sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Não Larguem Suas Fantasias




Há um silêncio no ar que de tão denso corta-se com uma faca.
É a ansiedade que precede o acontecimento preparado por muitas mãos, cabeças e corações e que mesmo os mais experientes e esperançosos ainda não são capazes de fugir.
Não se pode saber quantos milhões de olhos estarão voltados para aqueles setecentos metros de comprimento por onde passarão os devaneios concretizados por artistas famosos que ganham vida nos corpos anônimos em nome da celebração da alegria, da crítica marota e principalmente, da arte de rir na cara da realidade imperiosamente dura.
Durante o ano que antecedeu este momento, por várias vezes, acordado ou não, via a mim mesmo, como se estivesse sobrevoando a avenida, fantasiado e em pleno estado de êxtase sambando e vivendo o sonho de contribuir diretamente para a realização não de um sonho, mas uma meta, que é ver a Portela após tantos anos sagrar-se novamente campeã do maior carnaval do planeta.
Felizmente, eu não sonho sozinho. Milhares, muitos milhares além daqueles que a escola pode comportar, sonham junto comigo.
Ainda houve um último suspiro de esperança quando surgiu a possibilidade de substituir alguém que, de última hora, viesse a desistir. Meu coração se tornou enorme para meu pequeno peito e várias horas de sono foram dignamente sacrificadas com o sonho desperto no qual, mesmo deitado em minha cama, sambava e cantava o samba malandro que rasgava seu curso até a Apoteose.
Mas como posso substituir alguem que desiste desse privilégio? Haverá alguém capaz de declinar de tal honraria? Na minha modesta opinião, só quem estiver morto, e assim mesmo se for um morto não Portelense, pois Clara, Candeia, Dodô, Caetano, Paulo, Rufino, Manacéa, Doca, Natal e muitos outros cumprirão com sua obrigação e marcarão presença.
A Portela transbordou e ao transbordar estendeu a avenida para as arquibancadas, frisas, camarotes, ruas, calçadas e sofás. Todos, sem demagogias e exceções, serão fundamentais para a conquista do bem maior.
Portanto, aos fantasiados, não ousem desistir. Sambem como se fosse o último samba de suas vidas. Pintem a vida em azul e branco e façam da avenida o rio que nunca deixará de passar em nossas vidas, mentes e corações.
Salve a Portela!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Anatomia da Alma Portelense




Parece senso comum falar em uma paixão e ter apenas o coração na condição de representante oficial e símbolo único do arrebatamento humano. Contudo, urge a necessidade de que se faça justiça aos menos louvados componentes corpóreos, que talvez devido à pouca aptidão poética, são relegados a segundo plano, quando não esquecidos. Para o melhor entendimento, tomarei como demonstrativo a descrição da formação do corpo e alma de um Portelense, o que aparentemente não causaria, ou não deveria causar, nenhum tipo de surpresa aos estudiosos da matéria, das ciências biológicas, tampouco aos poetas que não ousam desafiar regras estabelecidas por quem nada entende da capacidade que tem o amor de transcender os limites fixados pela obsessão de uma verdade material.

Tudo começa no sono de uma gestante, que ao adormecer recebe a visita de uma águia de luz, que por seu turno gentilmente pousa sobre a barriga repleta de anseios e sonhos em forma de um embrião, que nem sequer ainda fora notado por máquinas e emissores de ondas sonoras. O pouso da águia de luz de tão leve e sutil acaricia e aquece o ventre, transmitindo uma sensação inigualável de conforto e bem estar. Tais sensações são fundamentais para o passo seguinte, pois os mais incautos podem vir a sentir uma certa angústia com a descrição. É, contudo, importante que se diga que tudo se passa num plano entre o corpo e a alma, exatamente onde os olhos humanos ainda não foram capazes de alcançar, pois lá as emoções fazem morada.

Sentada sobre a barriga da gestante, a águia de luz curva-se, como se fizesse uma reverência, e com a precisão inigualável da ponta de seu bico toca a camada mais fina da pele do peito, no ponto exato entre os seios, fazendo um corte vertical absolutamente indolor. O procedimento se repete até que a última camada seja também rompida expondo assim o órgão pulsante. A águia faz do coração seu banquete, saciando sua fome e cumprindo seu ritual. Nenhuma artéria é tocada, nenhuma veia é rompida, pois tudo deve ser preservado para que a transição seja bem sucedida.

A cavidade toráxica, por ora vazia, transforma-se em ninho e ali a águia de luz deposita um ovo que irá chocar por enquanto durar ainda o sono da gestante, que não corre qualquer risco de vida, pois a ausência do coração é suprida por uma ligação provisória com o coração da águia por meio de um fio condutor que faz com que o sangue ainda vermelho continue circulando, irrigando cada milímetro do corpo adormecido.

Finalmente o ovo se quebra, nasce um filhote um pouco desengonçado, mas não menos iluminado, que prontamente se conecta às artérias e veias e que começa a bater as asas de forma a fazer com que o agora sangue azul, vá aos poucos se misturando ao vermelho e à medida que vai sendo filtrado, apenas o azul permanece. Completado o processo, formam-se rios de forte correnteza e afluentes de sangue azul que banham cada célula do corpo com dignidade, elegância, respeito e muito samba. O feto passa a ser alimentado via cordão umbilical por todos estes nutrientes até que seu coração já esteja também ao ponto de ser devorado pela águia que pulsa no peito da mãe e substituído por sua própria águia de luz.

            No cérebro formam-se tempestades de relâmpagos e trovões que reverberam nos confins dos membros e nas floras distintas, despertando a sanha guerreira e caçadora que retorna ao coração, completando o ciclo incessante de retroalimentação.

            A águia de luz, ao certificar-se de que o funcionamento do novo corpo já é autônomo, mastiga o corte, juntando os dois lados rasgados da pele e finaliza derramando uma lágrima que além de eliminar quaisquer impurezas que possam querer se aproveitar da oportunidade, também produz uma cicatrização tão perfeita que é imperceptível a olho nu. A águia de luz alça seu vôo e vai em busca de outras gestantes enquanto que aquele corpo ao despertar pela manhã nada sente, senão uma pontada nostálgica e um desejo irresistível de poesia que só se sacia quando se chega à Portela.

            Quando enfim o corpo fenece, como um ovo ele é rompido e a águia de luz que ali vivia se liberta, buscando outras gestantes, continuando o ciclo da transformação em algo maior. Transcendendo a morte. Semeando a vida.

           

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Cheiro de Mato, Terra Molhada



Foi a mim confidenciado que Dona Dodô chegou ao infinito e a primeira coisa que tratou de fazer foi reunir por lá todos os Portelenses e organizar um desfile celestial.

Tinha como objetivo mostrar aos habitantes do além como sua presença majestosa era capaz de unir sob o mesmo manto ilustres e anônimos e fazê-los jorrar como uma fonte de água pura que se transforma em rio que ganha corpo e quando vira correnteza se mistura à fúria dos oceanos mais revoltosos a ponto de não sabermos mais distinguir a água doce da água salgada.

Os santos e Orixás impressionados com aquela demonstração de força e beleza não puderam se conter, deram suas bençãos e foram além, ergueram aos olhos de todos que ali se faziam presentes nossos queridos Paulo, Caetano e Rufino, que flutuavam num bailar magistral como águias que ensinam seus filhos a voar.

O céu ficou pequeno e resolveram que deveriam juntar-se aos filhos da terra, que por aqui, preparavam-se para pisar na avenida e mostrar o que significa desfilar sob o Azul e Branco de um pavilhão repleto de glórias e história. E com a benção de Iansã e Oxóssi fizeram-se água, trovoada e imbuíram-se do espírito de caçador, de guerreiros.

Quando a Portela passou pela avenida no ensaio para o carnaval, alguns chegaram até a acreditar que fosse apenas chuva que caía sobre a escola. Mas o Portelense sabe o que era. Sempre soube. Clara, Candeia e Dodô jamais faltaram à Portela. E nunca faltarão.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Lá vem o Didi Camelo




- Vai dormir menino, senão o Didi Camelo vai te pegar.
Dizia vovó quando saía de seu quarto no meio da madrugada para beber água e se deparava com a luminosidade azulada da velha Telefunken, estrela da sala, onde montava meu acampamento de férias no sofá marrom de listras laranja.
- Já vou vó, tô só acabando de ver esse filme.
            Geralmente isso era verdade. Assim como o temor com a possibilidade da vinda indesejável do Aranha, mais conhecido como Didi Camelo. Para mim e meus irmãos que morávamos na cidade grande, tais lendas deveriam ser encaradas como coisas da roça, interiorices descabidas para amendrontar crianças e forçá-las a submeterem-se ao regime dos mais idosos. Acontece que meus avós maternos nunca foram disciplinadores, tampouco faziam questão de regras que não despertasse em nós o desejo de retornar nas férias seguintes. Minha avó já era obrigada a privar-se de nossas aventuras em seu quintal por muitos meses, o que nos levava a crer que invocar o Didi Camelo era muito mais uma questão de manter a lenda viva do que causar-nos qualquer medo. Mesmo que de alguma cautela beirando o receio acometer-me-ia.
            Sol raiava, galo cantava, hora de ir à padaria portando a caderneta rosa onde a opulenta proprietária do estabelecimento faria as anotações de seis pães, um litro de leite no saquinho e um sonho não requisitado por minha avó, mas que de tão garantido, o mimo não seria motivo de reprimenda. No caminho encontrava o Rafa, o Edmar, o Romário, o Serginho, o Wander, Tatú, o Renatinho, Sirley e seus irmãos gêmeos Sidnei e Sidclei, mais conhecidos como Capetinhas. Hélison era o filho da vizinha que me acompanhava pela rua até a padaria e auxiliava-me, ou vice-versa, com a tarefa de convocar os supracitados fabulosos praticantes da pelada de rua, esporte oriundo do futebol, praticado na terra batida com cacos de vidros escondidos como em um campo minado, à espera das pontas de nossos dedões e algumas unhas que invariavelmente ficavam pelo caminho. Acredito hoje que daí origina-se a famigerada expressão “dar o sangue”, usada tão hipocritamente pelos atuais praticantes do esporte bretão.
            Café da manhã tomado, ganhávamos a rua e preparávamos as traves de pedra ou sandálias de borracha vestidas nas pedras, para que logo em seguida tirássemos o zero-ou-um e déssemos início às escolhas dos craques. Nem sempre a formação inicial seria a mesma no decorrer do dia.
Eram raros os motivos pelos quais, uma pelada deveria ser interrompida. Além das eventuais passagens de automóveis em pleno meio de campo, só parávamos para beber água, almoçar, comprar pipoca, que aliás nos mobilizava com certa antecedência, pois ao ouvirmos a buzina do pipoqueiro ao longe, corríamos para casa a fim de levantar os recursos necessários em tempo hábil, já que ele com a obrigação de cobrir todo o território do bairro, não poderia deter-se tanto apenas naquele acanhado estádio improvisado. Os outros dois motivos pelos quais parávamos eram a total falta de iluminação artificial adequada para a prática da pelada ao cair da noite e a visita do Didi Camelo, advindo sempre do bar do Zé Guarda, anunciado pelo forte odor etílico e a inconfundível silhueta da cabeça enterrada no pescoço e os braços levantados como os de um caubói que portasse duas pistolas, uma de cada lado da cintura, as pernas flexionadas e envergadas como alicates e a coluna em forma de ponto de interrogação. Disse silhueta, pois Didi era um senhor de idade, muita aliás, negro com um bigode branco, barba rala e os olhos sempre arregalados. Estes detalhes só eram  percebidos quando aproximava-se de nós a ponto de acertar uns safanões em resposta às provocações de moleques que se divertiam com o andar que lembrava uma aranha. Chamávamos de Aranha e ele se irritava. Armava os braços e cantava – Na Bahia tem, capoeira zum zum zum, zum zum zum zum zum zum, capoeira mata um – dava um chute no ar que mal passava de três centimetros do chão e quase caía.
            A Lenda do Didi Camelo, depois de um certo tempo perdeu força e precisaram piorá-la ou redimensioná-la. Didi Camelo virou Lobisomem. Pessoas juravam tê-lo visto transformar-se na fera e correr atrás daqueles que ousavam andar pelas ruas escuras do bairro às altas horas da madrugada.
Certo dia, Didi foi encontrado caído em uma sarjeta mal acabada, pelas ruas negligenciadas, despido de dignidade, roubado de seu respeito e desprovido de vida. Apesar de constantemente desomenajeado pelas crianças que repetiam as lendas infundadas e carregadas de incompreensão de seus pais e avós.
Alguns anos mais tarde, ouvi pela primeira vez Bahia de Todos os Deuses, samba enredo do Salgueiro do ano de 1969. Didi Camelo nos enfrentava com esse samba. Lutava contra o mal munido de arte, com uma invocação aos Deuses e à capoeira.
Dia desses disse à minha vó que ela estava certa. Sempre que escuto a obra de arte do Salgueiro, Didi Camelo vem me visitar com os deuses da Bahia. Vem com zum zum zum, Preto Velho Benidito e a Nega Baiana. Com seus olhos brilhando e o coração palpitando de tanta felicidade. Epa Babá Vovô Didi Camelo!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Viver de Barros



Hoje os passarinhos não cantaram em azul
O mundo deixou de rastejar sob o peito da lesma
Os sapos cansaram de engolir vento e dormiram-se de pedra
Não houve balé de vento no horizonte regurgitado de sol de lata
Uma gralha desligou a máquina de esticar o mundo
E para não mosquitar os rios, os peixes se vestiram de chafariz e sopraram silêncio nas minhocas de um pescador de borboletas
Quem me dera ser o barro de parir palavra
Quem dera a palavra digna de ser ave tornar-se relógio com um ponteiro de fabricar infinito
Para sentar-me num galho de sol e assistir a vida virar Manoel.