quarta-feira, 14 de julho de 2010

Assim é covardia



Conversava um dia desses com um grande amigo meu sobre um dos assuntos "menos recorrentes" em nossos encontros: O futebol. Falávamos de grandes jogadores, grandes equipes, formações históricas, grandes decepções e alegrias, quando ele me indagou a respeito da minha escalação de uma seleção brasileira imbatível, mesmo que o futebol não nos permita fazer tais prognósticos, pois é dentre todos os esportes o mais imprevisível e o único que desafia a lógica de peito aberto. A pergunta de meu amigo foi provocativa, pois ele já trazia a sua escalação de uma seleção bem melhor do que a minha, sendo ele maior conhecedor da história do futebol do que eu.

- Só vale escalar os vivos, mesmo veterano ou ex-jogador. Só os vivos.

Depois que ele ditou as regras que claramente o beneficiariam, eu não tive escolha senão apelar covardemente para a escalação mais fantástica que este país já viu.

- Pois está bem. Escalarei meu time, mas não quero ser interrompido e você só poderá contestar quando eu terminar, fechado?

- Fechado.

Lá fui eu:



Goleiro: Pedro Luis e a parede seriam intransponíveis por razões óbvias. Camisa 1.

Lateral direito: Envergando a camisa dois estaria o filho do grande João, o Diogo Nogueira, com muita vitalidade e liberdade para subir ao ataque, pois seus cruzamentos sempre acabam lavando os adversários à loucura. Tal pai, tal filho.

Zagueiro central: No comando da zaga ninguém menos do que o grande Zeca Pagodinho, que manda na cozinha e não tem medo de cara feia. Se tiver que espanar, espana. Joga simples e sabe tudo. Camisa 3.

Quarto zagueiro: Ao lado de Zeca, a experiência é fundamental e o nome ideal para ocupar a vaga é de Martinho da Vila, com sua classe e requinte para sair jogando com segurança, tranqüilizando o resto da zaga. Camisa 4.

Lateral esquerdo: Conhecido como Pinduca, o homem da voz de Deus, Milton Nascimento é absoluto na posição, pois na lateral esquerda precisamos de alguém com raça e coração jovem, que chegue sempre ao fundo e surpreenda a zaga adversária, como um trem mineiro. Camisa 6.

Médio volante esquerdo: Toquinho é o nome. Seus lançamentos precisos de longa distância nos proporcionariam contra ataques mortais, sem contar a sua categoria e experiência para fazer o tempo correr. Camisa 8.

Médio volante direito: Com mais liberdade para atacar do que o companheiro da esquerda, João Bosco seria o formiguinha, o incansável, o falador e capitão do time por sua habilidade com diversas línguas (algumas desconhecidas do grande público), mas com a perspicácia e visão de jogo inigualável. Não seria o carregador de piano, pois é muito habilidoso para isso, mas ajudaria no combate no meio de campo. Camisa 5.

Meia-armador: Quem joga nesta posição precisa enxergar o campo inteiro. É o famoso maestro que joga de cabeça erguida com elegância e classe inigualável, de passes precisos e inversões de jogo, tem também grande poder de finalização. Precisa saber se movimentar sem a bola e quando o time está ganhando dita o ritmo. Só pode ser o Paulinho da Viola. Camisa 10.

Ponta direita: Nosso time é ofensivo e joga com pontas bem abertos, para evitar a retranca adversária. Na direita o azougue Djavan, criando jogadas tão complexas que atordoam seus marcadores e levam a galera ao delírio, relembrando os tempos do romantismo no futebol. Camisa 7.

Centroavante: Centroavante que se preza tem que ser tão goleador quanto polêmico. Vive de gols, mas quando faz belas jogadas se torna inquestionável. Quem se não Gilberto Gil para ser nossa esperança de goleadas? Com ele a festa é garantida. Camisa 9.

Ponta esquerda: Posição quase extinta no futebol moderno, mas que tem neste representante todos os pré-requisitos para que seja escolhido como o melhor do time. Inteligência, rapidez de raciocínio, habilidade ímpar, ginga e molejo, irreverência, malandragem, cara de pau, coragem e acima de tudo, amor ao futebol. Chico, com a camisa 13. É o único que terá total liberdade dentro de campo, sem a obrigação de marcar a saída de bola do adversário, mas ele marca assim mesmo só de birra.

No banco de suplentes estarão:

12 – Arlindo Cruz (goleiro)

15 – Jorge Aragão (zagueiro)

16 – Jorge Benjor (centroavante)

17 – Dudu Nobre (atacante)

171 – Dicró (malandro)

45 – Caetano Veloso (Curinga)

19 – Ney Matogrosso (lateral esquerdo)

É tanta responsabilidade comandar uma seleção dessas que escolhi dois técnicos com vasta experiência e sabedoria: Monarco da Portela e Nélson Sargento da Mangueira. Dizem que a sintonia entre eles é fina e quando se juntam não tem para ninguém.

- Pronto. Esta é a minha seleção.

Meu amigo ficou me olhando e não disse nada de imediato. Bebericou seu copo de cerveja; olhou para o último croquete que restou da porção, partiu-o ao meio e mastigou devagar, tentando ganhar tempo para pensar em uma saída. Levantou-se, tirou um dinheiro do bolso e jogou na mesa:

- Não dá. Assim fica difícil.

Foi embora tão inconsolável que nem sequer se despediu.


Fotos: Lisandra Arantes