quinta-feira, 1 de julho de 2010

O povo cacto

Dona Jandira chegara aos sessenta anos de idade com a proeza de nunca ter assistido televisão em toda sua vida. Nunca viu e nem poderia. Comer era mais importante e alimentar uma família de seis pessoas era uma tarefa digna de medalha de honra ao mérito. No meio do deserto, sobre um chão que enxada nenhuma jamais ousou trabalhar, somente a velha pá enferrujada cumpria com sua função de prover a última morada àqueles que a sede e a fome extrema vitimavam. De seis se tornaram três. Um se foi para nunca mais voltar e nada nunca mais se soube a seu respeito. Nada de fotografias na parede, ali a lembrança é tácita e a morte abrevia o sofrimento de quem pretendia criar os filhos para vê-los virar homens feitos. A expectativa de vida é o dia de amanhã se Deus assim desejar. Mas o povo espinhudo e teimoso resiste ao massacre do chão rachado achando água nem que seja a cem léguas de lá, nem que haja mais barro do que água, nem que tenha que dividir com os jegues, calangos e carcaças e voltar com o peso no ombro e na cabeça, sem se avexar porque daqui a dois dias tem mais pernada. O que sabia do mundo sabia de ouvir falar. Mandava o filho moleque de sete anos até a venda na cidade todos os dias não para comprar comida, mas para buscar notícia lá de fora, na única televisão que se sabia existir num raio de mil léguas.


- Que qui ocê fico sabendo? Perguntava a velha mãe.

O moleque até os dez nunca trouxe nada que prestasse além de sonho esquisito de “ir embora para Sumpaulo pra inricá i istudá”, falava sempre antes de dormir. As notícias que interessavam mesmo só começaram a chegar depois dos onze anos de idade. Daí em diante as coisas começaram a mudar. Jeremias, o filho das notícias, já tinha que ir mais vezes lá fora para buscar notícia, estudar e aproveitar para trazer mais comida. Um dia chegou em casa com um brilho diferente nos olhos.

- Ocê ouviu coisa boa hoje? Perguntou a mãe curiosa com a felicidade incomum do filho.

- Eles falaram que vai passar um rio aqui perto de casa.

- Mas ocê tá embestando de novo, tá? E desde quando rio muda de lugar?

As notícias não paravam de chegar. A recém incorporada hora da janta era o momento de compartilhá-las, pois no café da manhã, este não menos recente que a janta, não teriam tempo, pois Jeremias tinha que sair cedo para o trabalho e depois para a escola. Porém um dia, com a boca cheia de macaxera cozida, prometeu à mãe um presente que ela sempre sonhara a vida toda e jamais pensou em ter.

- Eu vou trazer a notícia mais bonita do mundo pra sinhora.

- É, meu fio. Deus te ouça.

E no fim do dia, diante do prato de jerimum com feijão e carne de sol, ele anuncia à mãe que a luz estava para chegar. Ela mais do que calejada pela vida duvidou só se convencendo quando viu os rapazes de chapéu de plástico furando o chão, desta vez não para enterrar, mas para semear as esperanças.

No primeiro jantar à luz de lâmpadas, Dona Jandira fez um pedido ao filho Jeremias:

- Ocê sabe o qui eu mais quiria nessa vida? eu quiria vê as notícia.

- O filho até pensou em levar a mãe até “lá fora” para ver com seus próprios olhos, mas teve uma idéia melhor. Naquele dia demorou-se um pouco mais do que o normal para voltar para casa. A janta já estava pronta e servida sobre o fogão à lenha e nada de Jeremias. Dona Jandira entristecida pela ausência da companhia de sempre na refeição noturna, arrumou seu prato, comeu sozinha e resignada. Já se preparava para dormir, pois teria que acordar as galinhas no dia seguinte para apanhar os ovos quando ouviu um barulho na porteira. Viu o filho entrar em casa com uma caixa nos braços. Não fazia a menor idéia do conteúdo e teve até mais medo do que curiosidade para descobrir.

- Trouxe a notícia pra sinhora, mãe. Agora a senhora vai vê notícia.

O coração bateu mais forte e as mãos calejadas foram levadas a enxugar as lágrimas que formavam um rio que fazia seu curso pelas curvas das rugas do velho rosto, que teimava em não acreditar que o “lá fora” entrava agora em seu lar. Passou a noite em claro, vigiando o presente, que ainda desligado, aguardava pelo dia seguinte quando seria finalmente instalado junto a uma antena UHF. No dia seguinte não houve café da manhã por puro capricho e ansiedade. Jeremias subiu no novo telhado da casa e lá fincou a nova antena, puxando o fio até a caixa de quatorze polegadas, que ficara gigantesca dentro da casinha de dois cômodos, o segundo recém inaugurado. Dona Jandira sentou-se de frente ao televisor com os lábios contraídos e as mãos apertadas entre as pernas, num balançar imaginário da cadeira que não acompanhava os movimentos do corpo. De repente um facho de luz inundou a sua retina e uma tempestade entupiu os seus ouvidos hipnotizando a velha guerreira. Assim ficou por três dias, só saindo dali para fazer suas necessidades e cozinhar. Jeremias chegou do trabalho no terceiro dia e não viu a luminosidade azulada da TV na janela da frente. Temeu que um descuido da mãe houvesse arruinado seu sonho e encontraria a mãe em prantos por ter estragado seu presente. Quando entrou em casa surpreendeu-se com o aparelho desligado e encaixotado.

- Mãe, a senhora tá doida é?

- Ocê vai levar esse troço embora amanhã mesmo.

- Por quê?

- Ocê pensa que sua mãe se engana fácil, né? Da próxima vez me traga notícia e não mentira. Mentira é pecado e tem perna curta.

Dona Jandira não quer nem mais ouvir falar das notícias.