domingo, 20 de junho de 2010

Espanta Relento

O gorila passeia pelas ruas sem ser incomodado, levando um cobertor de lã vermelho, que serviria muito bem para agasalhar-lhe o corpo não fosse o descabido volume de pêlos que ostenta orgulhosamente. Procura um refúgio, uma sombra que possa acomodar-lhe o já cansado corpo de tantas macaquices ignóbeis, que poderiam ter-lhe custado a vida, mas macaco que se preza ri e bate palmas para angariar a simpatia do público que facilmente se deixa levar. O rei simiano deposto de velho já é surdo. Perdeu o seu sentido na arena e agora vaga sem público. De selvagem lhe resta o espírito que se recusa a ceder ao corpo numa luta homérica que orgulharia à Gaia. Se pelo menos fosse dotado do dom da transformação, arranjaria um emprego num daqueles parques itinerantes, onde ainda poderia reviver seus dias de glória, mas de certo a forma humana provocaria mais medo. O cobertor vermelho de lã é o que lhe resta. Mas eis que ao longe vem chegando o Espanta Relento, com sua batucada, bandeiras rubras e mil foliões incansáveis, a cantar por mais de vinte quarteirões a mesma toada de escárnio e desabafo. Chegam para ficar, pois passar é coisa para quem gosta de perecer. O batuque vai ficando cada vez mais alto e o nosso gorila parado no meio da rua sente a vibração do chão combinado com o deslocamento do vento causado pela euforia que toma as passagens e não deixa uma pedra sem pular. O macacão é engolido pelo cordão e como não sabe viver se não for de micagens se enrola no cobertor vermelho de lã e é prontamente acolhido como o folião mor. O seu brado é o dos Kunacaca Una. Foi a primeira vez do Espanta Relento tomando as ruas da cidade. É de vermelho e gorila que vai o nosso bloco.