segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Cheiro de Mato, Terra Molhada



Foi a mim confidenciado que Dona Dodô chegou ao infinito e a primeira coisa que tratou de fazer foi reunir por lá todos os Portelenses e organizar um desfile celestial.

Tinha como objetivo mostrar aos habitantes do além como sua presença majestosa era capaz de unir sob o mesmo manto ilustres e anônimos e fazê-los jorrar como uma fonte de água pura que se transforma em rio que ganha corpo e quando vira correnteza se mistura à fúria dos oceanos mais revoltosos a ponto de não sabermos mais distinguir a água doce da água salgada.

Os santos e Orixás impressionados com aquela demonstração de força e beleza não puderam se conter, deram suas bençãos e foram além, ergueram aos olhos de todos que ali se faziam presentes nossos queridos Paulo, Caetano e Rufino, que flutuavam num bailar magistral como águias que ensinam seus filhos a voar.

O céu ficou pequeno e resolveram que deveriam juntar-se aos filhos da terra, que por aqui, preparavam-se para pisar na avenida e mostrar o que significa desfilar sob o Azul e Branco de um pavilhão repleto de glórias e história. E com a benção de Iansã e Oxóssi fizeram-se água, trovoada e imbuíram-se do espírito de caçador, de guerreiros.

Quando a Portela passou pela avenida no ensaio para o carnaval, alguns chegaram até a acreditar que fosse apenas chuva que caía sobre a escola. Mas o Portelense sabe o que era. Sempre soube. Clara, Candeia e Dodô jamais faltaram à Portela. E nunca faltarão.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Lá vem o Didi Camelo




- Vai dormir menino, senão o Didi Camelo vai te pegar.
Dizia vovó quando saía de seu quarto no meio da madrugada para beber água e se deparava com a luminosidade azulada da velha Telefunken, estrela da sala, onde montava meu acampamento de férias no sofá marrom de listras laranja.
- Já vou vó, tô só acabando de ver esse filme.
            Geralmente isso era verdade. Assim como o temor com a possibilidade da vinda indesejável do Aranha, mais conhecido como Didi Camelo. Para mim e meus irmãos que morávamos na cidade grande, tais lendas deveriam ser encaradas como coisas da roça, interiorices descabidas para amendrontar crianças e forçá-las a submeterem-se ao regime dos mais idosos. Acontece que meus avós maternos nunca foram disciplinadores, tampouco faziam questão de regras que não despertasse em nós o desejo de retornar nas férias seguintes. Minha avó já era obrigada a privar-se de nossas aventuras em seu quintal por muitos meses, o que nos levava a crer que invocar o Didi Camelo era muito mais uma questão de manter a lenda viva do que causar-nos qualquer medo. Mesmo que de alguma cautela beirando o receio acometer-me-ia.
            Sol raiava, galo cantava, hora de ir à padaria portando a caderneta rosa onde a opulenta proprietária do estabelecimento faria as anotações de seis pães, um litro de leite no saquinho e um sonho não requisitado por minha avó, mas que de tão garantido, o mimo não seria motivo de reprimenda. No caminho encontrava o Rafa, o Edmar, o Romário, o Serginho, o Wander, Tatú, o Renatinho, Sirley e seus irmãos gêmeos Sidnei e Sidclei, mais conhecidos como Capetinhas. Hélison era o filho da vizinha que me acompanhava pela rua até a padaria e auxiliava-me, ou vice-versa, com a tarefa de convocar os supracitados fabulosos praticantes da pelada de rua, esporte oriundo do futebol, praticado na terra batida com cacos de vidros escondidos como em um campo minado, à espera das pontas de nossos dedões e algumas unhas que invariavelmente ficavam pelo caminho. Acredito hoje que daí origina-se a famigerada expressão “dar o sangue”, usada tão hipocritamente pelos atuais praticantes do esporte bretão.
            Café da manhã tomado, ganhávamos a rua e preparávamos as traves de pedra ou sandálias de borracha vestidas nas pedras, para que logo em seguida tirássemos o zero-ou-um e déssemos início às escolhas dos craques. Nem sempre a formação inicial seria a mesma no decorrer do dia.
Eram raros os motivos pelos quais, uma pelada deveria ser interrompida. Além das eventuais passagens de automóveis em pleno meio de campo, só parávamos para beber água, almoçar, comprar pipoca, que aliás nos mobilizava com certa antecedência, pois ao ouvirmos a buzina do pipoqueiro ao longe, corríamos para casa a fim de levantar os recursos necessários em tempo hábil, já que ele com a obrigação de cobrir todo o território do bairro, não poderia deter-se tanto apenas naquele acanhado estádio improvisado. Os outros dois motivos pelos quais parávamos eram a total falta de iluminação artificial adequada para a prática da pelada ao cair da noite e a visita do Didi Camelo, advindo sempre do bar do Zé Guarda, anunciado pelo forte odor etílico e a inconfundível silhueta da cabeça enterrada no pescoço e os braços levantados como os de um caubói que portasse duas pistolas, uma de cada lado da cintura, as pernas flexionadas e envergadas como alicates e a coluna em forma de ponto de interrogação. Disse silhueta, pois Didi era um senhor de idade, muita aliás, negro com um bigode branco, barba rala e os olhos sempre arregalados. Estes detalhes só eram  percebidos quando aproximava-se de nós a ponto de acertar uns safanões em resposta às provocações de moleques que se divertiam com o andar que lembrava uma aranha. Chamávamos de Aranha e ele se irritava. Armava os braços e cantava – Na Bahia tem, capoeira zum zum zum, zum zum zum zum zum zum, capoeira mata um – dava um chute no ar que mal passava de três centimetros do chão e quase caía.
            A Lenda do Didi Camelo, depois de um certo tempo perdeu força e precisaram piorá-la ou redimensioná-la. Didi Camelo virou Lobisomem. Pessoas juravam tê-lo visto transformar-se na fera e correr atrás daqueles que ousavam andar pelas ruas escuras do bairro às altas horas da madrugada.
Certo dia, Didi foi encontrado caído em uma sarjeta mal acabada, pelas ruas negligenciadas, despido de dignidade, roubado de seu respeito e desprovido de vida. Apesar de constantemente desomenajeado pelas crianças que repetiam as lendas infundadas e carregadas de incompreensão de seus pais e avós.
Alguns anos mais tarde, ouvi pela primeira vez Bahia de Todos os Deuses, samba enredo do Salgueiro do ano de 1969. Didi Camelo nos enfrentava com esse samba. Lutava contra o mal munido de arte, com uma invocação aos Deuses e à capoeira.
Dia desses disse à minha vó que ela estava certa. Sempre que escuto a obra de arte do Salgueiro, Didi Camelo vem me visitar com os deuses da Bahia. Vem com zum zum zum, Preto Velho Benidito e a Nega Baiana. Com seus olhos brilhando e o coração palpitando de tanta felicidade. Epa Babá Vovô Didi Camelo!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Viver de Barros



Hoje os passarinhos não cantaram em azul
O mundo deixou de rastejar sob o peito da lesma
Os sapos cansaram de engolir vento e dormiram-se de pedra
Não houve balé de vento no horizonte regurgitado de sol de lata
Uma gralha desligou a máquina de esticar o mundo
E para não mosquitar os rios, os peixes se vestiram de chafariz e sopraram silêncio nas minhocas de um pescador de borboletas
Quem me dera ser o barro de parir palavra
Quem dera a palavra digna de ser ave tornar-se relógio com um ponteiro de fabricar infinito
Para sentar-me num galho de sol e assistir a vida virar Manoel.  

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sou Carioca, sou de Madureira

                                                          ( Foto: J. Ricardo)


Renascer das cinzas talvez seja das tarefas, a mais difícil.
Sobretudo quando o passado de tão glorioso, inebria-nos a alma da mesma forma que paralisa nossos corpos, cegando-nos para qualquer espelho alheio ao de nosso armário. Isso nos torna de uma maneira tão herméticos que construímos um casulo até o ponto de decidirmos viver apenas para conservá-lo, apostando numa existência mínima e confortável.
Chega um dia em que as nossas asas crescem, mesmo estando aprisionados em nosso casulo, ou ovo se preferirem. O casulo se rompe e não há mais como retornar. A única alternativa é voar.
Não se trata de borboletas, tão belas quanto frágeis. Não são pássaros quaisquer. São águias. E águias não suportam a clausura. Seu destino é voar acima de todos, enxergar à frente, ser soberana. Mas se não caçar todos os dias, fenecerá. Se não cuidar do ninho extinguir-se-á.
Não há a pretensão aqui de se apregoar uma receita que ajude aos carentes de inspiração.
Este é um relato de um momento no qual o ovo que se quebrava, revelava não um filhote despenado, sem jeito e dependente, mas uma fênix altaneira, imbatível e faminta.
Do que se trata a Portela? Se eu fosse um estrangeiro no ninho da águia, esta pergunta não sairia da minha cabeça até que eu obtivesse a resposta que saciasse a minha reles curiosidade. Acontece que não sou estrangeiro. E sendo nativo, a resposta deveria saber. E agora tenho a certeza indelével de não saber.
Preciso pontuar a temporalidade de meu relato, pois de lindas histórias nosso livro não dá conta.
Final da escolha do samba que representaria a Portela no ano de 2015. O enredo era em si familiar ao Portelense no que diz respeito à sua paisagem. A linguagem, esta sim, uma novidade agradável e desafiadora. Em nossa pauta, a surrealidade de uma cidade de quatrocentos e cinquenta anos.
Em minha cabeça já havia raciocinado, ponderado, calculado e até metrificado a qualidade de uma das obras e não tinha a menor das dúvidas de que a escolha seguiria seu curso lógico. Acreditava que seria escolhida uma aula de surrealismo, com a técnica impecavelmente empregada, minuciosamente respeitada, digna de contemplação dos mestres da arte citada.
Eis que o ovo se quebra.
Encontrava-me num piso superior da quadra, o que me dava uma visão privilegiada dos entornos. Era uma sensação de enxergar como águia.
Dali eu via meus irmãos de camisa e co-irmãos vindos de perto e de muito longe. Mangueira, Império Serrano, Salgueiro, Vai Vai, Nenê de Vila Matilde, Dragões da Real, e o mar azul e branco de apaixonados Portelenses.
Antes que a segunda apresentação começasse oficialmente, o entoar do hino já dominava os quatro cantos da quadra e dali em diante o que se viu foi o vôo da águia que viajava cada vez mais alto até que transcendeu e pairou sobre o mundo dos sentidos tal qual o percebemos.
Não se tratava de uma aula de surrealismo, mas sim o surreal acontencendo de forma atemporal, inesquecível, inquestionável.
Uma obra surreal só o é se todas as partes estiverem presentes e os seus efeitos se realizam. Ali havia, o símbolo, o belo, a estranhamento, o inusitado, o arrebatamento e a sublimação.
A anfitriã parecia se alimentar da alma dos seus filhos e convidados e retribuía em forma de comoção, gerando uma catarse capaz de fazer surtar de loucura o próprio Salvador Dali. Os jurados apenas ratificaram uma escolha tomada no chão da quadra. O que pode vir a acontecer quando estivermos sob o julgo de olhares estranhos, que por tantas vezes olha, mas não vê.
A Portela emocionou e transbordou, literalmente pelas ruas de Oswaldo Cruz e Madureira, quando um sol alaranjado iluminava as almas lavadas dos devotos do samba, que naquele momento não tinham bandeiras. Encarnavam o samba em estado bruto, era a vida em seu plano surreal. Sentiam-se campeões.
Com todo o respeito que um artista campeão como Paulo Barros merece, tomarei a liberdade de responder à pergunta - enredo de sua agremiação, a não menos campeã Mocidade Independente de Padre Miguel: Se o mundo acabasse e só lhe restasse um dia, o que você faria?
Sem dúvida alguma, eu iria pra Portela. Para ver o mundo renascer pelos olhos da águia.



domingo, 1 de junho de 2014

Conto do Pé de Coité


Cadê a cuia de cumê
Cuia cum nome de cada um
Catamo lá fora no pé de Coité
Papai plantô mamãe molhô
Cumemo feijão cum farinha
Broa de milho e bebemo café
Café na caneca pra num deixá chêro
Senão volta lá fora e pega fruta no pé
Corta no meio põe pra secá
Talha nome na faca esquentada no fogo
Chama de cabaça de cuia de cuité até
Só num chamamo de prato porque é raso e a cuia é funda
Bebemo sopa e asveiz num tem muita
Coitado do coité que também é cuité
As criança não cansa de subir no pé
Nem cum chuva dão sossego
Nem cum sol querem descê
Do cuiero véio que num pára de vivê
Pra brincá na terra e depois entrá
Pra tomá banho de cuia e depois cumê
Na cuia de coité que é cabaça e cuité até.