terça-feira, 18 de março de 2014

Minha Doce Majestade





Andando pela rua, assoviava umas notas despretensiosas de um samba muito antigo.
Era uma melodia feliz, enredada por melancolia de cor azul e uma nostalgia de fundo branco.
Um passarinho pousou em meu ombro e soprou – És poeta? – Ora, claro que não – respondi com tom de surpresa. Ele insistiu – então és compositor? – parecia zombar de mim – Claro que não, por que perguntas?
Tão linda melodia – disse ele – tem raíz forte, cheiro de escura madeira, poesia repleta de luz. Beleza assim só ouvi em Madureira e Oswaldo Cruz.
Alegrei-me e arrisquei mais algumas notas. Seguíamos os dois a cantarolar em assovio, ele em meu ombro, eu sob seus frágeis pés. Outros dois também pousaram e juntaram-se à cantoria. Éramos agora, um desfile, um cordão, uma alegoria.
E o samba saía de nossas bocas, doce como mangas suculentas que toda criança quer. Como aqueles cantados no quintal de Dona Esther. Os acordes eram de gosto fino, desenhados no grafite suburbano e defendidos em voz altaneira. Como faziam Rufino, Caetano e Paulo Benjamim de Oliveira.
Era uma calçada de um bairro comum e era nossa passarela. Não assoviávamos para o rei, para o cacique, nem para juíz algum. Celebrávamos o samba, no cair da tarde, brindando à noite bela.
O sol nasceu e dos meus amigos me despedi. Voaram os passarinhos de volta a seus ninhos, mas prometendo sempre voltar. Tão logo falemos de alegria, tão emocionados nos pusermos a cantar.
E eu que sonhei acordado, agora fecho meus olhos para enfim repousar. Pois como já dizia o poeta, se eu for falar da Portela, hoje não vou terminar.  
   

segunda-feira, 10 de março de 2014

Amizadear



Em volta de um garrafa, uns copos
Sob os copos e a garrafa, uma mesa
Em volta da mesa, umas cadeiras
Sobre as cadeiras, uns amigos
Entre os amigos, conversas
Entre uma conversa e outra, risos
Após os risos, brindes
Entre um brinde e outro, goles
Antes dos goles, reflexões
Nas reflexões, idéias
Com as idéias, desejos
Através dos desejos, sentimentos
Dentro dos sentimentos, os amigos
Antes de amigos, irmãos
Por irmãos, uma opção
Por opção, uma companhia
Na companhia, o conforto
Na ausência, reticências
E reticências além do fim...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Olha quem mexeu no queijo





                                      (Segunda Classe - Tarsila do Amaral)
  
Se você tem o desejo legítimo de saber quem mexeu no seu queijo saiba que foram os que estavam lá meio da pastagem tocando a boiada, ordenhando as vacas, perseguindo  bezerro desgarrado, cozinhando um punhadinho de feijão com carne de sol como única refeição do dia, buscando água com lata na cabeça a léguas de distância, coalhando o leite, arando a terra seca molhada apenas com lágrimas de dor e esperança, vendendo a produção para as cooperativas e recebendo um quinto do valor de seu esforço quando muito, caminhando de pé no chão para alcançar a sala de aula mais próxima, esperando o dia que um doutor venha fazer o que dele se espera, doutorar e enquanto esperam, seguem embalando o queijo, carregando as caixas até o caminhão, transportando-o para a venda, mercado, super, hiper, megamercado, repondo o estoque, fatiando, pesando, reembalando, etiquetando, registrando, dando o troco, servindo à sua senhoria, limpando os restos, pegando o ônibus, o trem, às vezes o metrô, subindo e descendo escadarias, invisíveis aos seus olhos, anos luz de seus pensamentos, inexistentes em  seu coração, desejando uma vida melhor, desejando não uma mesa transbordante, mas um pedaço legítimo do queijo ausente em outras épocas que agora recheia o pãozinho fresco de quem tem tanto direito ao queijo quanto qualquer um, inclusive você. Afinal de contas, quem disse que o queijo seria sempre só seu?


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Respeitável Público




A primeira olhada no espelho nas primeiras horas da manhã causaram-lhe um espanto medonho.
Tentou lembrar-se de como havia chegado ali a despeito da certeza indisputável de que por vontade própria não haveria de ter sido.
Suas mãos não obedeciam a nenhum esforço voluntário como se estivesse num daqueles sonhos nos quais há plena consciência e nenhuma autonomia.
A torneira foi aberta pela mão direita que aliando-se à esquerda enconchavam-se e inundavam-se, golpeando seu rosto em catapultadas geladas e úmidas. Três foram as demonstrações de realidade que lavariam o mais fino resquício de dúvida.
Lutou, mas seus gestos descoordenados produziam um emaranhado com os fios, que agora percebidos, saíam de suas mãos, pés e cabeça.
Foi vestido, pintado e conduzido à arena onde a platéia se aglomerava, comia pipoca, hambúrguer, quebra-queixo e tomava refrigerante.
Saudado com aplausos e assovios, tropeçava nos sapatos, pisava em baldes vazios, ganhava cadeiradas na cabeça e tapas na cara para delírio da arquibancada.
 Suas piadas eram contadas por vozes alheias que evidenciavam que no lugar de seus lábios havia um sorriso falso permanente como um adesivo que o emudecia.
Quanto mais lutava, mais aplausos, gargalhadas e assovios. Mais pipoca, hambúrguer, quebra-queixo e refrigerante. Mais baldes, cadeiradas na cabeça e tapas na cara.
Mas a língua ainda era sua. Mordeu e engoliu.
Perdeu a graça.
Foi substituído.
O novo número foi anunciado e o espetáculo seguiu seu curso.
Daqui de cima, na redação, tinha-se a visão risível e grotesca do emaranhado de fios sobre o brinquedo patético e descartável, que estirado em forma de estrela, embebedava-se de céu.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Verbociclo





O verbo que habita a sua boca não é meu, não é seu, não tem dono.

Acaricia a língua, repercute nos dentes e ecoa nos ouvidos.

Seduz, convence, responde, pergunta, mas não é seu.

Você disse que sabe, mas não sabe que ao dizer disse a voz de um bufão, de um rei, do senhor, do barão.

Repete, confirma, ilude, confunde, gagueja, não pensa.

Pensa que força é permissão para violentar.

É violentado, defenestrado, destituído, anulado de suas próprias bandeiras.

Traduz, produz, conduz ao caos.

Procura, responde, erra, insiste, rejeita, reprova e repete tudo outra vez e outra e outra.

Conclui, resolve, decide, revela, ignora, suicida.

O verbo migra para outra boca e segue sua sanha de poder ser poder.

Não para, não cessa, não finda. Circula, engana, trai, assassina.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cobra Criada




Sapatos pretos ingleses sobre a mesa de seu gabinete.
Televisão ligada na emissora parceira, plantão de notícias.
Multidão dirigindo-se ao palácio, greve geral, apitos, faixas e camisas.
Lembra-se da Tia Verônica. Ela pegou sua mão e o levou à mesa onde outros três colegas já se ocupavam com giz de cêra e lixa. Limpou as lágrimas e pôs-se a desenhar.
Pensou em Tia Rita e as intermináveis aulas de tabuada. Responda rápido ou sairá por último. Essa era a regra. Veja só, até Mariana saiu antes de ti, menino.
De Dona Carmem herdou o dogma, aqui é estudo, família é educação.
Educação de família que outrora ocupava o mesmo banco, na mesma sala com a mesma Dona Carmem. De geração em geração, perpetua-se a lição.
Como esquecer de Tia Simone, o primeiro fetiche. A primeira mulher, mesmo que à distância, mesmo que em pensamento, mesmo que solitariamente. Era sua, de mais ninguém.
Odiava História, mas amava Teresa. Não havia Química que o fizesse odiar Odair. Muito menos seriam as leis da Física capazes de interferir em sua amizade extra-acadêmica com Euclides.
O melhor de todos os esportistas de sua geração, algoz de Nilton, em qualquer modalidade proposta.
Deveras condecorado, saudado, exemplificado, contado e cantado.
O número um. O nota dez. O nata da nata.
O volume da televisão encoberto pelos apitos, gritos, cantos ao vivo do lado de fora.
Greve, aumento, dignidade, respeito, mas nada de poder, nada de autonomia, nada de tudo que lhes pertença ou caiba de fato.
 Sapatos pretos ingleses sobre a mesa, telefone na mão, polícia na rua, porrada na multidão, sorriso no rosto, olho no diploma na parede.
Sorriso no rosto.