terça-feira, 20 de maio de 2014

Rainha da Matinha



Já caminho por estrada estreita

Mais acima vem a curva

Bebi muita água turva

Já cacei sol na sombra à espreita

Resisti à tempestade

Já caíram frutos que dei

Já cantei o que sonhei

Esgotei a brevidade

Escutei muito lamento

Já careço de carinho

Já casei com passarinho

Abriguei  nascimento

Já cá estou a esperar

Valeu a pena toda a luta

Sou a mais linda das Jaqueiras

Já catastes minha fruta

O Solar dos Oliveiras

Nosso canto nosso Lar  

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Roda de Samba




Quando  a roda de samba começa
Chega gente de todo lugar
Vêm pra quadra ou terreiro
Pra rua ou mesa de bar
É o encontro dos poetas
Com a arte popular
Nossa escola, nossa casa
Nosso jeito de brincar
A Mulata, Mulateia
O Cavaco, Cavaqueia
A Cuíca, Cuiqueia
Seus choros a nos encantar
O Pandeiro, Pandeireia
O Violão, Violeia
E o Surdo, Surdeia
E o povo se põe a cantar
O Pagode, Pagodeia
E o Partideiro, Partideia
Atabaque, Atabaqueia
Se começa não pode parar
A Mangueira, Mangueireia,
O Salgueiro, Salgueireia
O Império, Impereia
Na Escola de Samba  a voz do povo não vai se calar
E a Vila, Vileia
O Estácio, Estaceia
A Portela, Porteleia
Viva a roda de Samba,  a ginga, a elegância, e a baiana a girar
Clara Nunes, Porteleia
A Madrinha, Manguereia
O Martinho, Vileia
Dona Ivone, Impereia
O Paulinho, Porteleia
O Cartola, Manguereia
O Noel, Vileia
O Candeia, Porteleia
Jamelão, Manguereia
O Luís Carlos, Vileia
O Monarco, Porteleia
E o Samba, Sambeia
E o Paulo, Sambeia
E o Caetano, Sambeia
E o Rufino, Sambeia
E a Vicentina, Sambeia
Sambeia
Sambeia

terça-feira, 18 de março de 2014

Minha Doce Majestade





Andando pela rua, assoviava umas notas despretensiosas de um samba muito antigo.
Era uma melodia feliz, enredada por melancolia de cor azul e uma nostalgia de fundo branco.
Um passarinho pousou em meu ombro e soprou – És poeta? – Ora, claro que não – respondi com tom de surpresa. Ele insistiu – então és compositor? – parecia zombar de mim – Claro que não, por que perguntas?
Tão linda melodia – disse ele – tem raíz forte, cheiro de escura madeira, poesia repleta de luz. Beleza assim só ouvi em Madureira e Oswaldo Cruz.
Alegrei-me e arrisquei mais algumas notas. Seguíamos os dois a cantarolar em assovio, ele em meu ombro, eu sob seus frágeis pés. Outros dois também pousaram e juntaram-se à cantoria. Éramos agora, um desfile, um cordão, uma alegoria.
E o samba saía de nossas bocas, doce como mangas suculentas que toda criança quer. Como aqueles cantados no quintal de Dona Esther. Os acordes eram de gosto fino, desenhados no grafite suburbano e defendidos em voz altaneira. Como faziam Rufino, Caetano e Paulo Benjamim de Oliveira.
Era uma calçada de um bairro comum e era nossa passarela. Não assoviávamos para o rei, para o cacique, nem para juíz algum. Celebrávamos o samba, no cair da tarde, brindando à noite bela.
O sol nasceu e dos meus amigos me despedi. Voaram os passarinhos de volta a seus ninhos, mas prometendo sempre voltar. Tão logo falemos de alegria, tão emocionados nos pusermos a cantar.
E eu que sonhei acordado, agora fecho meus olhos para enfim repousar. Pois como já dizia o poeta, se eu for falar da Portela, hoje não vou terminar.  
   

segunda-feira, 10 de março de 2014

Amizadear



Em volta de um garrafa, uns copos
Sob os copos e a garrafa, uma mesa
Em volta da mesa, umas cadeiras
Sobre as cadeiras, uns amigos
Entre os amigos, conversas
Entre uma conversa e outra, risos
Após os risos, brindes
Entre um brinde e outro, goles
Antes dos goles, reflexões
Nas reflexões, idéias
Com as idéias, desejos
Através dos desejos, sentimentos
Dentro dos sentimentos, os amigos
Antes de amigos, irmãos
Por irmãos, uma opção
Por opção, uma companhia
Na companhia, o conforto
Na ausência, reticências
E reticências além do fim...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Olha quem mexeu no queijo





                                      (Segunda Classe - Tarsila do Amaral)
  
Se você tem o desejo legítimo de saber quem mexeu no seu queijo saiba que foram os que estavam lá meio da pastagem tocando a boiada, ordenhando as vacas, perseguindo  bezerro desgarrado, cozinhando um punhadinho de feijão com carne de sol como única refeição do dia, buscando água com lata na cabeça a léguas de distância, coalhando o leite, arando a terra seca molhada apenas com lágrimas de dor e esperança, vendendo a produção para as cooperativas e recebendo um quinto do valor de seu esforço quando muito, caminhando de pé no chão para alcançar a sala de aula mais próxima, esperando o dia que um doutor venha fazer o que dele se espera, doutorar e enquanto esperam, seguem embalando o queijo, carregando as caixas até o caminhão, transportando-o para a venda, mercado, super, hiper, megamercado, repondo o estoque, fatiando, pesando, reembalando, etiquetando, registrando, dando o troco, servindo à sua senhoria, limpando os restos, pegando o ônibus, o trem, às vezes o metrô, subindo e descendo escadarias, invisíveis aos seus olhos, anos luz de seus pensamentos, inexistentes em  seu coração, desejando uma vida melhor, desejando não uma mesa transbordante, mas um pedaço legítimo do queijo ausente em outras épocas que agora recheia o pãozinho fresco de quem tem tanto direito ao queijo quanto qualquer um, inclusive você. Afinal de contas, quem disse que o queijo seria sempre só seu?