sequer. Na pele dos dedos de Ana sentia-se um toque suave, porém convicto da superfície lírica das ranhaduras. A chama da vela iluminava a escrivaninha e também as lágrimas cada vez mais salientes em seus olhos. Ana era às vezes interrompida pelo intermitente gotejar que incidia sobre os versos, ora da chuva, ora de sua lágrimas, mas não se permitiria deter pelas águas de intempéries climáticas nem do arrebatamento de seus sentidos. 
Não me atrevo e nem se pode narrar com precisão os sentimentos de Ana ao ler a carta perene, pois qualquer descrição estará tão distante do ocorrido quanto notícias de jornal da realidade, nem deverá alguem supor que o simples fato de emocioná-la garantirá a satisfação da expectativa daqueles que neste momento gostariam de estar no lugar dela, ocupando-se exatamente do mesmo ofício. O que se pode fazer como  melhor oferta é dar ao leitor anônimo os exatos olhos de Ana, tal qual eles viam as palavras, a madeira, as águas, a pouca luz e os sentimentos ali empregados pelo autor dos versos, mas que sintam-se descompromissados para sentirem-se como o desejarem.
A carta na madeira:


Recebi sua carta hoje, quando preparava meu espírito para morrer por mais um dia. Percebi que ainda havia tempo e sem hesitar corri para reacender a  minha vida. De suas linhas generosas vinha a sua voz que do último encontro ainda ecoava em meus ouvidos e sua imagem, que exibi por tantos anos sobre esta mesa, sorria com muito mais graça do que de costume. Folhas foram rasgadas, frases desfeitas, pensamentos diluídos em tentativas pouco exitosas de corresponder o quanto antes ao seu chamado e quando a mim restaram somente o desejo, uma  pena seca e esta escrivaninha fiz desta última e penosa tarefa, a oportunidade de eternizar um sentimento indomável para a alma de um ser mortal.
Às escadarias jamais retornei temendo não vê-la. Buscava-te onde sabia que não a encontraria, ao menos assim mantinha-me vivo, mesmo que distante e inalcançável. Antes que perguntes o motivo de tanta loucura ou que em mim  apontes covardia, fi-lo para penitenciar-me, pois sabes muito bem que a deixei esperando por um sinal de que viria ao seu encontro. Esperastes, sei, até que a urgência de viver fosse devidamente atendida. Sendo assim, ver-te feliz, mas não ao meu lado, certamente levar-me-ia às raias da insanidade, possivelmente ao desfecho mais trágico. É sim de minha parte um egoísmo homérico, porém de uma sinceridade inquestionável.
Agora tenho diante de mim o seu chamado, contendo o seu exato paradeiro, que não poderia ser outro senão os nossos degraus, seu desejo de ver-me novamente diante de ti, não como vistes há quase duas décadas, tampouco como deves imaginar, pois não posso gabar-me de ser do tempo um fiel aliado, mas sendo o que nasci para ser e assim morrerei, teu e somente teu.
Estou a caminho e desta vez não haverá desencontros nem covardia. Na hora marcada, o tempo fenecerá diante de um sentimento que sujeito a ele chamam-lhe vulgarmente de amor, porém além de suas amarras, nem mesmo os doutos dos vocábulos foram ainda capazes de significar.
À minha Zélia, aqui imortalizada, jamais esquecida, para sempre amada.
Do teu e somente teu,
                                                                                                                        Jayme


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ora Vejam Eustáquio



Esta é a história de um homem que por aqui esteve e se foi sem jamais ter sido.

Eustáquio era seu nome de batismo. Nunca teve apelidos, pois não havia amigos para afagar-lhe, ou inimigos dispostos a traumatizá-lo.
Nos tempos de escola, o jovem tímido e recolhido ao exílio dos romances clássicos desprezados pelos outros meninos que preferiam a bola, sequer era alvo de maledicências desconfiadas devido ao seu desprezo pelo violento esporte bretão.
O menino por diversas vezes esquecido pela mãe, que deveria buscá-lo na saída da escola às cinco, não parecia se abalar com os frequentes lapsos maternos e aproveitava para se meter entre as prateleiras empoeiradas da pequena, mas bem servida biblioteca.
Sua performance acadêmica digna de grandes louvores não era invejada pelos demais. Tampouco procuravam-no para ajudas desesperadas no fim de ano para as provas finais.
Eustáquio formou-se em administração de empresas e logo fez concurso público, sendo um dos primeiros colocados e prontamente convocado a assumir o seu posto em um banco do governo, de onde só viria a sair na ocasião de sua aposentadoria, quando a função que ocupava foi extinta por obsolecência. Em todos os longos anos como servidor público não foi capaz de fazer nenhuma amizade, nem mesmo para uma cervejinha depois do expediente, haja visto que seu turno era noturno, compensando cheques, fazendo lançamentos e débitos, um a um, manualmente com uma inseparável caneta descartável que reutilizava trocando-lhe o refil. Tarefa esta, diga-se de passagem, absolutamente metódica e compulsiva, pois comprava outras canetas descartáveis da mesma marca e modelo, retirava-lhes a carga, substituía pela terminada e desfazia-se do resto.
Viveu com os pais até que morressem e estabeleceu uma viuvez preventiva, repleta de ritos e manias que certamente inviabilizariam qualquer relação conjugal. Sua companhia era Eurico, herança dos pais que acharam o pequeno vira-latas em uma excursão para pessoas da terceira idade para Águas de Lindoia, na qual Eustáquio fez-se presente na ida, porém seu retorno somente se deu dois dias após o dos pais, pois seu nome não constava na lista de passageiros.
Eurico, criado com todas as regalias de filho caçula não abanava-lhe o rabo quando chegava do trabalho, nem mesmo deitava aos seus pés. Até latia como se fosse para um estranho. Era arredio aos carinhos de Eustáquio, sendo que por vezes até rosnava, chegando a morder a mesma mão que o alimentava invariavelmente duas vezes por dia, às dez da manhã e quatro da tarde, quando enfim poderia desfrutar de sua privacidade, pois a esta hora o suposto dono saía para trabalhar.
As folgas no banco eram sempre às sextas e sábados, quando aproveitava para praticar seu passatempo favorito, o xadrez. Jogava no clube de xadrez perto de sua casa e sempre contra o mesmo adversário, Eurípedes, que apenas trocava um boa noite automático com Eustáquio, disparava o relógio e os dois punham-se a fazer movimentos rápidos, como se já tivessem ensaiado todo o roteiro do jogo e estivessem ali apenas a cumprir a mera formalidade de mover as peças. Eurípedes sempre vencia e celebrava seus triunfos com uma risada contida, em boca fechada, com o sarcasmo dos que tripudiam sobre o cadáver do inimigo. Abanava a cabeça em agradecimento, desejava boa noite ao derrotado, levantava-se e desaparecia. Até que um dia, Eurípedes não compareceu ao sagrado compromisso. Era de causar estranheza que abrisse mão de mais um triunfo certo, mas as semanas seguintes não foram diferentes. Aquele que havia chegado mais perto do que se poderia dizer amigo de Eustáquio, que trocara mais palavras e acenos com ele do que qualquer outra pessoa, abdicava do posto de seu único e maior algoz. Teria Eurípedes se cansado das vitórias garantidas e procurado um adversário mais digno? Teria ele mudado de clube, cidade ou país? Teria se mudado para a Europa? Morrido?
Por semanas, Eustáquio esperou pelo implacável companheiro na mesma mesa, no mesmo horário. Começou a considerar a hipótese de alguem se comover com sua obstinada e disciplinada teimosia e vir dizer-lhe o paradeiro de Eurípedes, ou até mesmo oferecer-se para substituir o titular, mas nada aconteceu.  Tentou jogar sozinho, mas as peças brancas com as quais sempre jogava eram covardemente derrotadas pelas pretas. Sentindo-se humilhado, auto-flajelado, abandonou o xadrez.
Sua rotina continuava intocável e cumprida à risca, com exceção da substituição do hábito do xadrez por cartas de amor. Escrevia para remetente nenhum. Criava diversos personagens. Corajosos, apaixonados e apaixonantes, comprometidos com a única tarefa de fazer feliz a pessoa amada, mesmo que lhes custasse a vida. Curiosamente, todos os personagens chamavam-se Eusébio. Ora príncipe, ora atleta, às vezes multimilionário do petróleo, era capaz de amar com a intensidade de trombas d´água que se tornavam gotas de orvalho na imensidão do oceano, entre outros clichês patéticos. Eustáquio dava vida a Eusébios mil que suplicavam-lhe liberdade para ganhar o mundo, mas o criador tinha planos menos ambiciosos para as criaturas. Percebeu após décadas que tinha uma vizinha, Eulália, que era solteira e tinha uma cadelinha chamada Eunice.
Já se aproximava de sua aposentadoria, mas todos os dias ao sair para o trabalho colocava uma de suas cartas na caixa de correspondências de Eulália. Mesmo depois de aposentado, não abandonou o ritual de sair de casa sempre à mesma hora só para que se obrigasse a deixar lá na caixa de Eulália mais uma das tantas centenas de histórias, flertes e súplicas de amor de inúmeros Eusébios.
Um dia, ao sair para cumprir com seus rituais, foi acometido de um lapso momentâneo e incomum, deixando o portão aberto. Eunice, exalava o cio, Eurico respondeu ao chamado. Fugiu. Justamente no dia em que Eulália, cansada da perseguição intermitente de Eusébio, preparava sua mudança para outro lugar, bem distante dalí. Ao ver Eunice e Eurico juntos, comoveu-se e decidiu levar os dois consigo. Partiu antes que Eustáquio retornasse, deixando sacos e mais sacos de entulho e rigorosamente todas as cartas de Eusébio em sacos pretos.
Ao chegar em casa, Eustáquio viu a placa que anunciava a disponibilidade de aluguel no muro de sua vizinha. Inconformado com a ausência de Eurípedes, agora também deixavam-no Eulália, Eunice e Eurico. E para piorar os fatos, havia o retorno insuportável de todos os seus Eusébios, descobertos após um arroubo de curiosidade que o levou a abrir cada um dos sacos empilhados na calçada. Descobriu que apenas três envelopes haviam sido abertos, os primeiros que havia deixado para Eulália.Todos os outros encontravam-se tão lacrados como no dia em que foram escritos e entregues.
Entrou em casa, pegou a caneta descartável, recarregada de estimação e pôs-se a redigir o seu testamento, em que deixava tudo o que possuía, que não era assim tão modesto, para Eurico, numa vã esperança de que o animal sentiria sua falta e acharia o caminho de volta para casa.
Foi ao supermercado, pegou uma garrafa de vodka e foi andando em direção ao caixa. Parou. Pensou e calculou que uma garrafa não seria suficiente para compensar por todos os porres que nunca havia tomado em toda sua existência. Voltou. Apanhou mais uma garrafa e novamente seguiu em direção ao caixa. Entrou na fila. Na sua vez o caixa fechou. Mudou de fila. O cliente da frente deixou cair um pacote de biscoitos. Eustáquio prontamente abaixou-se para pega-lo. Ao levantar-se, percebeu que havia perdido duas posições na fila para dois jovens que ignoraram por completo sua reclamação. Tentou ao menos entregar o pacote ao cliente que o deixara cair. Este fez que não ouviu. Olhou à sua volta e todos os caixas tinham filas imensas. Decidiu que não pagaria e foi andando em direção à saída. Havia um guarda em posição de vigília ao lado da porta do estabelecimento. Temeu, mas seguiu em frente, passando pelo guarda e já esperando que o alarme soasse e todos viessem a perseguí-lo pelas ruas. Gritariam pega ladrão, haveria tiroteio, seria baleado, socorrido de helicóptero, mas morreria como o anti-herói, carregado nos braços do povo em seu funeral. O alarme não soou. Ninguem o perseguiu. Olhou para trás para certificar-se que era caçado e não viu mais do que senhoras carregando suas sacolas de compras e crianças a deliciarem-se com seus sacos de balas.
Ao chegar à sua rua já havia bebido uma garrafa e meia. Parou em frente à antiga casa de Eulália e pronunciou no idioma Embriaguêz:
– Eulália minha vida. Eulália minhas cartas. Eulália...Eustáquio...Eusébio dos infernos!
Numa última e única golada terminou com a segunda garrafa e caiu sobre os sacos pretos que continham suas cartas. Misturava-se a eles com seu terno preto, seu uniforme desde sempre. Alí ficou por toda a madrugada. Pela manhã, Eurico que encontrara o caminho de volta, cheirou Eustáquio, levantou a pata traseira e mijou em sua cabeça. Eurico entrou em casa. Eustáquio abriu um dos olhos e retornou ao coma.
O caminhão de lixo parou em frente à antiga casa de Eulália. Os coletores pegavam os sacos e os arremessavam na caçamba. Fizeram o mesmo com Eustáquio. Na caçamba ele era chacoalhado, misturado, difundido e levado para o aterro, vulgo lixão.
Lá foi depositado, empilhado, coberto por sacos fétidos, alimentos podres, fraldas imundas, entre outras coisas inomináveis, inclusive as cartas de amor de Eusébio. Descoberto pelos recicladores, teve suas roupas arrancadas e disputadas a tapas, porém o resto ficou lá, completamente descoberto, indubtavelmente nú. Os urubús, que compartilhavam com os ratos os restos mais podres que poderiam haver naquele aglomerado, pousavam sobre os membros de Eustáquio e bicavam apenas o que encontravam de podre em volta dele. Depois de limparem o entorno de Eustáquio, voaram e foram atrás de um novo despejo que acabara de chegar. Porém um velho urubú-rei, manco, de asa quebrada e cego chegou atrasado até Eustáquio. Seu olfato já cansado não permitia-lhe mais distinguir entre fresco e podre. Bicou a bocheha de Eustáquio, que assutou-se, mas não tinha força nenhuma, muito menos motivação para reagir. A segunda bicada foi na outra bochecha  e não parou mais. Eustáquio parecia sorrir. Aparentava uma felicidade que jamais experimentara. Sentia sua alma encher de vida ao passo que sua carne era lentamente devorada. Sentia tanto prazer que esboçou uma tímida ereção logo abortada pelo velho, cego e insaciável urubú.
Após fartar-se, a ave cambaleante deixava para trás a carcaça finda quase que por completo, rodeada de vários Eusébios banhados com o sangue fresco de Eustáquio. O banquete fora digno das mesas de grandes reis, mas agora a gula cobrava-lhe o ônus de uma digestão impossível.
Vencido, enfim, por uma terrível congestão, o caquético urubú-rei, desprovido de qualquer majestade, caiu e subitmamente morreu sem que ao menos pudesse dar ao seu intestino a mínima chance de digerir Eustáquio. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Além da escrivaninha

                                                        (Obra do artista plástico Zirley Ávila)



Ao longe cantou Crioulo, o galo de estimação e dono do quintal, quase despertando Jayme de um sono inebriante que parecia não ter mais fim.     
Na verdade, desejou que o canto fosse apenas uma breve consciência do que estava a sonhar e assim permitiria-se mais uns minutos de um merecido repouso. Mas Crioulo desta vez bradou aos quatro ventos, como se chamasse seu nome.
Jayme acordou.
Nas doze horas, ou talvez doze meses, que ficara desacordado, as palavras que se encontravam agora eternamente gravadas na cerejeira pareciam ter-lhe penetrado os poros dos braços cruzados que repousavam na escrivaninha, sob a cabeça adormecida para o mundo cronológico e viva para a dimensão dos delírios poéticos.
Ergueu-se da cadeira com algum desconforto, inclinando o corpo sobre a escrivaninha, para observar o céu noturno e cinzento, as galinhas que já buscavam seu refúgio no pé de figo e Crioulo, que observava imponente do alto de seu galho a movimentação em seu quintal.
Tornou a sentar vagarosamente e observou as ranhuras feitas no clímax de um arroubo que o levara à exaustão.
Leu e releu diversas vezes. Quando suas retinas não mais se deixavam enganar por cortes acidentais, fechou os olhos e com a ponta dos dedos perdia-se em êxtase com as curvas, os pontos, os verbos, as diferentes profundidades dos sentimentos ali descritos sobre ela, Zélia.
Assim ficou por mais algumas horas e teria ficado muito mais, não fosse uma lasca minúscula e pontiaguda espetar-lhe o dedo indicador da mão direita, interrompendo abruptamente seu transe.
Mas, por mais devoto que fosse de sua obra, sabia que Zélia ali, não se encontraria. Olhava a escrivaninha e seus olhos sorriam. Lembrava de Zélia e seu peito explodia. Pensava em sair e suas pernas tremiam.
Levantou-se, fechou a janela e tentou se virar, mas seu pé ficou preso entre a cadeira e o pé da mesa. Afastou a cadeira com o calcanhar, procurou pelo relógio e lembrou-se que o havia deixado na gaveta. Ao achar o relógio viu que marcava oito horas e trinta e dois minutos da noite anterior e nenhum segundo a mais. Deu corda, mas o velho relógio não reagiu. Jogou-o de volta na gaveta e ao fechá-la prendeu o dedo indicador da mão esquerda. Em um gesto de rara revolta chutou a gaveta, mas de pronto arrependeu-se e trêmulo ajoelhou-se perante ao móvel como se suplicasse seu perdão.
Abraçou-a e quando preparava para deixá-la, um prego solto fisgou-lhe a manga esquerda de sua camisa, causando-lhe um rasgo, porém desta vez não houve desarmonia. Desatou calmamente a manga do prego, virou-se e não mais olhou para trás.
Ao chegar na porta da rua ouviu um estrondo vindo da sala da escrivaninha. Hesitou em voltar, todavia não conteve o impulso e ao chegar à sala encontrou a cortina esvoaçante como se fossem braços estendidos em súplicas, a janela escancarada pelo vento, que uivava lamentos e molhava a superfície da escrivaninha.
Jayme caminhou calmamente até a janela e cerrou-a convincentemente. As cortinas sossegaram conformadas. Já a escrivaninha por fim absorveria as muitas gotas d´agua ali trazidas pelo vento, como se engolisse as lágrimas de uma separação inevitável.   
Jayme finalmente partia ao encontro de Zélia. Não estava muito seguro de que ainda a encontraria como e onde ela disse que o esperaria. Ela havia sido clara em sua carta quando se referiu à hora que o estaria esperando. Oito e meia. Na escadaria da igreja, onde encontravam-se quando os sonhos significavam muito mais do que planos. Quando cada minuto equivalia à uma vida. Quando o único tempo que realmente importava era aquele agora, sem amanhã.  
Alcançou a esquina no pé da ladeira da igreja, mas não a contornou. Seria como cruzar uma fronteira de um país estranho sem direito a retornar à pátria. Se olhasse e não a visse, demoraria o tempo que fosse necessário para conseguir voltar pra casa e encarar a escrivaninha. Se não olhasse jamais saberia. De qualquer forma, só lhe restaria uma escrivaninha rabiscada com memórias e dedicatórias que assombrariam seus pensamentos enquanto vivesse.
Sem alternativa lançou-se à rua e ao virar o rosto, avistou-a no sétimo degrau, bem ao meio da escadaria, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos sustentando seu queixo. Ela sorriu o mais lindo de todos os sorrisos que uma boca ousaria oferecer.
Jayme sentou-se ao lado de Zélia. Zélia reclamou do atraso de Jayme. Dois minutos de pura inexatidão, segundo o relógio de Zélia.
Ali conversaram por horas, dias, semanas e meses sem abdicarem do agora. Falaram da vida, das palavras, dos hiatos, dos medos e, claro, dos sonhos.
Esticavam os braços e pinçavam as nuvens que por ali passavam, comendo-as acreditando ser algodão doce. Desvelaram o sol, recitaram poemas, assobiaram canções, deram-se as mãos.
Beijaram-se.
Amor tão imenso que não cabia na palavra amor. E tão eterno que o tempo parou em sinal de respeito.