quinta-feira, 1 de julho de 2010

A vida é só um detalhe

Era no apartamento setenta e dois que morava o senhor Benevides, viúvo há pelo menos dez anos e tido por todos como um mistério insolúvel, pois após a morte de sua amada Judite, nunca mais pusera o nariz para fora de casa. Jamais atendia ao telefone, que tocava insistentemente, várias vezes por dia, irritando aos vizinhos que até cogitavam reclamar, mas achavam por bem respeitar o desejo de solidão do pobre viúvo. Suas refeições eram entregues por uma pensão, que atendia também outros apartamentos, mas no caso do senhor Benevides a entrega era feita pelo pequeno elevador manual, com o qual içava os potes de comida e também efetuava o pagamento com exatidão, centavo a centavo. Sebastião, o entregador de marmitas, afirmava que às vezes era possível ver as mãos do senhor Benevides, mas eram apenas relances que não possibilitavam uma análise mais meticulosa. Eram apenas mãos, mas o misterioso viúvo e sua reclusão atiçavam o imaginário dos condôminos, que passavam o tempo a bolar maneiras de conseguir qualquer tipo de registro do velho que certificasse sua existência, como fotografias (praticamente impossíveis, pois ele nunca se mostrava), gravações feitas ao rodapé da porta de seu apartamento (tentativas inócuas, pois a porta era completamente vedada) e até uma micro-câmera tentaram infiltrar pela janela, porém as cortinas estavam sempre cerradas. Até um mercado negro foi criado, por onde circulavam fotografias montadas, gravações forjadas e bilhetes supostamente escritos pelo aposentado, mas um artefato em especial intrigava a todos e seu valor era inestimável, segundo o seu dono. Aconteceu mais ou menos uma semana após a morte de Judite, quando a vizinhança sempre acostumada à sua presença de espírito do sempre bem-humorado senhor Benevides, começou a suspeitar de sua longa ausência. A hipótese de uma viagem foi prontamente descartada, pois as refeições além de entregues eram pagas religiosamente. Embora quase todos tenham batido à sua porta sem sucesso. Eustáquio, parceiro inseparável de carteado, insistiu a ponto de fazer vigília em frente ao apartamento do amigo. Por ter uma idade já avançada, às vezes era vencido pelo cansaço e ausentava-se de corpo presente. Porém, numa ocasião acordou com o bater da porta de Benevides. Ele acabara de estar ali, do lado de fora, bem na cara do amigo e ele não o viu. Mas como até o crime perfeito deixa vestígios, o senhor Eustáquio examinou a cena, revirou o lixo e ali nada encontrou. Ao voltar à frente da porta percebeu um objeto metálico, fosco, caído ali no chão. Era uma chave. Abaixou-se na velocidade de um velho apressado e apanhou aquele objeto que hoje poderia representar a sua independência financeira. Testou a chave na fechadura e o encaixe foi tão perfeito quanto uma faca pontiaguda fincada em um pote de manteiga. Virou à chave para esquerda com a sutileza de quem segura a mão de um recém-nascido e lá estava Eustáquio com a porta destrancada à sua frente. Levou a mão à maçaneta, mas antes de entrar ponderou que abri-la seria mais do que adentrar o apartamento do amigo, mas romper a barreira invisível do respeito e da honra, valores dos mais apreciados pelo ser humano que atinge a pós-maturidade. Neste caso o respeito foi muito mais forte do que a curiosidade e venceu a batalha. Eustáquio retirou suavemente a chave da fechadura, enfiou-a em seu bolso e deu a vigília por encerrada, tornando-se a partir daí o guardião do segredo por todos esses anos. Muitas foram as ofertas pela relíquia, mas a resposta sempre única e inabalável rejeitou até o apartamento da cobertura do prédio em que morava com a filha única Lourdes, que nunca se casou, tampouco teve filhos e não se conformava com a queixodurisse do pai. Lourdes já mal lhe dirigia a palavra quando naquela manhã de estranheza coletiva na praça onde não houve carteado, pois Eustáquio definitivamente desistira de acordar. Lourdes chorou sorrindo e mudou-se para a cobertura. O segredo já não era mais dela e nem do senhor Benevides, flagrado pelos condôminos, sentado ao lado de sua eterna esposa que pingava formol sobre a mesa posta.