quinta-feira, 1 de julho de 2010

Casa de praia

Não há mais nada que Amâncio possa fazer. Se ao menos não tivesse sido derrotado pela cirrose em decorrência de sua entrega ao etilismo, provocada pela constatação mais que tardia de um amor não correspondido, ou pela estratégia de angariar a pena alheia ao se sabotar, fazendo de sua vida um Oásis de derrotas e desilusões, teria visto netos, com sorte bisnetos, mas apenas seus dois filhos tratariam de conservar o que dele restava, pois após anos de martírio, Lindalva se deu por vencida e foi cuidar da própria vida, que acreditava ainda haver chances de recuperar, mesmo que não plenamente, mas pelo menos sua dignidade, pois por mais falta de companheirismo que pudesse aturar, o desamor jamais seria superado. As promessas de Amâncio jamais se cumpririam, pois faltava a ele o ingrediente principal da receita, a liga, o segredo da nona. Isso ele sempre soube que não seria capaz de dar, a não ser que fosse à Rosália, mas Lindalva o quis mesmo assim, apostando em seus dotes e virtudes, como a paciência, o companheirismo, a disposição para o trabalho e o cuidar, que de certo eram artigos de luxo para qualquer ser humano carente de referências parentais. Não que ela buscasse um marido para suprir-lhe a falta do pai, por que sempre dava conta de suas responsabilidades como ninguém e era tão orgulhosa disso que sentiu uma obrigação de passar adiante, desejando assim seus filhos. Amâncio tinha o perfil do homem forte, pai austero e trabalhador, mas por trás das paredes da fortaleza haveria rachaduras, ervas daninhas, pântanos e um pouco, apenas um pouco de esperança, oriunda de uma fé irracional nas reviravoltas da vida, mesmo que a verdade implacável se mostrasse nua em carne perante seus olhos, pois Rosália deixara bem claro que não o odiava, apenas não se importava com sua existência. Amâncio não haveria de perder para o ódio, irmão gêmeo do amor, mas para a indiferença, esta sim, implacável e inimiga mortal da vida. Tivesse ele a maturidade para discernir os limites do respeito ao próximo, não teria se aventurado em paixões inconciliáveis à sua suposta coerência e manter-se-ia fiel não à sua amada, mas aos princípios ensinados por seu pai e sua mão, sua mãe e seu colo. Disso jamais poderia reclamar, pois nunca se viu tanta dedicação, tanto apreço pelo desenvolvimento de um ser humano capaz de julgar com altivez e imparcialidade, contemplando prós e contras e advogando sempre em nome da verdade. Utopia nos move e nada são, senão a exacerbação dos sonhos de nossos pais, mas para Amâncio parecia ser tão lógico e decidido, que sua mente apenas se ocuparia em cumprir a sina, o que muito orgulhava seus pais. Os pais são os escultores de nossas almas e nós uma massa bruta de concreto, porém tão vulneráveis que não somos capazes de negociar nosso destino, e ao menor sinal de questionamento somos repreendidos como desrespeitosos e ao persistirmos na luta, somos teimosos e impossíveis. Só nos resta o choro, que se não funcionar pela compaixão, funcionará pelo incômodo ou embaraço público. Na boca de Amâncio enfiavam uma chupeta, que ao ver Rosália era escondida às pressas no bolso, porém ela também trazia consigo a sua, e de tão íntimos, trocavam os pacificadores de boca e amavam-se, trocando os sabores de saliva, sem que sequer houvesse um toque dos lábios. Sempre vizinhos, os quatro pais sonhavam com o dia da fusão das famílias, assim poderiam sempre passar as férias juntos, na casa da praia, iriam juntos ao supermercado, ao estádio e quiçá viveriam seus últimos dias no mesmo asilo, juntos até a morte. Por isso Amâncio era apenas dois meses mais novo do que Rosália. No dia primeiro de abril de mil novecentos e oitenta e quatro, Amâncio era trazido à luz, de forma natural, após os nove meses de muita expectativa e planos, dores e enjôos, que desde agosto infernizavam a vida de Rosalice. Para Amâncio, aquele agosto de mil novecentos e oitenta e três na casa da praia foi o início do fim.